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A realidade junkie em 5 filmes sobre drogas
CINÉFILOS
22 jun 2015 | Por Jornalismo Júnior

Por Natalie Majolo nmajolo95@gmail.com

Sexo, drogas e rock’n’roll, mas nada de flores. O prazer e o vício não fazem apenas parte da juventude curiosa, mas de toda a sociedade. Nos filmes selecionados a seguir, são retratados o universo trash dos viciados em drogas pesadas (junkies), mas não tão somente: nos surpreendemos ao perceber nossa hipocrisia quando estigmatizamos seu consumo. Café, cigarro, medicamentos e comida são exemplos de vícios e de produtos socialmente aceitos.

Os longas entram nesse universo dos vícios lícitos e ilícitos, na retratação do sofrimento dos usuários, nas crises de abstinência. Mas talvez, o mais chocante seja a metamorfose dos personagens. No caso das drogas mais pesadas, eles perdem suas características,  saem fora de si pela necessidade de consumo, pelos sonhos e desejos não correspondidos; enfim, por não serem mais o que já foram.

Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída (Christiane F., 1981)

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Na década de 70, estourou a moda da heroína, ou “H”, como era conhecida. Inspirada na história real de Christine F. (Christiane Vera Felscherinow), o filme, dirigido por Uli Edel, conta a história de uma menina que adentrou no universo trash dos consumidores de Berlin. Depois de quase 40 anos, hoje Christiane ainda passa por problemas com drogas.

O filme é uma crítica ao léu estigmatizado que a juventude alemã ocidental passou durante a época de glória na luta contra o socialismo. Os usuários não possuíam assistência governamental, e eram vistos como a escória social – reflexos da desigualdade. Sem ter no que se firmar ou se agarrar, os jovens buscavam o escape para os desgostos da vida. Seus amigos não eram amigos, pois o único laço que os unia era o vício comum; os pais eram ausentes e não recorriam ao diálogo.

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Cercada de problemas e decepções dentro de sua casa, Christiane (Natja Brunckhorst) passa a sair escondido com uma colega frequentadora da boate mais famosa de Berlin, a Sound. Como numa paixonite juvenil, segue seu amado Detlev (Thomas Haustein) como inspiração. Para se encaixar no grupo, passa a usar heroína. “Aos 12 era apenas um anjo do pó. Aos 13 abraçou a heroína. Aos 14 começou a frequentar as ruas”. O vício se torna insustentável monetariamente, e para conseguir mais “H”, se prostitui – e a se afunda cada vez mais. Num sinal de rebeldia para a época, Christiane pinta seu cabelo de vermelho. Como uma metáfora, o vinho amargo de sua vida passou para seu cabelos; em sua vida, só restou a água suja da desgraça humana.

Trainspotting – Sem Limites (Trainspotting, 1996)

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O ocidente estremecia com a crise pós moderna: fim da URSS, consolidação capitalista, empoderamento estadunidense, descoberta da AIDS. Dirigido por Danny Boyle, Trainspotting abalou o mundo após a produção também chocante de Christiane F. O filme retrata um mergulho no universo dos consumidores de heroína da década de 1990 na Escócia.

Sua crítica quanto a legitimidade de substâncias alucinógenas, a hipocrisia do discurso antidrogas e o sonho de vida americano são palpáveis logo no início do filme.

Trainspotting conta a história de um grupo de “supostos amigos” que se drogam em um lugar comum. Para tal, o imediatismo pelo dinheiro implica em roubar para manter o vício – o que difere bastante a nova retratação da juventude trash no cinema do clássico Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), que usa da violência pelo simples prazer de causar mal aos outros. Para com as drogas, o protagonista Renton (Ewan McGregor) não tem objetivos: buscam somente o prazer. Já seus amigos, sonham em ficar ricos.

filmes com drogas _4Chama bastante a atenção o fato do vício ser visto com normalidade pela sociedade e pelos pais dos personagens. Depois de ver o rumo que sua vida tomou, Renton tenta sair do vício, e passa por uma horrível crise de abstinência – o filme também retrata a questão psicológica, e não só a física como em Christiane F. Entretanto, por causa de seus amigos, Renton sempre acaba voltando. Como numa obra determinista, da qual o meio define o homem, o único integrante do grupo que não consumia, também passa a fazer uso da heroína e a deteriorar sua vida.

A perspectiva de tempo é fluída, principalmente durante os momentos de insanidade pós “picada”, gíria para quando a substância é injetada por meio intravenoso. Infelizmente a heroína sofre gourmetização em seu efeito: o que é demonstrado no filme é um delírio suprarreal àquele fora das telas, ao delírio verdadeiro. Mas quem somos nós para julgar a brisa dos outros?

