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Ajustando os ponteiros: o que significa termos um “relógio biológico”?
Corpo e Mente
28 maio 2018 | Por Jornalismo Júnior
Por Bianca Muniz (biancamuniz@usp.br)

Imagem: Thaislane Xavier/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Nosso dia a dia é cheio de compromissos com hora marcada: escola, trabalho, consultas médicas, reuniões. Além dessas atividades, geralmente realizadas durante o dia, temos ainda um horário para o sono, que deveria acontecer durante a noite. Mas será que nossa agenda social condiz com os horários marcados com o nosso organismo?

Dia e noite, claro e escuro: o ritmo circadiano

Antes de entender como o corpo humano se organiza durante o dia e a noite, é preciso compreender o porquê de a matéria viva se estruturar dessa maneira em nosso planeta. A Terra apresenta um meio ambiente rítmico; isso significa que nada é mais certo que um dia seguir uma noite. Em meio a esta previsibilidade de alternância ambiental é que surgem as espécies, capazes de realizar mecanismos de adaptação ao ambiente para garantir a sua sobrevivência.

Um dos mecanismos adaptativos encontrados foi a incorporação de uma estrutura de tempo parecida com o dia e a noite, a qual é chamada de ritmo circadiano. O ritmo circadiano é um ritmo diário interno, como se fosse um “relógio biológico” que compreende o período de 24 horas, essencial para a sobrevivência por estar atrelado aos mecanismos de adaptação à fase clara e à fase escura do dia. É o que diz o professor José Cipolla Neto, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP): “durante o dia, além de preparar os mecanismos funcionais adaptativos ao dia, esse relógio sincronizado com claro-escuro ambiental prepara o organismo para enfrentar a noite que virá a seguir, porque é absolutamente certo que haverá uma noite. E a mesma coisa acontece durante a noite: enquanto ele está determinando os mecanismos fisiológicos para o organismo lidar com a noite, também prepara para o dia”.

Entretanto, atualmente vivemos um fenômeno que altera essa previsibilidade do ambiente e, consequentemente, modifica a forma que o nosso organismo se prepara para o dia e noite. Enquanto diminuímos a exposição à luz solar durante o dia, aumentamos a iluminação durante a noite, através da luz artificial proveniente das lâmpadas e das telas de aparelhos eletrônicos. Assim, comunicamos ao organismo que o dia está mais longo pois aumentamos a fase clara, e temos uma noite – uma fase escura – mais curta.

 

Melatonina e cortisol: os maestros

E o que esse desbalanço traz como consequência? Isso faz com que os dois hormônios principais para a regulação desses ritmos, a melatonina e o cortisol, sejam produzidos de maneira inadequada e, consequentemente, que os nossos ritmos circadianos se atrasem. Segundo a professora Regina Pekelmann Markus, do Instituto de Biociências (IB) da USP, esses dois hormônios são como maestros que regem a ritmicidade de uma orquestra de diferentes tipos de células, como as do pâncreas e as do sistema imunológico, por exemplo.

A melatonina é produzida à noite, comandada pelo claro-escuro ambiental. Além disso, a duração de sua síntese é maior ou menor se a noite for mais longa ou mais curta, algo que varia entre as estações do ano. Então esse hormônio sinaliza para o corpo se é primavera, verão, outono ou inverno. O cortisol, por sua vez, é considerado o hormônio do alerta e sua produção é regulada pela liberação de melatonina. O lançamento de cortisol na circulação sanguínea ocorre exatamente antes de acordar, preparando para as atividades do dia (trabalho, procura por alimento, entre outras ações).

Assim, quando temos uma fase escura mais curta, a duração da produção de melatonina é menor e a preparação para as atividades do dia fica prejudicada, pois altera a organização dos ritmos circadianos. “Se você atrapalha essa organização circadiana, você possibilita o aparecimento de doenças como hipertensão, diabetes e obesidade”, alerta José Cipolla.

 

Os diferentes padrões de relógios biológicos

Além disso, a regulação feita pela melatonina e cortisol também determina os cronotipos, que são os tipos de relógio biológico. Os seres humanos se dividem quanto à esse aspecto: existem os indivíduos mais matutinos, mais vespertinos e os indiferentes. “Há pessoas que vão liberar melatonina antes ou depois, com maior ou menor intensidade, e isso é importante para a definição dos cronotipos”, diz Regina.

O indivíduo matutino, por exemplo, só consegue expressar sua saúde corporal e sua ritmicidade se ele se relacionar com o meio ambiente matutinamente. Logo, se um trabalhador noturno apresenta um cronotipo matutino, isso afeta a sua saúde. Do mesmo modo, a saúde de um indivíduo de cronotipo vespertino que precisa estar às sete horas da manhã na escola também é prejudicada.

Cabe ressaltar que, na população, a maioria dos indivíduos se encontra na faixa intermediária entre os cronotipos matutino e vespertino, sendo mais flexíveis em seus horários, o que possibilita uma adaptação do seu ritmo biológico à sua rotina.

 

O “relógio social”

Apesar de teorias que explicam a existência de cronotipos e um sistema de relógios biológicos, essas ideias são passíveis de críticas. De acordo com o pesquisador Luiz Menna-Barreto do Laboratório de Cronobiologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, “existe uma tendência generalizada de entender o corpo como máquina, e nesse contexto, o relógio biológico funcionaria com absoluta regularidade. Só há um problema: o organismo não funciona dessa maneira”.

Para o professor, o valor do relógio é a sua precisão, algo que não ocorre com os humanos: nossa relação com o tempo e com o ambiente é constantemente influenciada por outros fatores, como a temperatura, o humor, os compromissos sociais. Nesse sentido, o professor salienta que, apesar do componente genético e evolutivo presentes, o cronotipo também é construído a partir de fatores culturais, como a rotina. “Um bebê não nasce com um cronotipo; ele, junto com seus pais, irmãos, seu entorno social constroem o seu tempo. E assim as pessoas se tornam mais matutinas, mais vespertinas ou ficam no meio”, explica Luiz.

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