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A Qualquer Custo: quando Robin Hood encontra o capitalismo financeiro
CINÉFILOS
03 fev 2017 | Por Jornalismo Júnior

“Hell or high water”, título original de A Qualquer Custo (2016), pode se referir tanto a se fazer tudo que precisa ser feito, independentemente das circunstâncias, quanto à cláusula de um contrato que define que um pagamento deve continuar mesmo se o contribuinte tiver alguma dificuldade. Ambas as definições podem ser aplicadas à trama de Toby e Tanner (Chris Pine e Ben Foster), irmãos que se veem com uma dívida de banco inafiançável, e para isso, decidem roubar, à qualquer custo, os próprios para saná-la. A partir de uma narrativa convencional, o diretor David Mackenzie e o roteirista Taylor Sheridan conseguem criar situações de muita tensão, além de apresentar uma crítica contundente ao capitalismo financeiro.

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Para isso, é impossível traçar qualquer comentário sem destacar primeiramente as atuações da dupla – e é desde já uma injustiça que nenhum deles tenha sido indicado às categorias de interpretação desse ano. O cuidado com a composição de sotaques e as posturas mais rígidas, embora também reprimidas, fazem com que os tomemos como habitantes de fato dos Estados Unidos texano. Mais do que isso, suas personalidades os distinguem de apenas personagens à função da trama; a trama que é envolvida pelos personagens.

Mais racional que o irmão, Toby aparenta muitas vezes inseguro com o que faz. Basta, no entanto, que alguém ouse tocar em seu irmão, que ele se torna implacável. Implacável como Tanner, que explode a qualquer coisa que lhe aconteça, mas que também, só que pelo contrário, se torna a pessoa mais vigilante quando se trata do irmão. Assim, mais do que a estória de Toby e Tanner, temos aqui uma de um irmão pelo outro.

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O ritmo mais lento e contemplativo da direção também ajuda a compor a relação dos dois. É justamente pelo corte se estender, por exemplo, num momento de afronta de Tanner ou de amargura de Toby, que temos um relance do que se passa no psicológico deles. E com a ajuda da fotografia que, num tom quente e terroso, e muitas vezes esmagando as personagens contra o céu ou a estrada, faz de tudo ainda mais desolador.

Por fim, embora possamos atrelar os atos a um suposto heroísmo, o filme parece tentar de tudo para desvincular essa ideia, o que torna a trajetória mais real (perceba que apesar de muito tensos, os próprios assaltos não são grandiosos; eles são “apenas” muito bem filmados, como aquele em plano-sequência que inicia a projeção). Heroísmo este também questionável, uma vez que diante de uma situação insustentável, “pessoas de bem” tenham que recorrer a roubos e assassinatos. Mesmo assim, a crítica feita aos verdadeiros vilões, os bancos, é poderoso exatamente por não ser escancarado, recoberto por uma fábula mais robin-hoodiana. Diferente desta, infelizmente, constatamos que por mais que tentemos transgredir o sistema, somos mais dependentes dele do que imaginamos.

 

Trailer legendado:

por Natan Novelli Tu
natunovelli@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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