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Adoráveis Mulheres, adoráveis 135 minutos
CINÉFILOS
09 jan 2020 | Por Amanda Xavier Mazzei (amandamazzei@usp.br)

Gritar “Cristóvão Colombo!” como substituto de “ah, meu Deus!” — quando o nome do navegador ainda era sinônimo apenas de bravura — diz muita coisa sobre Jo March. A protagonista de Adoráveis Mulheres (Little Women, 2019), dirigido por Greta Gerwig, convence como heroína exploradora e livre, mas com inseguranças o suficiente para pertencer a algum canto da realidade. Ainda que o clássico livro de Louisa May Alcott já tenha sido adaptado para o cinema sete vezes, a nova versão é boa. É bonita, sensível — por vezes arranca lágrimas fáceis. O longa é consequente, traz vidas gostosas de se acompanhar e lições feministas pé no chão.

O enredo conta a história de quatro irmãs: Jo (Saoirse Ronan), Meg (Emma Watson), Amy (Florence Pugh) e Beth (Eliza Scanlen), todas adolescentes durante a Guerra de Secessão dos Estados Unidos. O pai está lutando, a mãe se desdobra em mil pra manter a casa, e a coisa mais bonita mesmo é ver como mulheres podem ser verdadeiras amigas, ainda que nada seja perfeito e conflitos belisquem uma convivência compartilhada com prazer. 

A ótica de Greta Gerwig trata do crescimento, desenvolvimento e vida adulta das irmãs March e de seu vizinho-amigo-amante, Laurie (Timothée Chalamet) com complexidade, sem perder a leveza. Quem assiste é convidado a conhecer como, ainda que exista o amor entre todos eles, também há ciúme, inveja e vaidade. Como o que parece sólido pode derreter e se reorganizar sem avisos.

Ao longo dos anos, as March se unem (e desunem) não só pelo afeto, mas também pela arte — um dos fios condutores da trama — seja apresentando suas peças de teatro, seja por suas paixões e talentos individuais: Jo, com a escrita, Beth, com o piano, Meg, em menor escala, por meio da moda; e Amy, pela pintura.  

[Imagem: Divulgação]

Existem mulheres fortes no longa? Sim. Há ideias de empoderamento feminino e incentivo a ele? Muitas. Mas o verdadeiro trunfo do filme, além do elenco de peso, da costura temporal não-linear muito bem construída e estruturada — palmas para os belos paralelismos e jogo sutil de cores quentes ou frias para demarcar a cronologia — e uma fotografia agradável, é a habilidade de Greta Gerwig em não transformar Adoráveis Mulheres em algo que poderia ser só mais uma obra panfletária descolada da realidade. 

Apresentar mulheres fortes e nada mais não basta para a qualidade de uma história, e a diretora do indicado ao Oscar Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, 2018) sabe disso: não planifica a realidade contada por ela. Não faz um filme de causa. O feminismo aqui não é inocente. Claro, as mulheres têm suas várias (suadas) conquistas ao longo da trama e isso inspira. Mas também é mostrado que, muitas vezes, não basta querer para poder, tampouco lutar para vencer — a gigante Meryl Streep, coadjuvante que tem aparições pontuais, mas intensas, como a rica Tia March, responde ao idealismo de Jo: “ninguém faz seu próprio caminho na vida, muito menos mulheres”. 

O longa discute, de maneira sóbria, os sacrifícios da mulher para ter autonomia, valorizando essa liberdade intensamente, porém anistiando aquelas que não conseguiram conquistá-la ainda; ou mesmo as que escolhem se ofuscar para proteger suas famílias, ou gostam da vida tradicional que lhes foi designada. Meg, para Jo: “Eu quero me casar. Só porque meus sonhos são diferentes dos seus, não significa que eles são inferiores”.

[Imagem: Divulgação]

Jo March é uma menina brincalhona, “moleca”. Dança esquisito, não quer futilidade, romance, muito menos estar presa a uma gaiola. Ela passa a ajudar na renda da casa escrevendo histórias e vendendo-as a jornais. Persegue, mas reluta em assumir, o sonho de se tornar uma grande escritora: inicialmente não assina seus textos, permite grandes edições e diz para os quatro cantos da cidade que só se importa em levar dinheiro para a mãe e as irmãs (quando as histórias não renderam o suficiente, March vendeu os cabelos para ajudar a família). O querer, no entanto, vai crescendo dentro dela, e quando Jo percebe, já está dando tudo de si para ver seu nome destacado em alguma estante da maior livraria de Nova York. 

Incrivelmente, ou não, essa menina progressista e fora das caixinhas de sua época é capaz de, escondida, chorar copiosamente por não ver mais seus cachinhos dourados cortados. E de perseguir um amor aos 45 do segundo tempo. A lição é que nenhum desses desejos, hoje tão vistos como inferiores, invalida sua autonomia, sua intelectualidade e sua competência. 

Adoráveis Mulheres tem uma carnalidade, uma âncora ao mundo. Apesar de retratar o século XIX, a adaptação é consequente e muito adequada aos nossos tempos. O longa estreia 9 de janeiro nos cinemas brasileiros e você pode conferir o trailer neste link: 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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