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A sutileza e a obsessão contrapostas em João, O Maestro
CINÉFILOS
15 ago 2017 | Por Jornalismo Júnior

“Assim como um vaso molda o vazio, a música deve moldar o silêncio. O silêncio após uma peça de Mozart também foi escrito por Mozart”. Essa é uma das muitas frases marcantes do filme João, O Maestro (2017), que conta a história de vida de João Carlos Martins. Estrelado por Alexandre Nero e Rodrigo Pandolfo, com participação especial de Alinne Moraes, o longa questiona paixão e obsessão.

João, O Maestro

Imagem: Maria Carolina Soares

João desde criança mostrou talento para o piano, muito incentivado pelo pai. Por ser uma criança pouco sociável, seu tempo livre era quase todo dedicado a aprender peças dos grandes gênios da área, como Mozart, Bach e Chopin, peças estas que envolvem toda a narrativa. Ao crescer, torna-se um grande mestre no instrumento, até que uma série de acontecimentos dificultam sua evolução.

A história de João Carlos Martins é impressionante. É como se o universo sempre o desencorajasse a continuar, mas ele persiste e luta a cada dificuldade, fazendo com que torçamos por ele durante todo o longa.

João, O Maestro

Imagem: Maria Carolina Soares

Um dos pontos altos do filme é sua montagem. Cenas atuais e flashbacks são intercalados para explicar o enredo de maneira não  convencional, tirando a monotonia de biografia. A trilha sonora também é fenomenal. Com todas as músicas tocadas por Martins, o espectador percebe o tom e o sentido de cada cena através das composições clássicas, com o piano sempre presente. Além disso, o roteiro é igualmente inteligente. Os diálogos só aparecem quando necessários e apresentam frases dignas de serem decoradas e repetidas. Também o diretor conseguiu arquitetar perfeitamente vários tempos históricos com elementos sutis, como figurino, cartazes ao fundo e penteados.

Outro aspecto muito importante na construção de João, O Maestro é a atuação. Rodrigo Pandolfo, ao interpretar João em sua juventude, mostra um talento ímpar, surpreendendo quem só estava acostumado a vê-lo na comédia. Alexandre Nero, por sua vez, dispensa apresentações. Ao imitar perfeitamente o gestual do maestro, é possível até confundi-los em certas cenas, já que João Carlos Martins aparece regendo uma orquestra no final. Esse foco nos gestos é também bem marcante. A câmera foca nas mãos de todos os personagens, de maneira que, desde o início, sabemos qual será o ponto central do enredo e onde é possível que haja obstáculos.

João, O Maestro

Imagem: reprodução

O filme, dirigido por Mauro Lima, é um alívio em meio a tantas comédias nacionais. E isso deve servir de lição para a produção brasileira, que parece ter percebido recentemente que o público do Brasil está preparado para histórias mais densas e interessantes. Lima também acerta ao priorizar a música na produção. Ele disse, na coletiva de imprensa do longa, que detesta assistir a filmes em que fica claro que o ator não está tocando o instrumento, então prestou bastante atenção nisso. De acordo com Nero, para conseguir tocar piano no longa ele fez um “balé das mãos”, já que, apesar de ser músico, não tem a destreza de João Carlos Martins ao tocar as obras de Bach.

Em questão de enredo, um dubiedade que sempre persegue o protagonista é essa sua persistência apesar de todos os acidentes e cirurgias. Ele é, por vezes, mostrado como obsessivo e louco por dispensar o resto da sua vida para poder continuar a tocar piano. “Você sabia que, em alguns dicionários, obsessão é descrita como ‘busca diabólica’, João?” é uma das frases que refletem essa luta interior do personagem. João dispensa sua família, seus amigos, seus filhos e muitas vezes sua saúde pelo momento inebriante do espetáculo. O piano é sua família e quem não aceita isso é rapidamente excluído de sua vida.

Essa paixão desenfreada traz uma lição a quem assiste: com persistência, tudo é possível. Após diversas cirurgias e acidentes, João, que durante 80% do filme é pianista, se torna maestro por se recusar a desistir da música, mesmo com todas as dificuldades.

João, O Maestro

Imagem: reprodução

João, O Maestro é uma história que precisava ser contada. A vida angustiante e inspiradora de João Carlos Martins faz refletir sobre até onde estamos dispostos a ir por um desejo, um sonho ou um obsessão, e o que vale a pena perder para alcançá-lo.

O longa chega aos cinemas no dia 17 de agosto. Confira o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=JK2kQ-TSfac

por Maria Carolina Soares
mcarolinasoares@uol.com.br

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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