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Anos 90 é um filme que mistura sensações e encanta através de detalhes
CINÉFILOS
31 maio 2019 | Por Luana Franzão (luanafranzao@usp.br)

Sentados, em silêncio, numa mesa de jantar de um restaurante que já viu dias melhores estão uma mãe e seus dois filhos, um jovem adulto e outro pré-adolescente. A família permanece nesse silêncio incômodo com raras interrupções da mãe, dizendo que seu próximo encontro romântico será diferente dos anteriores, pois o novo pretendente é mais interessante que os outros. Até que o menino mais novo diz que comprou um presente para seu irmão, e o entrega um CD que alega não estar ainda na vasta coleção que ele possui. O mais velho abre, analisa a capa, o lança sobre a mesa, e continua em silêncio.

Assim, logo nos primeiros minutos de Anos 90 (Mid90s, 2018), nos é mostrada a relação problemática entre Stevie (Sunny Suljic), menino de 13 anos que sonha em ser como seu irmão mais velho Ian (Lucas Hedges),  e Dabney (Katherine Waterson), mãe de ambos. É visível a admiração que o pequeno possui por seu irmão, pois até mesmo depois de ser agredido fisicamente por ele, o menino vai até seu quarto vestir as roupas do mesmo, observar sua coleção de CD’s e tentar ser tão forte quanto o considera. Entretanto, Ian é extremamente resistente em criar relações com Stevie, apenas se impõe sobre o mesmo e se torna cada vez mais inacessível.

Stevie e seu irmão Ian [Imagem: Tobin Yelland]

É devido a essa solidão e ao desejo de se tornar outra pessoa que Stevie acaba se envolvendo com o mundo do skate, das festas e da diversão. Sua jornada se inicia ao entrar na Motor Avenue, loja especializada em acessórios para skate, onde conhece 4 garotos que acabam substituindo seu irmão no papel de referência. O garoto passa a treinar skate, fumar cigarros, beber e frequentar diversas festas. O filme cumpre um papel excelente ao expor as razões de cada personagem em viver uma vida tão agitada, mostrando perfeitamente a diferença entre as personalidades fortes e os horizontes que os cercam.

Dentre os quatro amigos, dois se destacam na vida de Stevie. “Fuckshit” (Olan Prenatt) é um menino rico, com pais formados na Universidade de Harvard, que simplesmente não se vê tendo o mesmo destino que eles, apesar da insistência dos mesmos para tal. Em função disso, acaba se rendendo à diversão cotidiana com os amigos. No polo oposto do garoto mimado, está Ray (Na-kel Smith), aparentemente o mais centrado do grupo. Possui as melhores habilidades com o skate e deseja tornar-se profissional no esporte, para que a fama retire ele e sua família da periferia de Los Angeles. O filme brinca com certos estereótipos, pois mostra o menino mais privilegiado como quem leva o mais novo a deteriorar-se, enquanto aquele que é visto pela sociedade como a má influência é quem o traz constantemente para a realidade e cumpre a função da figura fraterna que Stevie não encontrou em seu irmão mais velho.

Ray aconselhando Stevie após um conflito [Imagem: Divulgação]

O longa é altamente expositivo, e o espectador se sente um observador do desenrolar dos acontecimentos, como se estivesse presente nos eventos da trama todo o tempo. Isso o dá a vantagem de observar as nuances do filme, sempre entendendo a narrativa por si próprio, a partir de conclusões tiradas através de observações de eventos cotidianos mostrados. Essa ferramenta cria um senso de intimidade com cada uma das personagens, principalmente com o pequeno garoto, e por esse motivo, assistir sua autodestruição causa enorme desconforto e preocupação.

Entretanto, é essa técnica que possibilita descobrir as surpresas mais agradáveis da história. É assim que o espectador testemunha Stevie atingindo o sentimento de poder sobre seu irmão, se impondo sobre a toda prepotência que conviveu durante sua vida, de forma tão violenta quanto as agressões que recebia de Ian. O maior espanto, no entanto, é perceber a preocupação de Ian com a mudança de personalidade do irmão caçula, que o faz cair em lágrimas depois do enfrentamento de ambos. Apesar da impressão de que o pequeno Stevie seria apenas uma diversão passageira para os garotos mais velhos, começa a surgir um afeto extraordinário entre os amigos da Motor Avenue, criando uma pequena família.

Os cinco garotos da Motor Avenue [Imagem: Tobin Yelland]

Outro enorme acerto do filme é sua ambientação. Aquele que assiste o longa não deixa de se sentir na Los Angeles dos anos 90 por nenhum minuto. As referências, a trilha sonora, as gírias, as roupas e até mesmo as garrafas das bebidas foram cautelosamente escolhida para que o espetador nunca saia da imersão criada pelo diretor. Diretor este que lança seu primeiro filme após dirigir dois curtas e atuar em diversos outros. Jonah Hill, conhecido por produções de sucesso como O Lobo de Wall Street (The Wolf Of Wall Street, 2013) e diversas comédias, surpreende pela sutileza que emprega em seu roteiro e em seus takes, mas nunca perde a irreverência que o levou aos holofotes.

Jonah Hill (à direita) dirigindo Sunny Sulic (ao centro) e Lucas Hedges (à esquerda) [Imagem: Tobin Yelland]

Anos 90 é uma narrativa ambígua, que provoca angústia e encantamento simultaneamente a quem a observa, e sua sinestesia é a maior riqueza que a compõe. Transportando perfeitamente o espectador para a década de 90, e principalmente à agitada vida de Stevie, o longa conquista pela nova perspectiva sobre assuntos antigos, o detalhismo intrínseco à direção, a preocupação do desenvolvimento das relações, e principalmente, pelo carisma do pequeno e corajoso protagonista.

O filme tem previsão de estreia no Brasil para o dia 30 de maio e você pode conferir o trailer aqui:

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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