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CINÉFILOS
11 fev 2014 | Por Jornalismo Júnior

por Mirella S. Kamimura e Victória Pimentel
mirellask317@gmail.com e vic.pimentel.oliveira@gmail.com

Seja na Europa, na Ásia ou na América: em todos os continentes, o amor está no ar. E é deste tema, sempre onipresente, que trata a série de filmes Cities Of Love, idealizada pelo produtor, roteirista e diretor francês, Emmanuel Benbihy. A franquia, composta pelos longas Paris, Eu Te Amo (Paris, Je T’aime, 2006) e Nova York, Eu Te Amo (New York, I Love You, 2008), segue sempre a mesma linha: reúne o trabalho de diferentes cineastas sob a forma de curta-metragens tratando sobre o amor, seja de modo mais convencional ou de modo mais abstrato. Ainda esse ano, a série lança mais um longa: Rio, Eu Te Amo, e existem projetos para  Xangai e Jerusalém.

Não é à toa que Paris foi escolhida para ambientar o primeiro longa da série, afinal, a cidade é também conhecida como “Cidade do Amor”. Cada um dos 18 curtas passa num quartier diferente – tipo um bairro – de Paris e o orçamento total do filme foi de U$ 16 milhões. 22 diretores diferentes foram convidados a participar do projeto, e muitos deles carregam nome de peso, como Joel e Ethan Coen (de “Inside Llewyn Davis”), Alfonso Cuarón (de “Gravidade”),  Alexander Payne (de “Nebraska”), os brasileiros Walter Salles (de “Central do Brasil”) e Daniela Thomas (de “Linha de Passe”), Gus van Sant (de “Elefante”e “Milk”), Wes Craven (de “Pânico”), Tom Tykwer (de “Corra, Lola, Corra”), a dupla Frédéric Auburtin e Gérard Depardieu, entre outros nomes.

Do outro lado das câmeras, o filme também não deixa nada a desejar. O elenco é formado por uma lista de celebridades, com nomes como Natalie Portman (que também participa do segundo filme da série), Steve Buscemi (que sempre faz parcerias com os irmãos Coen), Julliette Binoche, Bob Hoskins, Nick Nolte, Maggie Gyllenhaal, Fanny Ardant, William DaFoe, Elijah Wood, etc.

Pelos nomes do filme e da série, já era de se esperar que o filme tratasse do amor. Porém, o amor retratado nos curtas não limita-se ao amor entre homem e mulher. Em um dos melhores curtas, “Place des Victoires”, estrelado por Juliette Binoche e William DaFoe, fala-se do amor de uma mãe por seu falecido filho que amava cowboys e um encontro inusitado e importante para ela na Praça das Vitórias, que proporciona momentos de emoção ao espectador.

O amor entre mãe e filho no segmento Place des Victoires

Apesar dos grandes nomes associados à produção, apenas alguns dos segmentos despertam um algo a mais no espectador. Um desses é O Homem que Não Estava Lá, dirigido pelos brilhantes irmãos Coen e estrelado pelo seu parceiro Steve Buscemi. Esse curta, apesar de não falar propriamente de amor, dá o toque de humor necessário ao filme, apresentando uma estereotipada visão norte-americana sobre como se comportar em outros países, personificada por Buscemi num turista andando de metrô com um guia de comportamento em mãos.

Em sua participação, Natalie Portman interpreta uma jovem atriz que resolve terminar seu namoro com um rapaz cego através de uma ligação. A partir daí, o diretor Tom Tykwer nos transporta à mente do cego, que nos conta toda a trajetória do relacionamento dos dois e eleva o nível de qualidade do filme

Natalie Portman em sua participação no segmento “Faubourg Saint-Denis” do longa

O último curta, de Alexander Payne, fecha com chave de ouro uma sequência que tem seus altos e baixos. Seu segmento conta a história de uma turista americana que viaja sozinha à Paris e acaba se aventurando numa jornada de autoconhecimento, com uma pitada de comédia-dramática.

