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A simplicidade de Michel Ocelot
CINÉFILOS
19 jun 2013 | Por Jornalismo Júnior

Presente na programação da 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Os Contos da Noite (Les Contes de la nuit, 2011) estreia em circuito comercial dois anos após sua primeira exibição no Brasil (a animação estará nas salas de cinemas, em versão 3D, a partir de hoje, sexta-feira). Trata-se da primeira obra cinematográfica tridimensional de Michel Ocelot, mestre da animação francesa, famoso por Kiriku e a Feiticeira (Kiriku et la Sorcière, 1998) e ex-presidente da Associação Internacional de Filmes de Animação (ASIFA).

No longa, um idoso, um garoto e uma garota se encontram todas as noites em um cinema abandonado e lá elaboram histórias baseadas em lendas ou mitos já conhecidos. A sala possui uma máquina onde se pode recriar os contos saídos das mentes dos três protagonistas. Tudo é arquitetado: desde o vestuário e o local, até as referências de arte utilizadas na concepção dos ambientes e o sotaque das personagens. Michel Ocelot divide a película em seis partes, cada uma correspondendo a uma fábula:


O Lobisomem

A primeira história se passa em Borgonha, no século XV e narra o caso de Yann, um príncipe que se torna lobo nas noites de Lua Cheia. A metamorfose é quebrada durante o amanhecer, quando uma corrente deve ser colocada ao redor do pescoço para que Yann volte à forma humana. Porém, algo acontece e sua corrente é perdida, ameaçando-o a se manter como lobo eternamente.

Joãozinho e a Bela Desconhecida

João desce uma gruta muito profunda e desemboca no País dos Mortos. Nesse local, é desafiado pelo rei a passar por inúmeras provações, afim de conseguir a mão de sua filha mais velha – a Bela Desconhecida – e herdar metade de seu trono. O problema é que antes mesmo de encontrar o rei, o rapaz precisa enfrentar as bestas nativas: uma abelha, um mangusto e uma iguana gigantes.

A Eleita da Cidade de Ouro

A lenda da serpente de Ouagadougou serve de referência para a terceira narrativa. Após o garoto e a garota lerem uma história num livro chamado “Contos da África” e se decepcionarem com o triste desfecho, eles decidem adaptar a novela da maneira que lhes convém, ou seja, com um final feliz. E é em uma cidade asteca que um herói vai salvar a vida de uma bela mulher prometida a um sacrifício.

O Menino do Tambor

Um menino sonha em se tornar um tocador de tambor, porém ninguém de seu vilarejo acredita em seu talento. Mas o que seus companheiros de tribo não sabem é que o jovem rapaz é o único capaz de tocar o Tambor Mágico e, através dele, salvar a vida do rei do clã. É uma história adaptada de um conto ugandense-queniano, no qual uma rã, herdeira de um tantã de seu avô, era capaz de fazer dançar quem a ouvisse tocar.

O Menino que Nunca Mentia

Talvez o mais belo apólogo do filme, essa é a biografia de um garoto que nunca mentia e por isso se torna alvo de uma disputa entre dois monarcas. Um deles aposta metade de seu reino com outro soberano, o qual acredita na impossibilidade de que alguém seja verdadeiro em sua plenitude. O garoto se vê num problema quando tem de decidir entre contar a verdade ou mentir para sua majestade.

A Menina-Corça e o Filho do Arquiteto

Maud e Tibaud namoram secretamente, quando são descobertos pelo terrível feiticeiro Zakariak, tutor de Maud e seu futuro noivo. Porém, a bela jovem nega a proposta de se casar com ele e por isso é transformada em um animal. Resta a Tibaud salvar sua amada dessa maldição. Para isso, ele conta com a ajuda de uma fada, de um velho amigo e principalmente de sua intuição.

Mesmo contando com a alta tecnologia, através das mãos de Rodolphe Chabrier, responsável por converter em 3D o filme Meu Malvado Favorito (Despicable Me, 2010), a obra conta com a simplicidade característica da filmografia de Ocelot. E isso é absolutamente perceptível ao testemunharmos as curvas simples, mas sofisticadas, dos desenhos na película.

Simples porque o diretor não se atém aos rebuscamentos gráficos das animações contemporâneas. Sofisticado porque embora quase rudimentar, o uso da técnica das sombras chinesas – que contrapõe a silhueta negra dos personagens ao cenário de cores quase lisérgicas – se torna uma tarefa extremamente complicada de ser executada.

Ponto para o diretor francês, referência na produção artesanal em meio à overdose tecnológica das animações modernas.

Por Vinícius Crevilari
vinicius.crevilari@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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