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A Vida Após a Vida: um cortejo fúnebre à China do passado
CINÉFILOS
17 maio 2017 | Por Jornalismo Júnior

Leilei, um garoto pré-adolescente trajando casaco esportivo colorido, questiona o pai sobre o modo antiquado com o qual levam suas vidas. Joga os galhos que carregava no chão e marcha, zangado, para longe. No entanto, vê um coelho – e põe-se a correr atrás dele.Quando volta, já não é Leilei. Agora é sua mãe, Xiuying – seu espírito o usará para completar uma tarefa que ela deseja cumprir. A Vida Após a Vida (Zhi fan ye mao, 2017) é um drama de 80 minutos do diretor Zhang Hanyi. Foi nomeado a cinco troféus e destes ganhou três, entre eles o San Francisco Internacional Film Festival.

a vida após a vida 1

Imagem: Reprodução

Apesar da curta duração, o filme arrasta-se vagarosamente, suas cores monótonas e invariáveis aumentando a sensação de que estamos presos em seu fúnebre cenário por horas e horas. Zhang foi minucioso no aspecto das cores. Sua paleta é morbidamente dessaturada – como se uma borracha tivesse sido passada por toda a cena, lentamente apagando tudo e todos que nela estão. E é o que realmente está acontecendo.

A vila onde moram Leilei, sua família e mais alguns poucos ainda retém algumas cavernas ancestrais, nas quais habitam. Em pleno inverno, árvores mortas e casas abandonadas revelam o fim iminente do local. Logo, ele será demolido, para dar lugar às crescentes indústrias e plantações modernas que começam a figurar na China. Seus moradores estão cientes do que está acontecendo. O Quinto Tio, cuja morte marca o início do longa, diz que, como ele, o lugar está morrendo. A melancolia dessa realização é retratada de forma distanciada e quase neutra; a morte é assunto comum e todos ali já estão insensíveis a ela. Isso é evidente quando Mingchun, pai de Leilei, não demonstra surpresa ao seu filho retornar com o espírito da mãe. Ele aponta, inclusive, seu atraso. Essa reação é compartilhada por diversos outros membros da família. Não há cerimônia alguma para a morte.; Ela é recebida como um velho conhecido.

a vida após a vida 2

Imagem: Reprodução

O filme é organizado em cenas longas, com pausas, em sua maioria, tortuosas. Durante essas, o espectador fica no mínimo desconfortável. A atuação rígida e fria não prende a atenção; os planos abertos não nos permitem ver seus rostos para buscar entender a emoção presente. Leilei e/ou Xiuying andam de braços estendidos ao longo do corpo e cabeça baixa, inexpressivamente. Seu pai e/ou marido exibe um comportamento semelhante. As outras personagens aparecem por tempo muito pequeno para marcarem presença. Destes, a única que demonstra maior sentimentalismo é a avó de Leilei, ou mãe de Xiuying. Ela conta para a filha sobre sua solidão desde sua partida; no entanto, a troca é curta e ambas sabem que não mudará nada.

Por outro lado, o andamento lento e pausado do enredo nos força a viver cada cena pelo que parecem horas – como enquanto Mingchun e Leilei/Xiuying trabalham., Seu árduo esforço parece ser compartilhado por nós, que sentimos na pele o cansaço e o tédio que a tarefa emana. No entanto, há trechos com maior dinamismo e mesmo um tom levemente esperançoso, quando Xiuying, ainda no corpo de Leilei, leva o marido para conhecer as atuais encarnações dos pais dele, que morreram aproximadamente meia década antes. Estas demonstram maior bem-estar que qualquer um dos seres humanos presentes na vila, e contrastam fortemente ao lado do pai Mingchun.

Através de pesado simbolismo, Zhang Hanyi retrata, através do longa, a história da modernização chinesa com extremo desalento. Como um aceno à crescente conquista do país pelo capitalismo, o menino Leilei veste um casaco esportivo com uma logomarca muito semelhante à da marca Adidas; grandes máquinas agrícolas aparecem ao fundo e, em alguns momentos, cruza com nossos personagens. Em uma cena de extrema importância, o pequeno carrinho improvisado em uma moto pertencente a Mingchun encontra um trator na estrada, em sentidos opostos. Um tem de ceder seu caminho e permitir a passada do outro. Quem você aposta que o faz?

Embora não queira desvencilhar-se de seu passado rural e humilde (sentimento que sustenta a tarefa de Xiuying), a China retratada reconhece que ele está definhando, incapaz de sustentar-se por muito mais tempo. No entanto, o futuro moderno não lhe parece ainda acolhedor. Para onde ir quando seu passado está morrendo e seu futuro parece mais uma sobrevida?

É essa incerteza que leva os habitantes a continuarem na vila, até serem, enfim, expulsos pela ameaça da demolição. No entanto, a melancolia e morbidez que o cenário emanava segue seus moradores até a cidade, negando a eles (e a nós) o luxo de um desfecho otimista. Pelo contrário: com seu desenvolvimento apático e prolongado, de alguma forma o longa nos têm presos no final, quando, apenas quando acaba, percebemos que estávamos na beirada da poltrona, completamente imersos.

A Vida Após a Vida estreia em 18 de maio. Confira o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=XPZ5-iMSJjU

(Obs.: é importante avisar que o filme possui uma cena específica de aproximadamente 2 minutos que retrata o sacrifício de um animal, envolvendo áudio e vídeo não explícitos, porém perturbadores. A cena é simbólica, porém não essencial ao entendimento do longa. Para a audiência sensível ao tema, recomenda-se assistir com cuidado.)

por Juliana Santos
jusantosgoncalves@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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