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A Promessa e o milenar esquecimento de minorias
CINÉFILOS
09 maio 2017 | Por Jornalismo Júnior

Um decadente Império Otomano, às vésperas da primeira guerra mundial, é o cenário do novo filme de Terry George, o diretor do conhecido Hotel Ruanda (Hotel Rwanda, 2004), também sobre minorias étnicas. A Promessa (The Promise, 2017) se compromete a contar a história do genocídio dos armênios, iniciado por um governo que não os considerava parte do império, sob a perspectiva de Michael (Oscar Isaac), um aspirante a médico, de raízes armênias, nativo de um vilarejo e em busca dos estudos de medicina em Constantinopla. Ao se hospedar na casa do tio, conhece a encantadora Ana (Charlotte Le Bon), tutora das filhas de seu parente e comprometida com o jornalista americano Chris (Christian Bale).

A construção da ambientação em um Oriente Médio do século XX conta com uma fotografia amarelada, beirando a tonalidade sépia em alguns momentos, e com as tomadas aéreas que mostram a vastidão de uma área inóspita, árida. Já a cisão entre os turcos muçulmanos, que detinham o poder, e os armênios cristãos, se dá pelo uso de um chapéu vermelho, o fez, acessório ligado à religião islâmica e que nos ajuda a perceber a hegemonia em cena, algo muito latente nos momentos de Michael na faculdade ao lado de seu amigo Emre (Marwan Kenzari). Outros destaques são as inclusões de uma justificativa para o sotaque francês de Ana, uma armênia que atendendo aos desejos de seu pai viveu anos em Paris, e de um sotaque típico na interpretação de Oscar Isaac, – vencedor do Globo de Ouro pela minissérie Show me a Hero e que na verdade cresceu nos Estados Unidos – acrescentando mais veracidade às raízes de Michael.

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O desenvolvimento do arco de Michael e Ana como um casal, e a relação conflituosa de Chris nesse contexto, toma a primeira metade do filme, enquanto as controvérsias entre os povos são expostas em esparsos momentos, que tomam conta da tela após um desfecho inicial para o casal principal. Nessa primeira parte, os dois maiores momentos de tensão se dão pelos questionamentos de Chris perante o comportamento dos poderosos militares turcos e alemães, mostrando a confiança do personagem na imunidade conferida por sua nacionalidade e profissão, e na bela cena que alterna uma missa realizada por um pároco armênio e uma marcha de turcos empunhando tochas, agredindo e destruindo o grupo “opositor” e seus pertences. Nessa cena, inclusive, o destaque fica também por conta da trilha sonora, a oração entoada pelo religioso ajuda na construção da tensão.

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O enredo se transforma conjuntamente com a realidade após a eclosão da perseguição aos armênios. O desenvolvimento do triângulo amoroso e a batalha interna enfrentada por Michael – que estava comprometido com uma moça em seu vilarejo natal e usufruía do dote para poder se formar médico – dão lugar às ações em busca de refúgio e caça. As cenas de ação são modestas, mas tem um tom épico ao envolverem o protagonista, que sofre diversas provações ao longo do filme e sempre prova sua firmeza de caráter – um recurso comum a filmes que querem provar um ponto de vista maniqueísta.

Mas a presença dos conflitos internos de Michael, Ana e Chris permitem a manutenção dos aspectos falhos inerentes ao ser humano. O romance, aliás, não torna a película confusa, pois a miscelânea entre a guerra (denominação questionada por generais em algumas cenas) e a história de amor cria uma empatia necessária, que se intensifica após o reencontro de Michael com suas raízes e uma nova realidade.

A maior força do filme, entretanto, encontra-se em seu desfecho. Uma guerra não é seletiva e a força das atuações, especialmente a de Isaac, transfere de forma eficiente para a tela  as dores e as dualidades que decorrem de situações limite. Apesar desse valor, a maior falha também está em sua conclusão, já que a escolha do roteiro em reforçar Chris, um jornalista da Associated Press, como um expositor heroico da verdade (que inclusive faz questão de relembrar ser americano em diversas passagens), é irônico considerando o fato de que os Estados Unidos até hoje não reconhecem a morte dos armênios como um genocídio.  Esse traço hollywoodiano foi um contraponto ao elenco que inclui nomes europeus e um latino no papel principal.

Mesmo recorrendo a certos clichês típicos de filmes em língua inglesa que mimetizam a história de povos exóticos a cultura contemporânea e ocidental, A Promessa resgata uma memória que foge às tragédias mais famosas, que desfrutaram de mais prestígio midiático, e expõe ao grande público esse expurgo que foi um grande marco de resistência na história de um povo. George, como diretor, fez um pouco daquilo que Chris propunha, como repórter. Ao despertar a curiosidade de quem assiste, o filme documenta algo da comunidade e traz à tona um pouco de uma identidade que, como a de tantas minorias, torna-se figurante na história.

Uma das passagens do texto de William Saroyan, que está presente na montagem, é um bom resumo dessa trajetória de resiliência: “Eu gostaria de ver qualquer força deste mundo destruir esta raça, esta pequena tribo de pessoas sem importância, cujas guerras foram todas lutadas e perdidas, cujas estruturas foram todas destruídas, cuja literatura não foi lida, a música não foi ouvida, e as preces já não são mais atendidas! (…) Quando dois armênios se encontrarem novamente em qualquer lugar neste mundo, veja se eles não vão criar uma nova Armênia”.

A Promessa chega aos cinemas no dia 11 de maio.

 

Trailer legendado

por Pietra Carvalho
pietra.carpin@hotmail.com

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