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Antes que o amor vire abóbora
CINÉFILOS
11 jun 2013 | Por Jornalismo Júnior

Com estreia no Brasil prevista estrategicamente para o dia 14 de junho, a primeira sexta-feira após o Dia dos Namorados, Antes da Meia-Noite (Before Midnight, EUA, 2013) é a terceira e, novamente, brilhante narrativa da vida do casal Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy).

Já são quatro os filmes do diretor norte-americano Richard Linklater em que Jesse e Céline aparecem, remetendo à recorrência de Antoine Doinel na obra de François Truffaut. Da espontaneidade que os uniu em um trem a caminho de Viena em Antes do Amanhecer  (Before Sunrise, 1995) à postergada reunião em Paris em Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004), passando por uma breve figuração na pouco ortodoxa animação Waking Life (2001), as pinceladas da vida do casal dadas por Linklater sempre foram marcadas por longos diálogos de profundidade e jovialidade alternas, mas também pelo imediatismo de encontros breves e cronometrados e pela incerteza do futuro em meio a paixão e tensão sexual latentes.

Com o desenrolar de Antes da Meia-Noite, cada um desses elementos se faz presente, respondendo dúvidas deixadas em seus antecessores e trazendo à tona questionamentos e subjetividades ainda mais profundas. Pais de gêmeas vivendo em Paris e estabilizados em suas profissões, Céline e Jesse vão à Grécia para seis semanas de férias na casa de um amigo escritor, no Peloponeso. Ao fim da viagem, a dupla recebe como presente de um casal de amigos gregos passar a última pernoite em um hotel de luxo da região. Entretanto, nem os belos cenários helênicos e nem a privacidade hoteleira afastam as contínuas crises familiares e os questionamentos existenciais que ditam a narrativa até o fim.

O filme é constituído por vários planos sequência. No primeiro deles, um longo take que se passa no carro da família após Jesse deixar seu filho adolescente do primeiro casamento, Hank, no aeroporto, o casal tem um longo diálogo sobre assuntos triviais como família e trabalho que os situa contextualmente após a subjetividade do fim de Antes do Pôr-do-Sol. Linklater, mais uma vez, mostra ao espectador o universo, a personalidade e os atuais dramas de Jesse e Céline através de uma cena minimalista, na qual a comunicação é a personagem mais importante. Após esta introdução de pouco mais de 10 minutos, outras tramas vão sendo introduzidas. Durante um almoço na casa do anfitrião grego (interpretado por Walter Lassally, renomado diretor de fotografia que debuta como ator aos 85 anos), Jesse e Céline refletem com outros casais, de diferentes faixas etárias, sobre literatura, sexo e a finitude do amor. São diálogos cuidadosamente colocados no roteiro para não se tornarem exaustivos e, sim, serem a principal ferramenta do trio de roteiristas para desenhar os universos pessoais dos personagens.

Digo “trio de roteiristas” porque os atores protagonistas notavelmente trabalham com Linklater, desde o primeiro filme, na elaboração do roteiro. O processo é longo e meticuloso, como cada aspecto nos filmes do diretor. As atuações de Ethan Hawke e Julie Delpy são brilhantes, com ambos chegando a um nível de aparente espontaneidade capaz de deixar o espectador desacreditado de que haja, de fato, um script (inclusive, muito fora especulado sobre partes dos roteiros dos filmes anteriores serem improvisadas, mas os três escritores negaram). A técnica impecável da equipe de Linklater também é notável em todas as cenas. Grande parte das pessoas envolvidas no filme são gregas, como o diretor de fotografia Christos Voudouris, que faz um bom trabalho favorecido pela beleza natural do cenário grego. Exceções são feitas para dois profissionais presentes também nos filmes anteriores: o diretor de som Colin Nicolson (responsável pela ótima captação em cenas difíceis como o plano-sequência no carro e as longas caminhadas) e a editora Sandra Adair, cujos cortes na cena da discussão no hotel captam brilhantemente o conturbado interior dos protagonistas.

Mais erótico, auto-reflexivo e, talvez, universal que seus antecessores, Antes da Meia-Noite é um grande alívio para os amplamente envolvidos pelo universo de Jesse e Céline que temiam os descarrilamentos de uma segunda sequência. Muito bem situado não só ideológica mas temporalmente (a influência da tecnologia na vida de todos e a emersão de pautas contemporâneas nas conversas são perceptíveis), o filme não renega ou menospreza o caráter romântico de toda a trilogia, mas lida com a problemática do amor idealizado, desencontrado e, agora, consumado. Há quem veja o filme como superior aos anteriores, mas prefiro vê-lo como o terceiro capítulo de uma obra incrível, e que, ao (enigmático) final deste, é novamente suspensa. Até que trombemos novamente com Jesse e Céline em algum lugar da Europa.

Por Marcelo Grava
marcelo.grava@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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