Requiem para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000)

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Produzido por Darren Aronofsky, o Requiem para um Sonho traz uma atmosfera pesada. Semelhante a um filme de terror moderno, demonstra a dura realidade ao criar monstros que não existem apenas em filmes ou histórias. Como uma versão 2.0 de Laranja Mecânica, somos todos Alex de Large (Malcolm McDowell) vendo os tais filmes ultraviolence. Ainda podemos fechar os olhos, mas a trama nos força a olharmos aquilo que não vemos.

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Assim como Trainspotting, o filme critica a criminalização de certas drogas em detrimento de outras. Harry Goldfarb (Jared Leto), Tyrone (Marlon Wayans) e Marion (Jennifer Connelly) são viciados em drogas pesadas, como heroína e cocaína. A mãe de Harry, Sara Goldfarb (Ellen Burstyn) é viciada em pilulas para emagrecer que contem anfetamina. Outros entorpecentes aparecem ao longo do filme como secundários, um escape à dependência da substância primordial.

Diferentemente dos outros filmes, Requiem traz personagens que sonham grande, e que não buscam apenas o prazer. O entorpecente é  um meio pelo qual as personagens podem alcançar seus objetivos. A senhora Goldfarb almeja aparecer no seu programa de televisão favorito; Harry e Tyrone, em serem grandes traficantes; Marion, em ser uma grande estilista. A música tema parece agonizar não somente o espectador, mas também os protagonistas, que vivem aflitos entre sua realidade dependente e seus sonhos.

filmes com drogas _7O filme é baseado na obra de mesmo nome de  Hubert Selby Jr.. Em 2001, Jennifer Connelly (Marion) ganhou o Oscar de melhor atriz por sua grande atuação. Apesar do novo abalo pós Trainspotting e Christiane F., o filme recebeu duras críticas por ter um final previsível – a decadência das personagens. Entretanto, a essência do filme se pauta no decorrer da história, sendo seu desfecho apenas uma retratação. Requiem para um Sonho desafia nossa sanidade mental, nossos medos e desejos. Nos questiona até onde o ser humano pode ir para alcançar seus objetivos – mesmo que eles se reduzam a 10g de heroína.

Spun – Sem Limites  (Spun, 2002)

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Para quem já acompanhou a série Breaking Bad, Spun, dirigido por Jonas Åkerlund, é um ótimo mergulho na realidade dos junkies para quem eram vendidas os produtos produzidos por Walther White (aka Heisenberg). Viciados em metanfetamina, os personagens reforçam os esteriótipos dos viciados americanos. Com forte apelação sexual, a fotografia e os efeitos do filme refletem as sequelas da droga utilizada. O estado de euforia é constante: o protagonista Ross (Jason Schwartzman) não dorme durante todo o longa, que se passa em cerca de três dias.

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Apesar da esteriotipação e aparente superficialidade, Spun faz críticas ácidas às medidas de combate às drogas. O “Cozinheiro” (Mickey Rourke), que produz a droga em ambiente insalubre e sem qualquer tipo de segurança ou controle, é um “laranja” das drogas. Ele recebe de pessoas que tem uma imagem a zelar para fazer o trabalho sujo de produção e distribuição da droga. Outra crítica surge para com a hipocrisia policial. No filme, agentes da lei produzem um programa sensacionalista que prende criminosos ao vivo, como traficantes. Poucos minutos antes de entrar na casa de um suspeito que fabricava metanfetamina, policiais “dão um trago” (inspiram metanfetamina), e partem para o ataque aos “drogados”. Em outra cena, roubam a droga do local para consumo próprio.

O filme mistura loucura, prazer, sexo, raiva e excitação. Sua tragédia precisa ser vista com comicidade – mas nada que nossa hipocrisia não facilite.

Viagem Alucinante (Enter the Void, 2009)

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Se até agora os filmes retrataram o universo druggie e o delírio alheio, Viagem Alucinante é um convite à brisa sem sair da poltrona – por vez, sem substâncias alucinógenas. Dirigido por Gaspar Noé, o filme se passa em Tóquio e conta a história de Oscar (Nathaniel Brown), um traficante e usuário de drogas. A forte relação com sua irmã, Linda (Paz de la Huerta), o liga de forma transcendental com seu passado e promessas.

11Gravado em primeira pessoa, sob a visão de Oscar, adentra em seu íntimo numa viagem psicodélica e até mesmo espiritual. Ele é assassinado num bar durante uma entrega de encomenda, e a história se passa em suas matutagens pós morte – quem sabe, um Brás Cubas do século XXI.

O filme não é para qualquer um: contém cenas fortes de violência física e mental, muitas vezes extremamente explícitas. Viagem Alucinante é longo e cansativo, mas a nova perspectiva, o abstrato, a fotografia e a estética fazem do filme uma revolução na arte cinematográfica.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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