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Adam pertence às mulheres, mas não só a elas
CINÉFILOS
14 nov 2019 | Por Isabel Magalhães Teles (isabel.teles@usp.br)

Baseado em uma situação real vivida pela diretora de cinema marroquina Maryam Touzani, Adam (2019) conta a história de duas mulheres desconhecidas que se ajudam mutuamente a contornar as dificuldades que cada uma delas enfrenta.

De um lado, a jovem Samia (Nisrin Erradi) desembarca em Casablanca para esconder de sua família a gravidez fora do casamento e proteger a criança bastarda da desonra. De outro, a viúva Abla (Lubna Azabal) vive em luto sofrido após a morte súbita de seu marido e assume o negócio familiar e a criação de sua filha, a pequena e inteligente Warda (Douae Belhaouda). As mulheres acordam que Samia se hospedará com Abla passando-se por sua prima até que o bebê nasça, possa ser entregue para adoção e ela consiga voltar ao seu vilarejo sem levantar suspeitas sobre sua condição contrária aos costumes e à religião.

A interação entre Samia e Abla acontece inicialmente de forma ríspida e superficial e vai se tornando mais intensa à medida em que é construída a relação de confiança que faz com que ambas compartilhem seus segredos, medos e desejos. A viúva decide ajudar a jovem grávida e recolhê-la em sua casa por ver nela sinais de leveza e juventude que contribuem para amenizar o clima pesado instaurado na casa que vive em luto.

Nisrin Erradi como a jovem grávida Samia [Foto: Divulgação]

Nesse sentido, a comida desempenha papel fundamental. Abla somente passa a aceitar a ajuda de Samia nos negócios e decide compartilhar sua intimidade, quando ela se prova capaz de executar uma receita complexa. Em uma das cenas mais bonitas do filme, registrado principalmente com luz natural e cenários de cores quentes, as duas mulheres, com a ajuda da menina Warda preparam quitutes para serem vendidos durante o feriado. 

O gestual das atrizes também merece destaque, com a valorização dos olhares e do tato, expresso na maquiagem delineada, nas texturas da pele, do mobiliário e do ponto certo da massa que preparam. A música de origem árabe, com sons instrumentais e cantos sonoros passa a se destacar a partir da segunda metade do filme, quando Abla finalmente aceita dançar ao som das músicas que lhe traziam memórias de seu falecido marido. 

Apesar de o fantasma do homem falecido permear toda a narrativa, ele jamais se sobrepõe à vivência das mulheres, que são o foco do filme. Em certo momento, Abla confessa que ressente não ter podido se despedir adequadamente de seu esposo porque muitos vizinhos e parentes se encarregaram que dedicar à ele o devido cuidado fúnebre e porque, afinal “A morte não pertence às mulheres”. 

Como Samia observa, pouco na vida  — e essa é uma constatação aplicável tanto à cultura marroquina quanto à universal  — pertence às mulheres. O longa prova que o que às pertence, e é extremamente valioso, são as relações afetivas, a sororidade e a compaixão, que não faz distinção se encontra pessoas desconhecidas ou de uma mesma família. Somente uma diretora mulher poderia promover tal reflexão com tamanha delicadeza e também com a sutileza capaz de sensibilizar todo o público.

O filme representa o Marrocos como pré-indicado a uma vaga na disputa por melhor filme internacional no Oscar. A estreia nos cinemas brasileiros acontece em 14 de novembro, veja o trailer:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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