Home A música como roteiro
A música como roteiro
CINÉFILOS
13 abr 2013 | Por Jornalismo Júnior

Título: Michael Jackson’s Ghosts
Direção: Stan Winston
Ano: 1997
Duração: 39:31 min
Elenco: Michael Jackson, Pat Dade, Mos Def

http://www.youtube.com/watch?v=KHgGDtbS4TA">http://www.youtube.com/watch?v=KHgGDtbS4TA

Imagine uma cena de um passado não tão distante: você entra em uma locadora na seção de musicais, fica indeciso entre Dirty Dancing e O Mágico de Oz, mas se depara com a ficha técnica acima. “Mais um filme do Michael Jackson que ainda não vi?”. Se você decidir e levar, parabéns, você alugou seu primeiro videoclipe, que conta como um maestro e mágico interpretado por Michael irá transformar aquela noite na mais assustadora das vidas de um grupo de cidadãos carregando tochas. Claro, os sustos na mansão mal-assombrada do cantor não seriam completos se ele não dançasse (e muito) ao som de Ghosts e It’s Scary. Além de ter sido coescrito por Stephen King, o média-metragem recebeu ajuda de Steven Spielberg na realização. Ghosts foi distribuído em formato VHS e impressiona pelo uso de efeitos especiais, sendo decididamente um filme de terror, claro, com um pouco mais de coreografias que o convencional.

Inicialmente produzido como meio de promoção de uma música, o clipe estabeleceu-se ao longo do tempo com um gênero de linguagem própria. Estabelecer uma fronteira entre o videoclipe e outros gêneros audiovisuais não é simples de se fazer, ainda mais quando o que diferencia um clipe longo de um clipe filme é o papel da música: no primeiro, a música domina o vídeo, no segundo, a narrativa é o principal, e a música se torna quase trilha sonora, às vezes sendo adaptada à história para que não interfira no produto final. É justo neste hibridismo que o clipe conquista seu lugar como espaço de experimentação, livre de preciosismos e dogmas.

Playlist

Se nasceu apenas para ser um meio de divulgação de música, foi nas mãos de Michael Jackson que o videoclipe conquistou sua maioridade e tornou-se independente. Dentre aqueles que mudaram a história do gênero, Michael Jackson conseguiu fazer verdadeiros curta-metragens para acompanhar suas músicas. Buscando uma nova expressão artística, o cantor tornou o videoclipe popular através de grandes produções, possibilitando o estabelecimento de uma nova forma artística que fosse mais do que instrumento de divulgação.

O próximo exemplo reúne os elementos que poderiam compôr qualquer bom videoclipe : música de qualidade e Michael Jackson se transformando em lobisomem. Em declarado estilo hollywoodiano, com direito à coreografia mais famosa da história, Thriller (1983) foi o grande responsável pela popularização massiva do videoclipe, criando um formato até hoje tido como exemplo de sucesso. Poderíamos citar aqui tantos outros, como Bad (1987) e Smooth Criminal (1988), mas Thriller é um ícone da cultura pop que não pode deixar de ser lembrado quando possível.

De um clássico para outro, November Rain do Guns ‘n Roses tem “apenas” 8 minutos, o que é quase a mesma duração da música. Nesse caso, o tamanho da faixa só ajudou para que a mistura de narração e performance pudessem ser sincrozinadas em harmonia, produzindo um dos mais famosos vídeos da banda. Se a atuação dos integrantes é convincente ou não, pouco importa, o vídeo continua bom do mesmo jeito, ainda mais com Slash perdendo as alianças do casal.

 http://youtu.be/8SbUC-UaAxE">http://youtu.be/8SbUC-UaAxE

Em um campo cheio de flores, um rapaz promete nunca deixar sua namorada. Avançando alguns minutos, o casal discute e no calor do momento ele resolve se alistar ao Exército dos E.U.A. Cenas que parecem referentes à Guerra do Iraque são justapostas com a garota esperando seu namorado voltar para casa. Se o casal teve uma história feliz, ninguém sabe. O que aconteceu com o é deixado em aberto. Wake Me Up When Setember Ends (2005) poderia ser um curta-metragem sozinho, mas somente com o  acompanhamento da faixa dos estadunidenses do Green Day torna-se completo.

Depois de uma época de marasmo no fim dos anos 2000, o videoclipe voltou a chamar a atenção nos últimos anos, sobretudo graças à Lady Gaga, que como Michael, sabe como poucos usar da imagem para conquistar o público. Assim, não é surpresa que os seus fossem uma extensão de sua “iconografia”, trazendo de volta os curtas-metragem musicais ao topo das paradas, se é que podemos chamar  de “curta” um vídeo de 14 minutos.

Além de ter quase 10 minutos de duração e ser a continuação de um outro longo clipe, Paparazzi (2009), Telephone (2010) é um videoclipe em que a polêmica de cenas explícitas foi tão importante no lançamento quanto suas próprias bizarrices. Depois de ser liberta da prisão, Gaga foge pelo deserto no melhor estilo Thelma e Louise em uma caminhote. Mas não é uma caminhonete qualquer: estamos falando do “Pussy Wagon”, veículo utilizado pela Noiva no filme Kill Bill: Vol. 1 (2004), de Quentin Tarantino. Aliás, é de Tarantino que Gaga busca suas referências: cenas surreais do cotidiano, referência ao mundo pop, diálogos espirituosos e situações absurdas, como a cantora  na cozinha de um restaurante dançando e fazendo um sanduíche ao mesmo tempo.

Em 2010, a banda 30 seconds to Mars lançou seu vídeo para Hurricane, com 13 minutos de duração. Embora mais afastado de uma linearidade narrativa, o clipe usa da violência e sadomasoquismo para contar uma história agressiva através de uma estética sensível . Posteriormente, foi editado (e censurado) para que pudesse ser veiculado nas redes de televisão pelo mundo. Em entrevista na época do lançamento, o vocalista da banda, Jared Leto, disse que o vídeo é “basicamente uma meditação na violência do sexo, e no sexo da violência”. E completa: “É uma aventura e tanto”.

Para prender a atenção

O último grande fenômeno foi o vídeo Gangnam Style do rapper sul-coreano Psy, com mais de um bilhão e meio de visualizações. O sucesso de Psy comprova o efeito viral do Youtube e sua importância na circulação de conteúdo audiovisual. Enquanto canal privilegiado de divulgação musical, o videoclipe enfrenta o desafio de continuar sendo influente apenas por si só. Como gênero primordialmente televisivo, nasceu para ser visto em sua íntegra. Se hoje o tempo de visualização de conteúdo é curtíssimo e os picos de consumo são alcançados rapidamente, com a mesma velocidade a audiência acaba.

O grande desafio do videoclipe hoje é o mesmo de todos na internet:  prender o espectador por mais de 1 minuto e meio. É claro, a presença de uma música ajuda, mas quando falamos de um vídeo que excede a duração da música, essa tarefa se mostra mais dificíl. Seria o começo fim dos curtas? A sobrevivência dos grandes e bons videoclipes depende daquilo que foi sua característica inicial e responsável pelo seu sucesso: inovação.

por Fernando Souza

TAGS
Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*