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Netflix: ‘A Mulher na Janela’ é suspense sem suspiro

Nada de novo em longa genérico que se acha mais inteligente do que é

CINÉFILOS
27 maio 2021 | Por Renato Brocchi (rebrocchi@gmail.com)

Anna Fox (Amy Adams) cuida do gato, evita atender a porta, decora falas de filmes, mantém um sono irregular, engole comprimidos com vinho. Descobrimos que é psicóloga, agorafóbica, solitária. São os olhos desse personagem que tomamos como nossos durante A Mulher na Janela (Woman in the Window, 2021), de Joe Wright. E talvez “olhos” seja a palavra capitular aqui, mas em sentido expandido: olhar não só como ato biológico, mas como revelação da vontade, do desejo reprimido, como voyeurismo. 

O velho voyeurismo cinematográfico: há de se dizer que tudo aqui já foi feito antes. O longa não nos leva sinceramente a desbravar a trama; o diretor, na verdade, quer-nos em um jogo irônico, numa espécie de “eles sabem que eu sei que eles sabem”. 

Sabemos (talvez nem todos, mas vá lá) que ele tira tudo que está ali do noir americano, do suspense hitchcockiano. Ele sabe disso e joga as próprias referências explicitamente em cima de nós. O que ele se propõe é brincar inteligentemente o bastante com aquilo e tentar tornar sua obra algo mais do que derivativa.

Amy Adams, em A Mulher na Janela, espia o mundo exterior através da janela de sua casa, com cortinas azuladas pela luz noturna.

Testemunha desacreditada de um crime violento: mote já batido gera algum suspense, mas evanescente. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Explicitamente: os primeiros minutos já nos revelam um James Stewart sendo arremessado janela afora — a personagem é Jeff, em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954). Anna aproveita a ociosidade de sua condição para assistir Laura (1944) e Quando Fala o Coração (Spellbound, 1945). Acorda de sobressalto com Prisioneiro do Passado (Dark Passage, 1947). 

Percebe tudo essencialmente através de telas: além dos filmes, mantém um mínimo contato com o mundo exterior pelo vídeo do seu interfone, aparato que nos apresenta ao novo vizinho, Ethan Russell (Fred Hechinger); presencia (é claro) o assassinato de Jane Russell (mãe de Ethan interpretada por Juliane Moore, e mais um ponto no jogo de referências) através das lentes de sua câmera. 

Mas os filmes noir e de mistério sempre nos prometeram algo além, mesmo que nem sempre o cumprissem: já sabemos (nós, em frente às telas; eles, atrás das câmeras) que devemos esperar algo que, na falta de termos mais propícios, podemos chamar de “o drama humano”. 

Assim, o longa de Joe Wright não nos apresenta a um detetive hardboiled com uma biografia difusa e problemática, mas a uma psicóloga com uma biografia problemática e difusa (por suposto, pois é isso que nos foi prometido). É aí que A Mulher na Janela se desconjunta: a carcaça metadiscursiva (o jogo de referências) não basta para manter o longa em pé quando muito desse “drama humano” que a acompanha é insosso e mal explorado.

As pessoas ao redor de Anna não parecem importantes o suficiente para receberem um tratamento real do roteiro — Anthony Mackie faz pouco mais do que uma ponta como o marido de Anna; Gary Oldman, em que pese toda sua habilidade performática, se encontra constrito. 

Nada disso seria um verdadeiro problema se terminássemos o filme mais próximos de Anna — afinal de contas, sabemos (novamente) que tanto o crime quanto os personagens secundários, nesse tipo de história, servem para nos revelar algo do protagonista-problema. Mas saímos por onde entramos quase tão vazios quanto antes. O que passa por “história de fundo” do mirrado rol de personagens serve a algumas poucas reviravoltas em um suspense que talvez enlace os mais afeitos ao gênero por alguns minutos.

Personagens de A Mulher na Janela se reúnem em pé na sala de estar da casa. No cômodo, há cortinas amarelas, um sofá bege, almofadas amareladas e cinzentas.

Personagens mal usados mancham trama de longa. [Imagem: Divulgação/Netflix]

Pode-se desconfiar de uma ou outra torção do roteiro antes do momento da revelação; mesmo que não se faça isso, as surpresas dificilmente calam fundo na memória. Os vinte minutos finais em estilo slasher talvez estejam lá para nos lembrar de que tudo não passa mesmo de uma piada. Conhecemos a fórmula (nós, que assistimos; eles, que filmam), e, agora, nos divertimos apontando justamente isso: tudo ali já foi feito, Anna assiste a isso na própria TV. E, talvez desse ângulo, o filme funcione: a atitude “não me leve a sério” pode muito bem casar com o descompromisso e a fugacidade dos streamings. Basta não pensar muito depois dos créditos.

Nota do Cinéfilo: 2,5 pipocas, mediano.

A Mulher na Janela está disponível para os assinantes da Netflix. Confira o trailer:

*Imagem da capa: Divulgação/Netflix

 

 

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