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A Técnica do Plano-Sequência: Grandiosidade na Simplicidade
CINÉFILOS
29 ago 2013 | Por Jornalismo Júnior

André Bazin, co-fundador da lendária revista Cahiers du Cinéma, definia o plano-sequência como a filmagem de uma ação contínua com longo período de duração, no qual a câmera realiza um movimento sequencial, sem ocorrência de cortes e em apenas um take. Ele defendia a idéia de que este recurso dava mais realismo ao cinema, evitando a ruptura da realidade, que acontece normalmente através das montagens de takes em uma película.
A partir dessa premissa, vários cineastas passaram a aplicar tal artifício, a fim de conferir um efeito de real às cenas, aproximando mais o espectador ao desenvolvimento da narrativa. Decorrido quase um século desde a primeira vez que se utiliza a técnica, o plano-sequência resiste e, aliado à tecnologia incorporada pela indústria cinematográfica moderna, intensifica o sentimento de onisciência do espectador na história.
O Cinéfilos indica, portanto, algumas obras consideradas fundamentais para entender o plano-sequência e captar o aperfeiçoamento desta técnica ainda tão empregada pelos diretores.

Quando Friedrich Wilhelm Murnau filmava Aurora (Sunrise, 1927), não imaginava que estaria contribuindo para uma revolução no cinema. Numa cena, em que o Homem (George O’Brien) procurava a Mulher da Cidade (Margaret Livingston), o espectador estava vendo um dos primeiros esboços de plano-sequência de que se tem conhecimento. A cena dura poucos segundos, mas para uma época em que o Cinema começa a se desenvolver, já era muito.

Com Greta Garbo no elenco, Rouben Mamoulian utiliza-se do plano-sequência e da beleza da eterna diva para conceber uma das mais emblemáticas cenas da cinematografia. No desfecho de Rainha Cristina (Queen Christina, 1933), a câmera se aproxima lentamente do rosto de Garbo, que permanece imóvel, na proa de um navio, olhando para o horizonte. Seria o ponto culminante na carreira da atriz.

http://www.youtube.com/watch?v=nFFtj4N9rfw

Alfred Hitchcock e seu Festim Diabólico (Rope, 1948) tenta levar a cabo a execução de uma película inteiramente gravada em plano-sequência. A tecnologia não acompanha a genialidade do diretor, já que na época ainda era impossível alcançar tal feito. A solução? Hitchcock recorre somente a um cenário e a filmagem é feita com apenas oito cortes de onze minutos cada, editando de tal forma que se tem a impressão de que o filme foi produzido em uma única tomada. Aliás, essa é a primeira obra colorida do diretor.

http://www.youtube.com/watch?v=UfzGDMYsO0E

Em A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958), Orson Welles realiza, logo no início do filme, aquilo que seria considerada uma das melhores cenas de plano-sequência de todos os tempos. Em pouco mais de três minutos, Welles recorre a uma câmera aérea (que inicialmente se posiciona no mesmo nível dos atores e aos poucos vai aumentando a altura) e ao expressionismo alemão (no uso do contraste entre luz e sombra) para mostrar uma bomba sendo colocada dentro de um carro e logo depois, sua explosão.

Um dos maiores expoentes do uso do plano-sequência no Brasil é Glauber Rocha. É considerado um mestre da filmografia nacional de cunho político-social. Em Terra em Transe (1967), Glauber conversa com a conjuntura política da época e critica, através de personagens densos, diálogos pesados e cenários sombrios, todas as correntes políticas daquele tempo: da direita à esquerda. O filme foi quase todo gravado em plano-sequência com cortes bruscos entre eles, de modo a intensificar o caráter visceral de sua obra.

A vida auto-destrutiva do boxeador Jake LaMotta foi revivida por Robert De Niro em Touro Indomável (Raging Bull, 1980), pelas mãos de Martin Scorsese. O extraordinário take em que LaMotta se prepara para sua luta definitiva, até sua entrada no ringue, é talvez um dos maiores exemplos do realismo que a aplicação da técnica de plano-sequência pode proporcionar.

O Hotel Stanley, localizado em East Park, Colorado, serviu de locação para as filmagens do trailer de horror O Iluminado (The Shine, 1980). Nesta adaptação homônima do mestre Stephen King, uma das cenas mais perturbadoras é a de uma criança andando de triciclo pelos corredores tétricos do Hotel em que seus pais estavam hospedados. Stanley Kubrick, diretor desta obra-de-arte cinematográfica, acompanha as pedaladas de seu personagem com um plano-sequência engenhosamente dinâmico.

Quentin Tarantino mostra sua megalomania-cinematográfica também em seus planos-sequência bem elaborados. Em Kill Bill Vol.1 (Kill Bill Vol.1, 2004) uma câmera “acrobata” filma em uma tomada todo o espaço da Casa das Folhas, bem como a chegada da Noiva (Uma Thurman) ao local até sua ida ao toillete (é virtuoso o momento em que a personagem de Uma entra em um pequeno vestiário e, sem corte, o espaço se ilumina, mostrando A Noiva se trocando). Fica evidente a referência à cena inicial de A Marca da Maldade, já mostrada nesta matéria.

Para finalizar, uma das cenas mais belas do Cinema neste início de década é o quadro inicial de Cisne Negro (Black Swan, 2011), quando Nina Sayers (Natalie Portman) interpreta o Cisne Branco. O plano-sequência se inicia no momento em que a câmera pega os pés da bailarina e os acompanha até que ela se senta ao chão (nota-se a beleza no emprego da técnica ao percebermos que quem comanda a cena é a personagem e não a câmera). Após um corte, o método é reutilizado quando da entrada de um outro personagem. Darren Aronofsky (diretor) prova seu know-how ao recorrer ao plano-sequência e utilizá-lo de forma minimalista – são necessários apenas o jogo de sombra e luz, dois personagens e uma câmera para transformar a simplicidade em grandiosidade.

Por Vinícius Crevilari
vinicius.crevilari@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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