Fora esses e alguns outros bons destaques, o filme possui segmentos clichêzados ou “viajados” demais, indo desde o amor entre jovens de diferentes etnias, mimícos, galerias de arte a um suspense vampiresco. No geral, é difícil avaliar o filme como um todo, devido às grandes diferenças e variaçãoes entre temas, diretores e atores. Porém, quando Benbihy propôs esse projeto, a intenção era essa mesma: um mix de pontos de vista sobre o amor. Mais do que meras interpretações, algumas situações nos fazem refletir se aquilo é mesmo sobre amor, o que nos leva a um outro patamar: discutir sobre o que é, pra nós, o amor.

A turista americana do curta de Alexander Payne, interpretada por Margo Martindale.

 Nova York, Eu Te Amo, lançado em 2008, segue a mesma linha do filme antecessor. Benbihy reuniu por volta de 15 diretores, entre eles, poucos nova-iorquinos, alguns estreantes – como a atriz Natalie Portman – e apenas um ou outro cineasta de nome, como o turco Faith Akin. Natalie, que também atuou em Paris, Eu Te Amo, fez dobradinha no longa sobre Nova York, dirigindo e fazendo o papel da jovem judia Rifka que sofre com as incertezas às vésperas de seu casamento.

O longa, composto por dez curtas, contava inicialmente com outros dois, dirigidos por Andrei Zvyagintsev e pela atriz Scarlett Johansson. Apesar de terem sido cortados da edição final, foram exibidos na estréia do filme no Festival de Toronto e foram incluídos nos extras do DVD. Além disso, um dos curtas era para ter sido dirigido pelo cineasta Anthony Miguella. No entanto, o diretor faleceu antes das filmagens, de modo que Shekhar Kapur ficou responsável pela direção. Nos créditos finais, Shekar dedica o filme ao amigo. Além de tudo isso, Nova York, Eu Te Amo, possui com um elenco de peso. O filme conta com a atuação de Andy Garcia, Rachel Bilson, Orlando Bloom, Ethan Hawke, Chris Cooper, John Hurt, Julie Christie, Bradley Cooper, Shia LaBeouf, entre outros.

Julie Christie e Shia LaBeouf no curta dirigido por Shekhar Kapur.

Seguindo os mesmos princípios de Paris, Eu Te Amo, cada curta se passa em um bairro diferente de Nova York. No entanto, a abordagem é feita de modo diverso. Enquanto na trama parisiense, os bairros são nitidamente representados, na versão nova-iorquina, demonstrar a localização não é uma prioriodade. O amor, tema central dos filmes, acaba sendo retratado de formas diferentes também. Paris homenageia o sentimento de modo mais poético e amplo, enquanto Nova York – talvez como um reflexo da própria cidade – mostra o amor de um jeito mais comum e ao mesmo tempo mais misterioso.

 Além disso, também de modo contrário do filme Paris, Eu Te Amo, as personagens que figuram as histórias que se passam em Nova York, vivem se cruzando. Assim, cada curta acaba se ligando a outro, e o trabalho dos diretores se mostra um pouco menos autônomo e mais conectado com o de seus colegas.

Nova York, Eu Te Amo, pode tratar do amor com menos poesia, mas não deixa de ser real

 O terceiro filme da franquia Cities of Love ambienta-se num lugar amado por todos os brasileiros. Rio, Eu Te Amo, será lançado ainda esse ano e possui 10 curtas com histórias que se passam em diferentes regiões do Rio e juntam-se no 11° segmento do filme. Para dirigir as sequências, foram escalados 5 diretores estrangeiros: o australiano Stephen Elliot (de Priscilla, A Rainha do Deserto), o italiano Paolo Sorrentino (de A Grande Beleza), o coreano Im Sang-Soo (de A Empregada), a libanesa Nadine Labaki (de E Agora, Aonde Vamos?) e o mexicano Guillermo Arriaga (de Babel) e 5 brasileiros: Fernando Meirelles (de Cidade de Deus), Carlos Saldanha (de Rio), Andrucha Waddington (de Eu, Tu, Eles), José Padilha (de Tropa de Elite) e, Vicente Amorim (de Corações Sujos). A música-tema é de Gilberto Gil.

