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A poluição atmosférica segue o ritmo do isolamento social
Biosfera
10 jun 2020 | Por Luisa Costa (luisa.mc@usp.br)

A pandemia do coronavírus provocou uma drástica redução de atividades em todo o planeta. O isolamento social foi implantado para que se diminuísse a transmissão do vírus e, então, com a menor circulação de pessoas e menor produção industrial, o meio ambiente pôde respirar melhor: a poluição atmosférica apresentou drástica de redução em muitos lugares ao redor do mundo.

Não foi diferente aqui no Brasil. A região metropolitana de São Paulo, por exemplo, teve grande melhoria na qualidade do ar após as restrições de mobilidade. Maria de Fátima Andrade, professora titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), analisou dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) comparando os períodos de 15 a 21 de março e 22 a 28 de março e o que se observou foi uma redução de até 50% da poluição atmosférica na primeira semana da quarentena. 

Viaduto do Chá, São Paulo, em março, durante o isolamento social contra o coronavírus. Foto: Giaccomo Voccio/G1.

Viaduto do Chá, São Paulo, em março, durante o isolamento social contra o coronavírus. Foto: Giaccomo Voccio/G1.

A poluição atmosférica está intimamente ligada a processos como as atividades industriais, a emissão veicular e a produção de energia. É importante ter em mente, entretanto, uma diferenciação importante: entre os componentes que são mais ligados às mudanças climáticas e os que estão mais relacionados à nossa saúde.  

Os componentes que mais afetam as mudanças climáticas são os gases do efeito estufa, como o dióxido de carbono (CO2), proveniente principalmente da queima de combustíveis fósseis, de queimadas e desmatamentos, e o metano (CH4), composto primário do gás natural, também produzido por aterros sanitários, pela queima de biomassa e por bactérias no aparelho digestivo de animais ruminantes, como os bovinos. Estes componentes permanecem na atmosfera por mais tempo e contribuem para a intensificação do efeito estufa, provocando o aquecimento global. Embora estes componentes também estejam sofrendo redução ao redor do mundo no período do isolamento social – este não aparenta ser o caso do Brasil, que segue com altos níveis de desmatamento -, a redução de 50% da poluição na Grande São Paulo não trata exatamente desses componentes.

Na região, o isolamento social provocou redução principalmente dos componentes que fazem mais efeito na saúde, como o monóxido de carbono (CO), os óxidos de nitrogênio (NOx) e material particulado (MP, uma denominação geral para poluentes que se mantêm suspensos na atmosfera por causa de seu pequeno tamanho, como poeiras e fumaças). Eles provêm principalmente da emissão veicular e da produção de energia a partir de termelétricas, por exemplo, o que não é o caso brasileiro. Esses compostos também impactam o clima, mas não da maneira que o fazem os gases de efeito estufa mencionados acima. 

Como Andrade destaca, no nosso caso, a poluição atmosférica está fortemente atrelada à emissão veicular e, portanto, sua redução neste período da quarentena acompanhou o parâmetro de adesão do isolamento social. Através da rede de monitoramento da CETESB, foi possível perceber que regiões centrais de São Paulo, nas quais o nível de adesão ao isolamento social foi mais alto, a redução da poluição atmosférica também foi maior. Enquanto isso, notou-se o contrário nas regiões periféricas: assim como a adesão ao isolamento social, a redução dos poluentes ocorreu de maneira muito menos expressiva. 

Imagens de satélite mostram diminuição da mancha de poluição em São Paulo e Rio de Janeiro. A comparação é entre abril de 2019 (superior) e o mesmo período deste ano (inferior). Imagens: Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg)/Divulgação.

Imagens de satélite mostram diminuição da mancha de poluição em São Paulo e Rio de Janeiro. A comparação é entre abril de 2019 (superior) e o mesmo período deste ano (inferior). Imagens: Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg)/Divulgação.

Embora esta seja uma situação forçosa, pode nos mostrar como ganharíamos com uma melhoria na qualidade do ar. A poluição, a curto e longo prazo, apresenta muitos danos à nossa saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a poluição atmosférica provoca mais de sete milhões de mortes por ano e nove em cada dez pessoas respiram ar contendo altos níveis de poluentes. 

O nosso aparelho respiratório possui mecanismos de defesa que funcionam como filtro, principalmente para partículas maiores em suspensão no ar. Entretanto, partículas menores – como o material particulado fino – costumam driblar essas barreiras e entram em nosso organismo. Elas podem penetrar no pulmão e então atingir os alvéolos pulmonares e a corrente sanguínea. 

Segundo Helena Ribeiro, professora do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, episódios críticos de poluição podem causar tosse, exacerbação de asma e bronquite, problemas oftalmológicos e dermatológicos. Enquanto isso, níveis mais baixos de contaminantes em longo prazo podem provocar enfisema pulmonar, agravar doenças respiratórias e circulatórias e até alguns tipos de câncer. “Além disso, foram encontradas associações entre poluição atmosférica com diabetes, baixo peso ao nascer em bebês, carência de vitamina D, dentre outras menos estudadas”, afirma a especialista.

Inclusive, como Andrade observou, talvez a poluição tenha sido um fator que agravou a situação da pandemia em algumas regiões, como no norte da Itália, que é uma região mais industrializada. A população já estaria debilitada e, então, mais vulnerável aos efeitos da Covid-19, que atinge o sistema respiratório dos infectados.

Infelizmente, a redução da poluição que estamos presenciando pode se mostrar um alívio temporário. Teme-se que, com os esforços para a retomada econômica, nós deixemos o meio ambiente de lado, como é de costume. Entretanto, a pandemia pode nos deixar algumas lições ambientais: o trabalho à distância, por exemplo, se mostrou possível para parte da população e para alguns tipos de serviço. Considerá-lo, mesmo após o período atual, já representaria um impacto significativo, reduzindo a intensa atividade do setor de transporte. 

O ideal seria uma retomada econômica sustentável, a partir de preocupação e esforços conjuntos de governo e sociedade. Dessa maneira, a redução da poluição não surgiria em um contexto de tragédia, mas, pelo contrário, poderíamos evitar esse tipo de acontecimento. Como afirma Andrade, à medida que destruímos as áreas ambientais facilitamos a passagem de vírus de animais para a espécie humana, então ignorar a preservação do meio ambiente só pode ser uma estratégia errada: “é a diferença de se pensar em curto e longo prazo”. 

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14 jun 2020
 
Sebastião naves
Muito lindo minha querida e futra neta. Estou orgulhoso de vc, que Deus te abençoe e te ilumine muito nessa profissão que vc escolheu. Achei fundamental o que vc escreveu. Sucesso minha querida neta. ❤️🤩 Bjs.
10 jun 2020
 
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