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A sociedade do medo
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30 jan 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Caroline Aragaki (carolaragaki@usp.br)

 

Foto: Caroline Aragaki

Numa polarização para encontrar soluções entre a falta de produtividade e a necessidade de manter um sistema, o medo poderia ser temido ou exaltado. Não falávamos em mais nada além disso.

Começou com pesquisas que desejavam saber como o corpo humano funciona, qual a origem de nossas emoções e, por fim – se fosse uma história feliz – o engajamento seria direcionado para diminuir o impacto daquelas que fossem nocivas a nós. Funcionando como uma espécie de premonição, essa emoção serve para nos alertar sobre os riscos que podemos vir a ter. Mas em algum momento, a sociedade ficou extremamente ansiosa, um estado de medo incessante que passou a prejudicar nossa produtividade.

Daí surgiu essa necessidade de acabar com isso. Imagina que ótimo seria termos paz em nossa própria mente? Mais nada nos faria ter vontade de ficar na cama que não a preguiça, o cansaço físico. Descobriram que a amígdala cerebral é responsável pela detecção, geração e manutenção do medo, enquanto o hipotálamo acarreta efeitos profundos sobre o comportamento e emoção dos animais. Assim, a lesão de ambas estruturas seria uma solução. Desativação do medo.

Cada cidadão recebeu uma carta explicando os motivos para tal mudança, e evidenciando a obrigatoriedade do ato. Rádio, televisão e internet também divulgavam essas informações. Similar a um paywall, não tinha como você abrir uma página online sem que o comunicado aparecesse. Estava estabelecido que até o final do ano todos teriam que cumprir esse dever com a própria sociedade, um contrato para que nossa economia prosperasse. Toda criança que nascesse já passaria pelo processo de descamação, algo ainda melhor por não se lembrarem de como é ter sentido o medo antes.

Funcionou. Trabalhamos como nunca pelo resto dessa geração que recordava, com uma mescla entre saudosismo e alívio, o que era ter medo. A palavra que já não tinha muito significado e muito menos contexto, entretanto, era dita diariamente para que não houvesse esquecimento. A história não pode ser apagada. Nossos filhos não podiam vir a ignorar a possibilidade de serem reprimidos caso rompessem com o sistema. Se o medo não estava ali fisicamente, ao menos deveria ser conservado na imaginação. Isso durou até essa geração se aposentar.

A memória coletiva não era maior do que a curiosidade individual, a qual – aos poucos, a conversas curtas – se tornou uma curiosidade coletiva. Tentavam entender o que vinha a ser o medo. Sobretudo, não entendiam o que era essa repressão que seus pais falavam tanto. O problema da geração que sucedeu a primeira descamada é que, além de produtivos, essa se tornou mais questionadora do que nunca.

Se eu parar de trabalhar, o que acontece? Sem escutar a resposta da geração passada, pararam. Foram reprimidos. Primeiro com balas de borracha, depois com prisão, exílio e, finalmente, balas de verdade. Tiravam do plano da realidade todos aqueles que tentassem fugir da normalidade, do equilíbrio da nação. Mas os outros que restavam, sem temer, por mais que tentassem fixar racionalmente que morrer não parecia bom, não conseguiam se apegar simplesmente a essa espécie de dogma que os de cima diziam repetidas vezes.

A sociedade se tornou improdutiva. Não tinha como ameaçarem e, muito menos, tirarem mais sangue sem que essa solução porca, por si só, não comprometesse o sistema. O governo teve que rever a proposta do medo. Essa emoção, apesar de em excesso causar ansiedade e pânico, ao menos poderia frear as reivindicações da população. Em vez de seguirem uma cronologia de punições, decidiram que a primeira intervenção a ser feita seria o estímulo e reconstrução da amígdala e do hipotálamo. Aliás, mais do que reconstrução, a extensão dessas estruturas, é claro. Era isso que eles queriam, que a gente sentisse medo.

Depois disso vinham as punições já comumente conhecidas. E o pavor foi disseminado de maneira que a revolta se calou, o corpo de luta estava guardado nas casas feitas do mármore dos tempos de fartura. Para evitar que a ansiedade reinasse, a solução foi injetar doses minuciosamente calculadas de oxitocina, hormônio do amor, em tempos reguláveis no horário de trabalho para tornar cada cidadão produtivo na medida certa novamente.

Não demorou muito para que a oxitocina fosse vendida ilegalmente, e o desfecho… você tem medo de saber?

 

Fontes:

http://www.scielo.br/pdf/rpc/v35n2/a03v35n2

https://super.abril.com.br/ciencia/panico-ou-medo/

http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/medo_pode_ser_apagado_do_cerebro_.html

http://www.deviante.com.br/noticias/ciencia/aprender-regular-amigdala-pode-modificar-suas-emocoes/

https://www.bbc.com/portuguese/geral-38636037

 

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