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Aliança do Crime: a lealdade não compensa
CINÉFILOS
12 nov 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Diego Caldas Smirne

Pense num filme de máfia. Alguns nomes invariavelmente vêm à cabeça com a mera menção da palavra: Martin Scorsese, Robert De Niro, Al Pacino… Desde a clássica trilogia da família Corleone, ao menos um desses nomes é praticamente onipresente nas produções sobre o tema. Mas não é o caso em Aliança do Crime (Black Mass, 2015), dirigido por Scott Cooper e estrelado por Johnny Depp, Joel Edgerton e Benedict Cumberbatch.

Se o elenco e direção fogem ao tradicional, o enredo tem exatamente o que se espera: conflitos entre lealdade e traição, chantagens, brigas em subúrbios e bares esfumaçados e, lógico, muitos assassinatos, entre outros delitos mais corriqueiros. A história real se passa na zona sul da cidade de Boston, chamada de Southie, onde descendentes de italianos e irlandeses nutrem uma rivalidade muitas vezes sangrenta. E é ela que desencadeia toda a trama de Aliança do Crime.

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No ano de 1975, a família Angiulo estabelecia um perigoso domínio na região, e o novo agente do FBI John Connolly (Edgerton) é encarregado de conseguir provas de seus crimes para colocar os mafiosos atrás das grades. Para isso, Connolly  buscaria a ajuda de dois grandes amigos de infância, os irmãos Billy Bulger (Cumberbatch) e Jimmy “Whitey” Bulger (Depp), que tomaram rumos opostos na vida: o primeiro é o novo senador do estado de Massachusetts, e o outro um criminoso com passagem em Alcatraz. Enquanto o senador procura não se envolver no caso, mantendo assim distância de seu irmão e preservando sua imagem, Jimmy Bulger enxerga uma oportunidade para se livrar dos carcamanos de Angiulo e abrir caminho para que ele próprio pudesse controlar o crime na Southie. Assim, em troca de proteção do FBI, ele firma uma aliança com Connolly para lhe providenciar as informações de que precisaria para concluir sua missão. Mas a lealdade fraternal e confiança cega do agente em seu amigo gângster acabaria dando origem a um problema muito maior do que eram os próprios Angiulos.

 A aliança entre “Whitey” Bulger (à esquerda) e John Connolly (à direita)

O enredo se desenrola conforme os relatos dos comparsas de Bulger ao FBI, que vão mostrando um personagem cada vez mais cruel e inescrupuloso, com envolvimentos em tráfico de drogas, jogos de apostas, múltiplos assassinatos e até mesmo fornecimento de armas para os rebeldes do IRA, da Irlanda. Johnny Depp, notório por personagens bastante característicos e caricatos como o Capitão Jack Sparrow, Edward Mãos de Tesoura e Willy Wonka, foi transformado num monstro digno de um filme de terror (cabem os parabéns à equipe de maquiagem) para o papel do criminoso, com olhos gélidos e penetrantes, dentes com aspecto podre e feições envelhecidas, quase cadavéricas. Aliada à fisionomia macabra, a atuação de Depp, com uma voz rouca e profunda, cria mais um personagem marcante na carreira do ator e é o ponto de maior destaque do filme. Um bom exemplo é a cena do jantar na casa de Connolly, em que os roteiristas brincam com a importância que as tradições de família e a capacidade de guardar segredos têm para um mafioso (veja no trailer abaixo).

Depp já havia atuado muito bem como um gângster em Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009) e como um agente infiltrado – ao lado de Al Pacino – em Donnie Brasco (1997), ambas ótimas produções sobre o crime organizado nos Estados Unidos, e sua escolha para interpretar Bulger mostrou-se muito acertada – e talvez sirva para acalmar os que reclamam dos trabalhos mais recentes do ator, sendo mais uma prova de sua qualidade.

Infelizmente, outros grandes atores presentes no elenco como Cumberbatch e Kevin Bacon (este interpretando um superior do agente Connolly) têm papéis mais apagados, e por isso acabam não sendo muito aproveitados. Fora este aspecto negativo, outras características do filme como algumas músicas que compõem a trilha sonora, o fato de se passar em Boston e a posição do personagem de Edgerton – praticamente um infiltrado de Bulger para protegê-lo a todo custo do FBI – tornam invitável a  lembrança do premiado Os Infiltrados (The Departed, 2006), e não por acaso: Jimmy “Whitey” Bulger e seus crimes inspiraram Martin Scorsese na criação do chefão irlandês Frank Costello, interpretado por Jack Nicholson. Porém, a sombra de Os Infiltrados não diminui o longa de Scott Cooper, bem menos sangrento, mas que também aborda muito bem as questões cruciais à máfia: a família e a lealdade de um lado e, do outro, a violência e o preço da traição.

Aliança do Crime estreia nos cinemas nesta quinta feira, 12 de novembro.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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