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A televisão brasileira dos anos 80 e o homem por trás da máscara de Bingo – O Rei das Manhãs
CINÉFILOS
23 ago 2017 | Por Jornalismo Júnior

O Cinéfilos esteve na pré-estreia do longa, realizada em São Paulo e que contou com a presença do elenco e diretor. Imagem: Larissa Santos

Caindo em desuso nos dias de hoje, a televisão brasileira já passou por momentos de verdadeira glória, em que grandes emissoras controlavam toda a produção de entretenimento nacional. Dessa forma emergiram muitas personagens, ícones dos canais abertos, que marcaram a história da evolução televisiva. Em Bingo – O Rei das Manhãs (2017), Vladimir Brichta interpreta um dos mais famosos, o apresentador infantil Bingo. Inspirado na vida de Arlindo Barreto, que trabalhava como o palhaço Bozo pelo SBT, o filme trata da pessoa por trás da personagem, mostrando os contrastes entre o complicado Arlindo — ou Augusto Mendes, no longa —, e o palhaço, animador e ídolo infantil.

Marcando a estreia como diretor de cinema de Daniel Rezende — vencedor do BAFTA de Melhor Edição em 2003 por Cidade de Deus (2002), e indicado ao Oscar na mesma categoria —, o filme não se trata de uma biografia de Arlindo. Colocando a fidelidade aos fatos um pouco de lado, o diretor explicou que o roteiro, desde o início, priorizava a criação de uma narrativa. Assim, ele afirma em entrevista ao AdoroCinema que a resolução foi “ficcionalizar tudo para poder ter liberdade criativa e não se ater a nomes, a marcas e a qualquer tipo de coisa que pudesse nos prender de qualquer forma”.

A liberdade criativa de Daniel não se apresenta, contudo, como um problema. Apesar dos nomes alterados e dos acréscimos a vida de Arlindo e de Bozo, o filme cumpre muito bem o que se propõe a fazer, que, segundo o diretor, é “contar determinadas histórias”. Traçando um panorama da televisão brasileira dos anos 80 com bastante propriedade, o longa traz tudo o que é característico àquela cultura: as cores chamativas, figurinos extravagantes, numerosas luzes fortes e, de maneira geral, todo o exagero que era transmitido pelas telas.

Bngo

Imagem: reprodução

O filme conta a trajetória de Augusto Mendes, ator que abandona as pornochanchadas para tentar um papel nas grandes emissoras de TV. A perspectiva de se tornar o palhaço Bingo lhe atrai, já que esse conta com um estúdio próprio e apresenta um sucesso estrondoso nos Estados Unidos. Meio apresentador, meio animador infantil, ele sonha com a fama e visa alcançar o que todos consideram ser impossível. De personalidade única e humor contagiante, representado muito bem por Vladimir Brichta, Augusto é carismático e eufórico, traz alegria aos ambientes em que está e vive tudo muito intensamente.

Bingo, entretanto, tem outra face — a que não é pintada com tinta branca e cujos cabelos não são volumosos e azuis. O homem que dá vida ao palhaço é complexo e apaixonado pelos holofotes desde criança, já que sua mãe, na juventude, tinha sido uma atriz famosa. Entrando numa espiral descendente de bebidas e cocaína, o filme contrapõe o palhaço, ídolo infantil e personificação da alegria, com o homem, incapaz de ser um bom pai e que, não conseguindo parar a sucessão de erros, se afoga em descontentamento. Por isso, como sintetizado pelo seu diretor, o longa é “completamente alegre e ao mesmo tempo denso”, não se assemelhando em nada, portanto, às comédias nacionais com as quais o público está mais acostumado.

Exagero é uma palavra que rege Augusto. Não se contentando com o ordinário, ele procura transcender seus próprios limites, sacrificando muito de si mesmo para chegar às estrelas. Seja por exceder em horas de trabalho, ou por abusar das drogas para manter-se constantemente alegre, ou então pelos incontáveis encontros sexuais, Augusto detesta o regular, repudia as regras, e busca sempre uma maneira de se destacar da enorme massa de gente morna.

Bingo

Imagem: reprodução

O filme se mantém em consonância com a cultura e estética oitentistas, tanto no figurino como nos cenários, e até mesmo na tipografia utilizada em algumas cenas com legendas. Entretanto, ainda que trate da história de um personagem da TV, a direção ousada não deixa esquecer que o que assistimos é cinema: os efeitos mirabolantes, a montagem das cenas e alguns travellings usados por Daniel Rezende dificilmente seriam vistos em algum programa de televisão dos anos 80.

Como ressaltado por Daniel, “no recorte dos anos 1980 você tem cor, exagero, politicamente incorreto, um pé no brega e um pé no pop”. E é exatamente isso, com uma roupagem moderna e um tanto romantizada o que para alguns pode ser um defeito , que seu filme entrega. Bingo – O Rei das Manhãs possui um humor escrachado, mas sem forçar a barra para arrancar risadas do público. Somado isso ao sentimento de nostalgia, que por si só costuma atrair bastante público, e com um ator que faz jus ao personagem carismático que interpreta, é muito provável que se torne um dos grandes sucessos do ano.

O filme chega aos cinemas no dia 24 de agosto. Confira o trailer abaixo:

por Giovanna Jarandilha e Matheus Souza
giovannajarandilha@gmail.com | souzamatheusmss@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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