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A sintonia de O Gordo e o Magro
CINÉFILOS
03 dez 2012 | Por Jornalismo Júnior

Como membros da irmandade “Filhos do Deserto”, naquela reunião, Stanley Laurel e Oliver Hardy tiveram que prestar um juramento com o peso de gerações assumindo um importante compromisso: iriam a convenção anual do grupo, que se realizaria em Chicago. O Sr. Laurel hesitou um pouco antes de se comprometer, afinal, não sabia se a Sra. Laurel permitiria que ele fosse. O Sr. Hardy, cheio de si, zombou do temor do amigo – ele não tinha esse tipo de problemas, não precisava pedir permissão da mulher para ir a lugar algum, era o homem da casa. Contudo, os eventos não se desenrolaram exatamente como o Sr. Hardy planejara. Nem durante o filme Filhos do Deserto (Sons of the Desert, 1933), nem em nenhuma das histórias representadas pelos senhores Hardy e Laurel, mais conhecidos no Brasil como o Gordo e o Magro, respectivamente.

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Não há a necessidade de risadas no fundo, como acontece em tantos programas humorísticos atuais, ou de piadas de duplo sentido. A comicidade dos filmes se dá por conta da evolução da trama, em que pequenos mal-entendidos crescem ao ponto de Hardy e Laurel terminarem a história correndo de um vizinho que tenta atingi-los com uma espingarda a qualquer custo, como em A Ceia dos Veteranos (Block-Heads, 1938). Mal-entendidos, esses, que seriam facilmente contornados, não fosse a personalidade dos dois protagonistas.

Stan Laurel, o Magro, sempre amável e passivo, aceitando as decisões e os planos mirabolantes de Oliver Hardy, o Gordo. Este, por sua vez, é orgulhoso e cheio de si, com nenhuma paciência para as trapalhadas do amigo. Mesmo com as personalidades contrastantes, os dois tem o mesmo dom de se ampliar pequenos problemas até dimensões inimagináveis, arrancando risadas da plateia. E tentando, ao máximo, não enfurecer suas esposas. Sem êxito, é claro.

Bastidores

Ainda que a sua sincronia durante a atuação faça com que os espectadores não consigam imaginá-los separados, as carreiras de Oliver Hardy e Stan Laurel começaram com um oceano de distância. Eles atuaram juntos pela primeira vez apenas em 1921, no filme The Lucky Dog (sem título em português, 1921), e só vieram a se tornar uma dupla em 1927.

Oliver Hardy & Stan Laurel, 1930's

O americano Oliver Hardy começou sua carreira artística aos oito anos de idade, não como ator, mas cantando em espetáculos de menestréis, um tipo de apresentação tipicamente americana que reunia quadros cômicos, dança e música. Seu interesse pela interpretação surgiu por volta de 1910, quando abriu o primeiro cinema de Milledgeville, no interior da Geórgia. Afinal, por menos talento que tivesse, constatou que não poderia ser pior do que os atores das comédias que exibia. Nesse mesmo período, o inglês Stan Laurel pisava pela primeira vez nos Estados Unidos, com a companhia de teatro de Fred Karno, a mesma de Charles Chaplin, de quem era substituto. Laurel permaneceu com o grupo até 1913, quando a saída de Chaplin ocasionou a sua dissolução.

A carreira cinematográfica de Hardy começou em 1914, com a sua participação no filme Outwitting Dad (sem título em português, 1914). Em 1926, passou a fazer parte da Roach Studios, onde Laurel já trabalhava fixamente desde o ano anterior, como diretor e roteirista. Foi o supervisor de produção do estúdio, Leo McCarey, quem enxergou no contraste entre os dois o potencial para uma dupla de sucesso, cabendo a Stan o conceito das personagens e o desenvolvimento das histórias. Sua influência era tanta que, quando McCarey deixou o estúdio, Stan tornou-se o responsável por supervisionar os diretores dos filmes e, ao que tudo indica, a maioria deles foi escolhida por sua maleabilidade – Laurel era quem dirigia efetivamente.

Em 1927, o dono da Roach Studios, Hal Roach, fez uma parceria com a MGM, o que fez com que os filmes fossem melhor distribuídos e divulgados e com que o lucro aumentasse. Dois anos depois, Laurel e Hardy passavam definitivamente do cinema mudo para o falado, que vinha conquistando adeptos velozmente. Em 1930, os dois já faziam mais sucesso que muitos astros dos longa-metragens e Roach decidiu que poderiam trazer ainda mais renda para o estúdio nesse ramo. O primeiro longa da dupla foi Perdão para dois (Pardon Us, 1931).

