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A magia da caracterização nos filmes do século 18
CINÉFILOS
08 out 2012 | Por Jornalismo Júnior

Independência dos Estados Unidos, Revolução Francesa e Inconfidência Mineira, são alguns exemplos desse turbulento período. O Século XVIII, também conhecido como “Século das Luzes”, foi cenário de grandes transformações sociais e econômicas. Mas isso provavelmente seu professor de história te disse. O que ele não falou é que essas transformações chegaram também no âmbito da moda e provocaram alterações nos costumes e estilos da época. Dessa forma, não é estranho que um século intenso como o XVIII tenha sido marcado por tantos estilos: o barroco, o rococó e, por fim, a simplicidade e praticidade pós-revolução.

A moda encontrou na França quem a incentivasse. Começando por Luís XIV, que introduziu o uso das perucas na corte porque estava ficando careca, – costume que durou cerca de 150 anos na Europa; depois veio Maria Antonieta e sua ousadia que chocou a sociedade; terminando com a Revolução Francesa, onde os ideais de “liberdade, fraternidade e igualdade” foram absorvidos pela forma de se vestir: abandoram-se os casacos bordados, os vestidos armados, as perucas, os cabelos empoados. No lugar da corte francesa, de acordo com o site Portais da Moda, entrou o estilo inglês de campo.

Dessa forma, fica claro entender a frase de Gilda Mello e Souza, professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP: “A moda é um todo harmonioso e mais ou menos indissolúvel. Serve à estrutura social, acentuando a divisão em classe; reconcilia o conflito entre o impulso individualizador de cada um de nós e o socializador; exprime ideias e sentimentos, pois é uma linguagem que se traduz em termos artísticos”. A forma de se vestir é uma forma de diferenciação de classes sociais que esteve presente desde os primórdios da civilização, quando o homem cobriu seu corpo pela primeira vez com uma pele de animal.

Roupas
Embora o século XVIII tenha passado por grandes mudanças relacionadas à roupa, o que mais ficou marcado no imaginário popular foi aquele representado por figuras como a rainha francesa à época da revolução, Maria Antonieta. Além de seu comportamento tido como frívolo (justificado em Marie Antoinette (2006), de Sofia Coppola, pelo tédio, pela sua juventude e pela indiferença que ela sofria), seu estilo extravagante marcou a história ocidental. “Ela gostava de vestidos extremamente bordados e penteados chamativos”, afirma Tatiana Vianna, consultora de moda. “Cansada dos vestidos pesados, começou a usar um modelo estilo chemisier. Ou seja, ela ousou para a época, mas contribuiu muito para a moda”.

Ao adotar um estilo mais campestre no período em que viveu no Petit Trianon (localizado no Palácio de Versailles), sua atitude foi considerada um insulto à glória que a monarquia deveria mostrar. Mal se poderia imaginar que essa simplicidade se tornaria um imperativo nos anos posteriores.

Para a construção do figurino dos filmes que retratam essa época, a pesquisa histórica é um instrumento fundamental. “Pesquisamos o período a ser retratado e tentamos recolher o máximo de informações, ilustrações e imagens possíveis da indumentária usada na época”, relata Tatiana. Ainda que a mudança entre os materiais do século XVIII e os de hoje seja evidente, isso não influencia a montagem dos figurinos: ao retratar aquele período, busca-se fidelidade. “Procuramos tecidos fiéis à época ou que consigam um efeito condizente”, conta Tatiana.

Cabelos
Os cabelos eram uma espécie de projeção da posição social, e por esse motivo, as classes mais altas davam tanta importância para as madeixas. O uso de perucas começou com Luís XIV, e segundo a consultora de imagem Sieg Pontes, o uso de perucas era justificada pois “representavam status e quanto maior o penteado mais abastada aquela pessoa era e os homens eram extremamente vaidosos com suas perucas”.

Keira Knightley com seu enorme cabelo em "A duquesa"
Keira Knightley com seu enorme cabelo em “A duquesa”

A partir de 1760, os cabelos começaram a se elevar a partir de um altíssimo topete saindo da raíz dos cabelos e esticado inicialmente com uma almofada que causava dores, sendo substituída depois por armações de arame, de acordo com o blog Moda de Subcultura. E é aí que a figura de Maria Antonieta começa a vir em nossa mente. Os cabelos podiam chegar a um metro de altura e serem cobertos por plumas. A pesquisadora de História da Moda pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Laura Ferrazza de Lima, diz que “os penteados eram suficientemente grandes para conter reproduções de carroças, paisagens, cestas de frutas e todo tipo de elemento fantasioso”.

Nos anos de 1770, começou-se a incorporar o conceito de “retorno a natureza” de Jean Jacques Rousseau. Segundo o blog Moda das Subculturas, os homens passaram a usar seus cabelos ou perucas amarrados como rabo-de-cavalo. E após a Revolução Francesa, houve o desaparecimento gradual das perucas e os homens passaram a deixar o cabelo curto com costeletas. Ainda de acordo com o blog, os penteados femininos “eram simples, repartidos ao meio, presos e com pequenos cachos.”

Sieg Pontes  explica que com o advento da energia elétrica, tudo ficou bem mais fácil e acessível para grande parcela da sociedade. Ela dá o exemplo dos cachos, “que são arquétipos da sensualidade e lirismo desde aquela época, hoje são mais fáceis de fazer com o baby liss e antigamente eram feitos com ferro aquecido no fogo”.

Maquiagem
A maquiagem era usada sem nenhum pudor e a pele branca muito valorizada como sinônimo de alto status social – as mulheres da nobreza não ficavam expostas ao sol. A palidez era acentuada com muito pó de arroz, e até mesmo com gesso. “A técnica conhecida como empoamento (cobrir tudo com pó-de-arroz ou farinha de trigo) para deixar cabelo, rosto e colo brancos era usual entre homens e mulheres”, afirma Armando Filho, maquiador e professor da universidade Anhembi Morumbi.

Glenn Close em cena de Ligações Perigosas, onde a importância da maquiagem para à época fica evidente
Glenn Close em cena de Ligações Perigosas que confere a importância da maquiagem para à época

“Podemos citar o excelente trabalho da equipe artística do filme Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons. 1988.),de Stephen Frears. O filme começa com os protagonistas se caracterizando como seus personagens, inclusive com o uso do empoamento, numa sequência rica de detalhes. Isso justifica a cena final, em que a personagem de Glenn Close (Marquesa de Merteuil) é desmascarada, vai até o espelho e começa a retirar a maquiagem branca e o batom vermelho com uma toalha, terminando com a pele e lábios em sua coloração natural”, exemplifica.

Outras técnicas de maquiagem também eram usadas no período, como o vinho tinto para ruborizar, tinta para os lábios, produtos que clareavam os cabelos e pintas negras (no colo ou face) feitas à mão com uma goma especial e confeccionadas em tafetá ou veludo, muitas vezes para corrigir e disfarçar alguma cicatriz ou imperfeição na pele, conhecidas como mouches.

“Todo trabalho de maquiagem parte de uma pesquisa fiel ao período a ser retratado, uma adequação ao pensamento do diretor. A partir daí é que a equipe de maquiagem irá estabelecer e definir as técnicas a serem utilizadas em tal trabalho”, diz Filho. As caracterizações buscam reproduções fiéis do estilo da época que pretende representar, mas com o uso de técnicas modernas.

Por Jeanine Kobayashi e Odhara Rodrigues
jeanine.carpani@gmail.com
rodrigues.odhara@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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