Seguindo a linha dos outros filmes, Rio, Eu Te Amo é uma declaração de amor desde sua pré-produção. Foi criado um movimento chamado #RioEuTeAmo, que consiste numa plataforma criada para desenvolver, realizar e incentivar gestos de amor pela cidade, que atingirá seu auge com o lançamento do longa nesse ano.

Os atores Ryan Kwanten e Marcelo Serrado com o diretor Stephen Elliot no Pão de Açúcar.

  A versão carioca é estrelada por diversos atores brasileiros, como Rodrigo Santoro, Bruna Linzmeyer, Tonico Pereira, Roberta Rodrigues, Débora Nacimento, Marcelo Serrado, Márcio Rosário, Regina Casé, Laura Neiva, etc. Mas também conta com a participação de atores estrangeiros, que após a produção, se sentem um pouco brasileiros também, como Vincent Cassel, Ryan Kwanten, Emily Mortimer, Basil Hoffmann, entre outros.

O curta autobiográfico “Eu Te Amo”, de Stephen Elliot, mostra a visita de um arrogante ator estrangeiro, interpretado por Ryan Kwanten, que se rende às belezas da cidade e decide escalar o Pão de Açúcar junto com seu taxista, vivido por Marcelo Serrado. No segmento “Grumari”, de Paolo Sorrentino, um casal, interpretado por Emily Mortimer e Basil Hoffman, passa por uma crise na praia de Grumari, dando um tom noir ao drama psicológico. Em “Copacabana”, Meirelles mostra a paixão de um escultor de areia, interpretado por Vincent Cassel, por sua musa, a belíssima Débora Nascimento.

O ator Vincent Cassel em cena do curta “Copacabana”.

 

O segmento de Guillermo Arriaga, Texas, se passa no bairro histórico de Santa Teresa e conta a trágica história de um boxeador, vivido por Márcio Rosário, que sofre um acidente grave e perde um braço, mas tem que voltar a lutar para pagar o tratamento de sua mulher, interpretada por Laura Neiva, que perdeu o movimento das pernas. Nadine Labaki dirige e interpreta sua protagonista em Milagre, que mostra uma atriz estrangeira que precisa usar um telefone público na região da Gamboa, porém o telefone está ocupado por um garoto que diz esperar uma ligação de Jesus.

Em sua primeira filmagem com atores, Carlos Saldanha escolher Rodrigo Santoro e Bruna Linzmeyer pra viver um casal de bailarinos do Theatro Municipal do Rio, que entram em crise no relacionamento momentos antes de uma importante apresentação, no curta Pas de Deux. Ambientado no morro do Vidigal, o segmento do coreano Im Sang-Soo homenageia a classe dos garçons, contando a história do amor entre um garçom (Tonico Pereira) por uma moradora da comunidade (Roberta Rodrigues).

Tonico Pereira e Roberta Rodrigues em Vidigal, de Im Sang-Soo.

Em Pedra Bonita, José Padilha conta a história de um casal em crise durante um vôo de asa delta. Já em Centro, Andrucha Waddington escolheu a brilhante Fernanda Montenegro para dar vida à uma moradora de rua que descobre o amor pelo neto nas ruas da cidade. O diretor Vicente Amorim é o responsável pelos momentos de transição, onde todas as histórias se interligam de alguma maneira.

Apesar de seguir a mesma receita dos filmes antecessores, falando de amor de diferentes maneiras, Rio, Eu Te Amo tem tudo para ser um sucesso. Além dos nomes de peso na direção e elenco, um tema que é unanimidade entre os espectadores – o amor – e uma produção muito aguardada, o grande destaque do longa não é ator, diretor ou produtor, é a cidade. Tem aposta mais certa do aque aliar o amor e a cidade maravilhosa?

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