Entretanto, se nas telas tudo corria muito bem, fora delas não era exatamente assim. Desavenças entre Roach e Stan sempre existiram no tocante às histórias dos filmes, mas a partir de Era uma vez dois valentes (Babes in Toyland, 1934), elas se aprofundaram. A entrada de mais dinheiro no estúdio trouxe, além das óbvias consequências positivas, um clima de preocupação que não havia antes: era fácil manter a descontração filmando curtas de 60 mil dólares, mas a história era outra quando se tratava de filmes que custavam mais que o dobro disso. Os problemas perduraram até 1940, o ano do fim do contrato de Laurel e Hardy com Roach.

Logo após isso, foi fundada a Laurel and Hardy Feature Productions, produtora que fechou contrato com a 20th Century-Fox em abril de 1941. O combinado era que, inicialmente, Stan e Oliver fariam um longa para a Fox e depois teriam a opção de fazer mais nove filmes nos nove anos posteriores. Enquanto isso, ficariam livres para trabalhar para outras companhias e se apresentar no teatro e no rádio. O resultado da parceria, no entanto, foi decepcionante: na Fox não havia, como no estúdio de Roach, espaço para a criatividade e as sutilezas das comédias cinematográficas e, além disso, Stan devia se limitar à atuação, não podendo interferir na direção e no roteiro como fazia antes.

Stan e Oliver filmaram pela última vez em 1944. Depois disso, eles resolveram se afastar do cinema e só abriram uma exceção em 1950, para participar da comédia (Atoll K, 1950). A última aparição pública da dupla ocorreu inesperadamente em 1955, quando foram homenageados num programa ao vivo da NBC. Dois anos depois, Oliver Hardy morreu em decorrência de um infarto e o mesmo ocorreu com Stan Laurel em 1965.

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Influências

Que a principal influência de Stan Laurel e Oliver Hardy na criação de seus personagens foi Charlie Chaplin todo mundo sabe. No entanto, os dois não foram apenas influenciados, eles influenciaram e influenciam diversos comediantes que vieram depois deles.

Em 1996, nos Estados Unidos, a Nickelodeon criou a sitcom Kenan & Kel, inspirada em O Gordo e o Magro. Na série, Kenan é o “gordo”, esperto e ambicioso, sempre criando planos que nunca dão certo, e Kel é o “magro”, o amigo atrapalhado que coloca os dois em confusão e recebe broncas de Kenan. Em quatro anos, foram produzidos 62 episódios e um filme, chamado Duas cabeças pensam melhor do que nenhuma (Two heads are better than none, 2000).

A mesma Nickelodeon criou, ainda, Drake & Josh, já em meados dos anos 2000. Os dois personagens principais, que dão nome à série, são adolescentes obrigados a conviverem como irmãos, já que a mãe de um se casa com o pai do outro. Drake, apesar de ser fisicamente mais magro, é o que tem a personalidade do “gordo” original: vaidoso e mandão, sempre tenta se dar bem. Josh, por outro lado, encarna a personalidade do “magro”, humilde, paciente e desastrado. A sitcom teve quatro temporadas bem-sucedidas, ganhando quatro vezes o Kid’s choice awards de Série de TV Favorita durante o tempo em que foi ao ar.

Já no Brasil, a Rede Globo exibiu a série de TV O Gordo e o Magro em 1993, colorida artificialmente e dublada, e, agora, produz Os Caras de Pau, seriado humorístico de Leandro Hassum e Marcius Melhem. O programa, uma mistura de Laurel e Hardy com Os irmãos Cara de pau (The Blues Brothers, 1980), filme americano de sucesso dos anos 1980, tem como personagens principais Jorginho (Hassum), o gordo, e Pedrão (Melhem), o magro, sempre envolvidos em situações absurdas e, na mesma medida, engraçadas. A sitcom, originada de um quadro do Zorra Total, está no ar há pouco mais de dois anos e já apresenta sua terceira temporada.

As várias tentativas de recriação da fórmula original, entretanto, apesar de terem alcançado sucesso, não fizeram com que os personagens criados na Roach Studios fossem menos aclamados. Prova disso é o fato de que, ainda hoje, nenhuma dupla cômica foi mais bem-sucedida e amada no cinema do que Hardy e Laurel, o Gordo e o Magro.

Por Marina Castro
marina.castror@gmail.com

Por Odhara Rodrigues
rodrigues.odhara@gmail.com

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Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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