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Da penumbra à luz: “A Sombra do Pai” emerge com destaque para o cinema brasileiro
CINÉFILOS
02 maio 2019 | Por Cinéfilos

Por Naomi Tarumoto de Almeida
naomi.tarumotoalmeida@usp.br

Apesar de, no imaginário popular, a produção nacional cinematográfica independente ter sido marcada pela certa impressão de monotonia, pelos cortes bruscos de cena,  pela escassez de trilhas sonoras, de cenários diversificados e, notavelmente, de investimentos, A Sombra do Pai (2018) apresenta-se enquanto um lançamento que quebra padrões; ou melhor dizendo, reforça alguns e modifica outros, de modo a produzir um conteúdo inovador, que prende a atenção mesmo do público acostumado com a negligência a esse recorte do cinema brasileiro.

O segundo longa-metragem de Gabriela Amaral Almeida conta a história da família de Dalva (Nina Medeiros) que, após a morte de sua mãe, precisou lidar a nova configuração do núcleo familiar. Esse processo, em meio ao adoecimento de seu pai Jorge (Júlio Machado ) e à união matrimonial da tia Juliana (Luciana Paes), obriga a criança a assumir as responsabilidades da casa.

O enredo dramático aliado a uma produção e coprodução pelas companhias ACERE,  (responsável também por “Entre idas e vindas” (2016), com  Ingrid Guimarães, Fábio Assunção e Alice Braga) e RT FEATURES, (produziu, no mercado nacional, longas como “Tim Maia” (2014); e no mercado internacional, o indicado ao Oscar “Me Chame Pelo Seu Nome” (Call Me By Your Name, 2017))  foi capaz de garantir um amplo espaço para que a diretora desenvolvesse, juntamente com a equipe de atores e outros profissionais, uma obra criativa, reflexiva e impactante.

Em entrevista, Gabriela Amaral Almeida comentou que o processo de escrita do filme deu-se entre a realização de outros trabalhos ao longo de, aproximadamente, 8 anos, de modo que o espectador é capaz de notar o cuidado que se teve na construção de cada cena, espaço e personagem.

As cenas são marcadas por uma representação do real que, ora pelas melodias do compositor Rafael Cavalcanti, ora pelos sons do cotidiano, inserem aqueles que assistem dentro da realidade do filme, fazendo-os ter a impressão de que faz parte dela. O volume das ações corriqueiras é destacado em relação ao som dos outros acontecimentos que compõem a cena; é como se  fizesse parte da trilha sonora o ruído da mão da criança cavando a terra, da marreta quebrando o concreto, das pecinhas se mexendo no frasco.

A construção dos espaços também se dá na valorização do simples: o quintal da casa, a festa junina da escola. Prevalece a representação das condições socioeconômicas de uma determinada parcela populacional, o dia a dia, o trivial que permite a interferência do mágico. Nesse sentido, Almeida demonstra sua sensibilidade para representar o que há de mais dramático, fantasioso e tenebroso na realidade de uma família brasileira da classe média-baixa.

E é a partir desses recursos que se promove uma parcela da ambientação desse contexto com o qual boa parte da população do Brasil se identifica . Através dele, é destacada a relação entre a brutalidade do cotidianoーos poucos recursos financeiros, o trabalho que aliena e dificulta um estreitamento dos laços familiares, a precariedade de saúde mentalーe as múltiplas facetas da espiritualidade, que pode tanto aproximar-se da crueldade rotineira quanto distanciar-se dela por uma delicadeza das intenções humanas mais nobres.

O espiritual, justamente por ser tão múltiplo, foi trabalhado de modo muito habitual, visando a caracterização de muitos dos personagens: a dimensão espiritual, segundo Gabriela Almeida, ”é muito reveladora do caráter desses personagens, porque a depender do que eles desejam profundamente, você acessa o caráter deles”. Assim, esse aspecto foi utilizado enquanto ”um dispositivo narrativo muito interessante”, revelando, por meio de manifestações sobrenaturais, o que há de mais assustador e belo no ser humano. Na perspectiva da diretora, “ É assim: faz uma mandinga, depois faz um café, lava os pratos… Essa é a lógica com a qual eu fui apresentada à espiritualidade. E eu acho que espiritualidade para mim funciona como materialização de desejo na sociedade. Isso é um veículo para se manifestar um desejo que tem: as promessas católicas: ‘se eu conseguir isso, eu deixo de comer isso’, ou ‘se eu conseguir isso, eu trago isso aqui’. É uma maneira de você transformar isso em um totem  com valor.”

Dalva, por exemplo, possui uma intensa conexão com o transcendente, a qual revela a natureza curiosa da menina, seus desejos de tornar o meio familiar mais harmonioso e de resgatar o amparo parental do passado. Já Jorge, “um morto-vivo”, “apático”, “acimentado”, “submerso em uma capa de dureza”, nas palavras do próprio ator que o interpreta, sequer reflete acerca dos seus medos, tristezas (aqui, inclui-se o luto da esposa) e anseios, o que poderia ser simbolizado pelo afastamento do mundo espiritual.

É observável, portanto, uma disparidade entre a condição de uma filha carente de cuidado, carinho e sensibilidade e a de um pai vítima de um sistema, que o influencia tanto pela masculinidade tóxica quanto pelas condições de trabalho, tornando-o um ‘monstro bom’ que, de maneira infeliz, prejudica suas relações interpessoais por motivos que lhe passam despercebidos.

O filme retrata a história de uma “família disfuncionalmente funcional”, nas palavras de Gabriela Amaral Almeida [Foto: Pandora Filmes]

A crítica ao ideal ultrapassado de masculino é muito perceptível no retrato de Jorge enquanto amigo e pai, que desenvolve relações muito marcadas por impasses na expressão de afeto, de amparo e de preocupação. Além disso, os efeitos desse novo debate, bem explorado na matéria “Sete exemplos de masculinidade tóxica que você reconhecerá no seu dia a dia” , publicada no final do mês de janeiro pelo El País, emergem com incrível intensidade na cena em que o personagem chora. Nas palavras de Machado e Almeida, esse foi um dos trechos mais complicados de serem interpretados, que exigiu maior aproximação de ator e diretora como “dupla criativa”,“compreensão de equipe” para que um momento tão sensível viesse à tona. Esse próprio fato, inclusive, aponta para uma masculinidade tóxica real: por que motivo, além da complexidade em si de incorporar o ato, teria sido tão difícil para um indivíduo do sexo masculino representar, nas palavras de Júlio Machado, o “engessamento […] que impede tanto o homem de simplesmente deixar fluir as suas questões emocionais”, se tão somente não esbarrasse em questões emocionais que lhe são verídicas?

A narrativa, contudo, não aborda alguns pontos que poderiam ser considerados muito relevantes para uma melhor compreensão da história: a forma como se relacionava a família antes do óbito da mãe não é colocada em questão e a enfermidade de Jorge é pouco explorada. Por um lado, essa omissão provoca um efeito místico e poético; por outro, deixa a desejar enquanto enredo carente de abordagens.

“A Sombra do Pai” revela-se uma produção ousada e marcante por sua temática, gênero, estilo e dedicação. O longa tem estreia prevista para o dia 02 de maio no Brasil. Confira o trailer:

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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