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A Luz no Fim do Mundo: Boas conversas que iluminam o mundo
CINÉFILOS
16 out 2019 | Por Júlia Carvalho (juliacarvalho2602@usp.br)

Um cenário pós-apocalíptico sem paisagens devastadas ou desastres naturais por toda a parte, mas com um grande problema: uma pandemia que matou praticamente todas as mulheres do planeta. Sobraram quase que exclusivamente, homens desolados pelas perdas de suas mães, filhas e mulheres – um ambiente frio, muito bem ilustrado pela neve que embranquece todo o longa. Foi essa a atmosfera escolhida por Casey Affleck em sua primeira produção como diretor. 

A Luz no Fim do Mundo (Light of My Life, 2019) tem Affleck, também, como roteirista e um dos personagens centrais. No filme ele interpreta o pai de Rag (Anna Pnowsky) aparentemente uma das únicas garotas que restaram após a peste atacar as mulheres. A trama gira em torno da necessidade do pai de estar constantemente protegendo a filha de um perigo iminente. Rag, de cabelos curtos e cerca de nove anos, é apresentada sempre como um garoto àqueles que cruzam o caminho dos dois. A ameaça, portanto, é construída na história como algo relacionado ao fato da filha ser mulher e ter nascido à época da pandemia.

Apesar do clima de suspense gerado por essa situação, algo que permeia todo o filme, não há uma preocupação em explicar o porquê da perseguição à garota. Não há o interesse em desenvolver as circunstâncias que permitiram que ela não morresse ou o que seria feito caso fosse aprisionada pelos homens que a perseguem. O fato é que ela e o pai vivem isolados – primeiramente na floresta e em casas distantes – e esse é o foco da narrativa: a relação construída entre os dois.

Ao deixar as ocorrências pré-apocalípticas e consequências de uma possível captura a cargo da imaginação de cada espectador, Casey corre o risco de abandonar certas partes que poderiam ser importantes para a compreensão da história. Entretanto, ainda que a falta de algumas explicações possa tornar o enredo um pouco turvo, especialmente no início, não compromete o entendimento da trama.

Rag e o pai em uma de suas conversas na barraca [Imagem: Divulgação]

Isso porque a preocupação central da produção é o relacionamento entre Rag e seu pai. Ele, muito carinhoso e paciente, está constantemente preocupado com a segurança da menina. Esse papel, desempenhado pelo pai desde a morte da mãe da garota, não parece ser muito complexo para ele. Ironicamente, em meio a esse cenário pós-apocalíptico em que ambos estão em estado de fuga e alerta constantemente, a maior dificuldade para ele está em contar histórias.

Esse obstáculo surge logo na primeira cena. Os protagonistas estão deitados na barraca quando o pai decide contar uma história para a menina, processo que dura longos dez minutos. O início extremamente parado do filme anuncia uma tendência que se estende por toda a produção: a valorização do diálogo. Affleck dispensa sequências infindáveis de cenas de ação e preza pelas longas e desenvolvidas conversas entre pai e filha. Alimentadas, muitas vezes, pela curiosidade da menina, as falas contrapõem a esperteza de Rag diante de certa incapacidade de seu pai de simplificar explicações.

Aliviados por um humor que surge, ainda que sutil, em meio às palavras dos dois, os diálogos são o responsáveis por criar a relação tão forte que existe entre eles. O silêncio, também muito presente na produção, contribui para a percepção dos gestos de afeto desenvolvidos entre pai e filha e para a sustentação do clima de suspense, presente até o final do filme. Os flashes de lembrança do pai dos momentos em que Rag era bebê e em que a mãe ainda era presente na vida da menina são extremamente bem construídos e atuam como outro elemento fundamental para a ilustração da relação entre os personagens principais.

A Luz no Fim do Mundo estreia dia 17 de outubro nos cinemas. Confira o trailer

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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