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A onda francesa que abalou o cinema mundial
CINÉFILOS
27 abr 2013 | Por Jornalismo Júnior

“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Glauber Rocha provavelmente não teria dito isso e feito o que fez no Cinema Novo brasileiro se a Nouvelle Vague – “Nova Onda” em português – não tivesse existido. Tal movimento aconteceu na França pós Segunda Guerra Mundial – teve seu início no final da década de 1950, se estendendo até os anos 1960 – e foi uma reação ao cinema da época, em especial ao francês e ao Hollywoodiano, que eram feitos com grande orçamento e, aos olhos dos avessos a eles, de maneira artificial, por serem produzidos em grandes estúdios.

Revista Cahiers du Cinema com Hitchcock na capa, diretor que era muito admirado pelos joves da Nouvelle Vague

Os principais expoentes dessa tendência foram os críticos da revista de cinema Cahiers du Cinéma: Jean-Luc Godard, François Truffaut, Alain Resnais, Jacques Rivette, Claude Chabrol, Eric Rohmer e Agnès Varda. Na época, Andre Bazin era editor-chefe da publicação e acabou sendo uma espécie de mentor para o movimento. Esse cenário fez com que a Nouvelle Vague tenha tido, desde seu início, um embasamento teórico; e de escrever sobre o mundo cinematográfico, os integrantes da publicação passaram a fazê-lo – como entenderam que deveria ser feito: a baixos custos e com caráter extremamente autoral. “A ênfase agora é na figura do diretor de cena e em sua visão autoral, que está presente na forma de contar a história, em seu estilo visual, no enquadramento, na seleção do elenco e na direção de arte”, diz a cineasta Giselle Gubernikoff, que também é professora da Universidade de São Paulo. Assim, os participantes da Nouvelle Vague compensavam o orçamento pequeno com grandes doses de criatividade.

Entre prêmios de Cannes, filmagens nas ruas e improvisos de interpretação

Formalmente, o Cinema Novo francês tem como marco inicial o filme Nas Garras do Vício (Le Beau Serge, 1958), de Claude Chabrol. Entretanto, o movimento se consagra quando François Truffaut lança seu filme de estréia no ano seguinte, o chamado Os incompreendidos (Les quatre cents coups, 1959). O sucesso foi tanto que a produção ganhou o prêmio de melhor filme do Festival de Cannes, do qual o diretor havia sido banido anteriormente por ser um crítico ferrenho da forma de cinema prestigiada pelo evento. Com esse feito, Truffaut conseguiu fazer com que a produção francesa fosse aclamada e projetada nas telas dos cinemas, mesmo em um período de grande expansão da produção audiovisual americana.

Jean Luc Godard também traz novidades para o mundo cinematográfico logo em seu primeiro filme, Acossado (À bout de souffle, 1960). Nele, o diretor tem o mérito de filmar de maneira inovadora: nas ruas de Paris, em meio aos passantes, sem equipamentos complexos de som ou de luz. Para os adeptos da Nouvelle Vague, isso fez com que o cinema ficasse mais próximo do espectador. De acordo com Gisele, a realização cinematográfica daquela época estava confinada aos grandes estúdios, o que fazia com que os equipamentos fossem pesados e houvesse pouca mobilidade e fluidez da câmera. Assim, para atender os desejos dos jovens realizadores da Nouvelle Vague, desenvolveram-se equipamentos mais leves de captação de imagem e de som e o cinema pôde sair às ruas, ganhando maior espontaneidade. “O grupo partiu de uma proposta inicial do neo-realismo italiano, um movimento cinematográfico do pós-guerra, cujo lema era filmar ‘a vida como ela é’”, diz ela.

Godard levando a filmagem para as ruas de Paris, prática inovadora no mundo cinematográfico

A interpretação e a estrutura narrativa dos filmes da Nouvelle Vague também romperam a tradição. Para os atores, a grande regra era sua ausência; o improviso era bastante utilizado nas cenas e os atores podiam dar seu toque pessoal aos diálogos, que acabavam se tornando mais fluídos e naturais. Já a linearidade não era um quesito necessário para a continuidade da narrativa; o psicológico dos personagens era mais relevante do que a lógica das cenas nas produções do cinema novo.

Cinema Novo, New Hollywood e Neuer Deutscher Film

Foram tantas as novidades trazidas pelo Cinema Novo francês, que elas viraram tendência mundo afora. No Brasil, surgiu o Cinema Novo, que  buscou produzir filmes com mais conteúdo de cunho social, a custos menores. Assim como Truffaut, Godard e os outros, os cineastas brasileiros eram críticos dos grandes estúdios – no caso brasileiro, a Vera Cruz – e também consideravam as pornochanchadas alienantes. O principal expoente do movimento foi Glauber Rocha, que tem Deus e o Diabo na Terra do Sol(1963) e Terra em Transe (1967) como os longas mais reconhecidos da época.

Pôster do filme Terra em Transe, que também foi muito significativo para o Movimento Tropicalista

Já nos Estados Unidos, a Nouvelle Vague deu origem à Nova Hollywood, que foi mais longa; durou da década de 1960 até os primeiros anos da década de 1980, representando uma infinitude de cineastas, como Robert Altman, Francis Ford Coppola, Brian de Palma, Martin Scorsese, George Lucas, Woody Allen, Steve Spielberg, dentre tantos outros. Apesar de não serem tão independentes, tais diretores introduziram temáticas e estilos que fugiam da tradição dos estúdios e foram adeptos do cinema de autor.

Na Alemanha, os maiores representantes do Cinema Novo foram Werner Herzog, Rainer Fassbinder e Wim Wenders. Estes fizeram denúncias sociais e políticas em suas produções, independentemente de grandes produtoras. Além da Nouvelle Vague, as muitas revoltas de 1968 influenciaram diretamente no movimento, que durou aproximadamente até a década de 1970.

Como se vê, os representantes da Nouvelle Vague e suas tendências derivadas ecoam nas produções cinematográficas até os dias de hoje. E Gisele é categórica quanto a isso: “Jean-Luc Godard e Glauber Rocha são os visionários no século XX da linguagem do cinema do século XXI. Tudo o que eles propuseram em suas obras nos anos de 1960 está sendo incorporado atualmente pelos realizadores do cinema mundial. Bernardo Bertolucci o faz de forma magistral em seu filme Assedio (L’Assedio. 1998), por exemplo. As mudanças de ponto de vista da câmera dentro do mesmo plano e a repetição de planos da mesma temporalidade representado o espaço intimo do personagem nessa produção são elementos da narrativa cinematográfica que surgiram com Godard e Glauber.” O nome do movimento faz jus a sua magnitude, pois essa onda contagiou cinema mundial.

por Luiza Fernandes
luizafc00@gmail.com

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