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A outra face da bomba
CINÉFILOS
12 maio 2013 | Por Jornalismo Júnior

“Não se muda o destino, não há outra saída: você é um servo de Allah”. A frase mais emblemática do filme Paradise Now (idem) expressa um sentimento comum aos palestinos, que abdicam o resto de sua vida em prol da libertação de seu povo. Lançado em 2005, o enredo conta a história de Said e Khaled, dois amigos que se tornam voluntários a homens-bomba para atacar Israel. De forma bem sutil, o filme mostra que há muito por trás do que se pensa em relação aos homens-bomba e ao conflito entre Israel e Palestina, um dos mais antigos da humanidade.

Paradise now
Os 87 minutos da narração são distribuídos na passagem de dois dias na vida dos personagens. Khaled e Said vivem na cidade de Nablus, na Cisjordânia, que faz fronteira com o Estado de Israel. A opressão que os palestinos sofrem não é explícita no filme, porém é lembrada pelos personagens o tempo inteiro, os quais se autodenominam refugiados no local onde moram. Esse sentimento de humilhação, além da impotência perante a superioridade do Exército israelense, faz com que os amigos decidam se sacrificar pela salvação do seu povo. Contudo, a vingança não se limita a uma raiva interior em relação aos inimigos, mas também é impulsionada por uma vontade de se alcançar o paraíso. Assim, descobre-se que o título “Paradise Now” reflete a ânsia de fugir da realidade caótica através do suicídio, e o possível paraíso é nada mais do que a esperança que o povo muçulmano tem no depois da morte.

Principalmente se essa morte vier através de um sacrifício em nome de Allah.
Apesar de ser apenas uma ficção, o que o filme mostra no decorrer desses dois dias poderia muito bem ser verdade. Os personagens são submetidos a alguns rituais de preparação, física e mental, até estarem prontos para o ataque ser bem sucedido. Para isso, eles gravam um vídeo para a família, depois se lavam e barbeiam-se – o que é considerado uma blasfêmia para o povo muçulmano. Tudo isso para que o plano não falhe e não haja nenhum tipo de reconhecimento pela parte dos israelenses.

 

Paradise now

Entretanto, quando passam pela fronteira, alguns soldados israelenses percebem a invasão e começam a atirar. Ao retornarem para o lado palestino, Khaled consegue encontrar os membros da facção que estava promovendo o ataque, mas Said não. Khaled volta para Nablus, enquanto Said, ainda presente na fronteira, decide atravessá-la de novo e consegue. Em uma das cenas mais bonitas do longa, Said vai até um ponto de ônibus o qual estão concentrados alguns israelenses e ele mostra intenção de disparar a bomba. O ônibus chega, Said pretende entrar no ônibus para concretizar a sua missão, mas ele vê uma criança. Ao vê-la, ele percebe que não está em Israel para matar inocentes e sim para tentar se vingar dos seus opressores. Depois desse acontecimento, é um vai-e-volta de Khaled procurando Said e vice-versa. No momento em que finalmente se encontram, o que era certeza vira dúvida. E o dilema que surge é se atingir o inimigo por meio da violência, através de ataques com homens-bomba, é a melhor forma de demonstrar a insatisfação com toda essa divergência histórica entre Israel e Palestina.

É um filme interessante para conhecer mais profundamente a ação dos chamados terroristas, os quais são taxados pela mídia como iludidos pela religião e marionetes de um ideal que não existe. Não chega a ser dramático, mas é bem verossímil ao mostrar os palestinos refugiados em um território que a qualquer momento pode ser ocupado e a sua luta diária contra Israel. Apesar de ser um pouco tendencioso, há a desconstrução do esteriótipo dos homens-bomba, uma vez que não é somente por causas religiosas que todos os dias pessoas se propõem a tirar a sua própria vida por um espaço e reconhecimento no Oriente Médio.

por Júlia Pellizon
juliapellizon@gmail.com

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