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A menina que roubava livros
CINÉFILOS
29 jan 2014 | Por Jornalismo Júnior

por Fernando Magarian de Freitas
fernandomagarian@gmail.com

Estreia dia 31 de Janeiro nos cinemas brasileiros A menina que roubava livros (The Book Thief, 2013), adaptação cinematográfica do livro homônimo de sucesso mundial escrito por Markus Zusak e publicado em 2005. O livro, narrado pela Morte, conta a história de uma menina alemã, Liesel Meminger, filha de comunistas que é enviada pela mãe para ser adotada por um casal pobre de uma pequena cidadezinha, no auge do nazismo e início da segunda guerra mundial. Ao chegar em sua nova casa – que dificilmente pode ser chamada de lar -, na rua Himmel (“céu”, em alemão), oprimida por uma realidade que não lhe pertence somada à perda da mãe e do irmão (que morre na viagem), ela é confortada por seu novo e doce pai, Hans Hubermann e protegida por sua madrasta-estereótipo-megera Rosa.

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Ao longo da trama, coisas acontecem na Alemanha e no mundo, e acontecem também na vida de Liesel. Ela cria laços afetivos muito fortes com as pessoas que a cercam: Rudy Steiner, seu vizinho e melhor amigo, sua “mamãe Rosa”, que revela ser possuidora de uma bondade infinita, Hans, com quem ela partilha um hábito que os une intensamente: o de roubar livros. Hábito iniciado com o roubo de um livro do coveiro que sepultara seu irmão – livro que é o único vínculo com a sua antiga família naquele estranho novo mundo – e que é alimentado até o fim da história, seja pelo resgate de um livro da fogueira de literatura subversiva do regime, seja através de furtos à biblioteca pessoal do prefeito. Cada um dos livros, roubados ou ganhados, tem um valor sentimental muito maior que o de seu próprio conteúdo – em geral associado ao papai Hans e, posteriormente, a Max Vandenburg.

Max é um jovem adulto judeu refugiado do regime nazista na casa dos Hubermann, que o escondem no porão devido a uma dívida de vida de Hans contraída muitos anos antes, em uma outra guerra mundial menos sangrenta mas igualmente tenebrosa. O judeu, em estado constante de saúde fragilizada, e um risco incalculável para a família que o abriga, se torna um grande amigo de Liesel, e revela a ela a face mais sombria do bárbaro regime do Führer – que já lhe tirara toda sua família, e agora ameaçava a vida de seu bom e inofensivo amigo, além das de seus novos pais e mesmo da sua. Mesmo Rudy, jovem atlético convocado pelo exército nacional, parecia estar condenado a ir embora (provavelmente para sempre). Sem que ninguém parecesse ter feito nada de errado.

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A brutal realidade enfrentada pela personagem, bem como pela sua família, amigos e vizinhos, pinta um retrato da tragédia humana que assolou a Alemanha durante o período do nazismo. Mas o faz através de uma história pessoal, que envolve e emociona, sensibiliza e humaniza. A própria morte, narradora que se faz tão próxima, mostra-se de natureza muito mais misericordiosa que os homens. Em passagem do filme ela conta: “Ao longo dos anos, vi inúmeros rapazes que, inflamados pela euforia da guerra, pensam estar correndo para outros rapazes. Não estão. Eles correm para mim”.

A adaptação dirigida por Brian Percival (da série Downton Abbey) e escrita por Michael Petroni demorou muito para sair (a Fox tem os direitos de adaptação desde 2006), mas é magistral. Com um roteiro muito bem ponderado (em relação ao texto original do livro), uma sequência de atuações excelentes e boas referências históricas e contextualizações, o conjunto de elementos do longa se combinam em harmonia e o fazem tão envolvente quanto a obra que o inspira. E talvez mais emocionante ainda.

Hans Hubermann é interpretado pelo incrível Geoffrey Rush, que incorporou as características do personagem melhor que a minha própria imaginação. Emily Watson no papel de Rosa faz um trabalho excelente. A cereja do bolo é mesmo a jovem Sophie Nélisse, atriz franco-canadense que interpreta Liesel, com uma paixão e sinceridade que fazem tudo mais verossímil e emocionante.

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O que me incomodou no filme foi o modo como a Morte foi (sub)aproveitada. Se no livro de Zusak a história é narrada por ela – o que proporciona reflexões profundas sobre acontecimentos e dá a ele um charme existencialista -, no longa certamente não é. Embora a simpática entidade apareça vez ou outra para fazer simpáticos comentários sobre Liesel ou outro personagem, sua presença poderia ser muito mais explorada (mesmo na plataforma audiovisual do cinema). Mas não importa. É um excelente filme. Sobre a guerra, sobre a morte, sobre a loucura coletiva do nazismo. E sobre como uma incrível ladra de livros enfrentou tudo isso.

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