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Acesso, caminhadas e conflitos: dilemas do Lollapalooza Brasil 2014
Escuta Aí
08 abr 2014 | Por Jornalismo Júnior

Em 2014, pela primeira vez, o Lollapalooza Brasil foi realizado fora do Jockey Club de São Paulo. No Autódromo de Interlagos, cuja área é cinco vezes maior que a do antigo anfitrião (600 mil m2 contra 120 mil do Jockey), o festival pôde oferecer ao público uma extensa variedade de atividades promovidas pelos patrocinadores do evento, além de um número superior de bares, banheiros e portões de entrada e saída – em suma, um ambiente mais confortável para as quase 80 mil pessoas esperadas em cada dia de shows.

No entanto, em meio às melhorias – que foram devidamente reconhecidas pelo público, tanto durante o fim de semana quanto em seguida, nas redes sociais – algumas críticas em relação ao novo lugar foram praticamente unânimes.

A pouca acessibilidade do Autódromo, localizado na Zona Sul de São Paulo, afastado dos principais centros populacionais da cidade e pouco atendido pelo transporte público municipal, foi inicialmente criticada, mas como ninguém encontrou muitas dificuldades ao voltar para casa – diferente da edição 2012 do festival, quando 70 mil pessoas rumaram do show do Foo Fighters, no Jockey, ao metrô em uma noite caótica – o percalço foi relevado.

Menos amenizada, porém, foi a desaprovação ao aumento da distância entre os palcos do festival. No Jockey, calculava-se (sem muito consenso) que entre os palcos principais havia cerca de 2 km. Em Interlagos, provida de uma área muito maior, a organização do festival decidiu resolver um antigo problema – a interferência do som de um palco em outro – e aumentou a distância entre os tablados, que chegava a 2,5 km segundo alguns veículos.

realizado em novo local, um dos maiores problemas do lollapalooza de 2014 foia  dificuldade de locomoção

Em novo local, festival ainda não se mostra adequado à realidade brasileira . Foto: Avener Prado/Folhapress

Festivais internacionais em que o Lollapalooza Brasil é moldado, como o Coachella (EUA) e o Glastonbury (Inglaterra), não são exceções nesse quesito. Em fóruns de discussão e relatos de visitantes, estima-se que caminhar de um palco a outro nesses festivais, em boas condições meterológicas, leve entre 5 e 15 minutos – nada muito diferente do evento nacional.

Em festivais brasileiros, porém, é preciso considerar mais um fator. Diferente de grande parte do público europeu, os fãs tupiniquins raramente podem ver suas bandas favoritas fora do evento. Por isso, não é raro ver multidões correndo entre os palcos ou “acampando” onde seus ídolos tocarão, sem ligar muito para os shows anteriores. Para quem deseja ver shows consecutivos em palcos diferentes, as longas caminhadas com sol a pino não são muito agradáveis.

Há, ainda, o problema dos conflitos de horário. Na edição 2014, a proximidade entre os shows de Phoenix e Lorde, no sábado, e Arcade Fire e New Order, no domingo, obrigou alguns a “dispensar” atrações. A questão é ônus de qualquer bom lineup, obviamente, mas pesa mais em um país dificilmente visitado pelas bandas escaladas. As Lolla Parties, eventos paralelos que levam atrações do festival a lugares menores de São Paulo, são uma alternativa, embora insuficiente.

Assim, uma boa parcela dos ingressos de festivais nacionais – que ainda encontram dificuldades para serem esgotados – vão para aqueles que veem neles uma oportunidade para assistir ao maior número possível de shows que lhe agradam. Há, claramente, uma discrepância entre essa realidade e a estrangeira, no qual a “experiência” e a tradição pesam tanto quanto os lineups – e os ingressos não duram mais que alguns minutos.

É evidente que o Lollapalooza Brasil ainda engatinha. Antes da primeira edição do (extinto?) SWU, em 2010, em um período no qual o Rock in Rio era realizado em qualquer lugar exceto o Rio, não possuíamos um festival de grande porte. O novo panorama dialoga com alterações mercadológicas que colocaram o Brasil definitivamente na rota de turnês mundiais, mas encontra empecilhos em um período de incertezas econômicas globais.

Para as próximas edições do Lolla BR, a Time 4 Fun (produtora que detém os direitos do festival pelos próximos quatro anos) precisa levar em conta certas peculiaridades do país antes de seguir à risca os modelos de sucesso no Primeiro Mundo. O Autódromo de Interlagos, apesar das críticas, conseguiu mostrar seu charme. Agora, precisa saber conversar com um público cuja mentalidade e realidade não é tão análoga à dos países desenvolvidos.

Por Marcelo Grava
marcelo.grava@gmail.com

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