Home Virou História As cores soberanas da Libertadores de 1992 – Parte 2
As cores soberanas da Libertadores de 1992 – Parte 2
ARQUIBANCADA
17 jun 2017 | Por Jornalismo Júnior

Por André Martins e Henrique Votto

A primeira parte dessa história, você lê aqui.

O primeiro jogo da finalíssima foi na Argentina, na cidade de Rosário. A torcida local fazia muito barulho, inflamando e empurrando a equipe da casa. Jogo duro e pegado, seguindo o conhecido enredo de jogos da competição. Pênalti para o Newell’s. Gol. Apito final: 1 a 0 contra o São Paulo.

O capitão Raí posando para a foto antes do começo do jogo na Argentina (Imagem: Facebook/Projeto Tóquio)

“A sorte estava lançada com fios de dramaticidade”, narra Antonio. O São Paulo precisava ganhar por pelo menos um gol para ir para a disputa de pênaltis, ou por dois ou mais para se consagrar campeão direto. Para o poderoso São Paulo de Telê, conseguir o resultado almejado era crível, mas não viria fácil. “Essa dramaticidade uniu os são-paulinos e demais brasileiros pela peculiaridade de ‘Clube da Fé’, das vitórias impossíveis, improváveis, dos feitos notáveis e inacreditáveis. Se chegamos até aqui, falta muito pouco para tão sonhada glória. Não podemos falhar. A fé do ‘Clube da Fé’ nos uniu. Saíam as excursões de ônibus, o Brasil inteiro parecia querer estar no Morumbi. Eu testemunhei, ao desembarcar em São Paulo, em frente ao estádio, um fanático corinthiano de minha cidade que gastou um bom dinheiro e disposição para estar lá. Seria para secar? Para testemunhar o inacreditável? Acho que, no fundo, as duas coisas”, relembra o aparecidense.

São Paulo parou no dia 17 de junho de 1992. Ou pelo menos no entorno do estádio, para assistir a grande decisão. ”Eu já era frequentador do Morumbi desde 87. Era apaixonado pela vibração, festa, cantos e bandeiras das torcidas organizadas, especificamente a Independente. Nunca vi tanta gente no Morumbi. Era época de super-lotações dos estádios. Não havia lugar marcado, nem cadeiras. O concreto era ocupado por quem chegasse antes”, conta Bibo.

O ingresso da decisão no Morumbi (Imagem: Facebook/Projeto Tóquio)

O clima era de intensa euforia e frenesi. O árbitro inicia a partida e a cada minuto que passa a ansiedade dos torcedores aumenta. O Newell’s mostrava a todo lance que viera para segurar o resultado, jogando duro e fazendo muitas faltas para ‘cozinhar’ o jogo. Junto à ansiedade, a esperança também aumentava. Fim de primeiro tempo. O medo se junta ao turbilhão de emoções que já habitam os corações dos são-paulinos. Seria possível o São Paulo perder a chance de ser campeão dentro de sua própria casa, depois de toda sua trajetória?

E é onde entra o famoso ‘dedo do técnico’. Telê coloca Macedo no lugar de Muller. Em seu primeiro lance, ele sofre pênalti. “Put* que pari*! Pênalti! Vai sair o gol!”. Raí é o encarregado de efetuar a cobrança. O camisa 10 e ídolo da torcida guarda a bola nas redes. 1 a 0 e jogo empatado no agregado. O estádio vai à loucura! Mas à medida que o tempo diminuía e o placar se mantinha, a apreensão aumentava.

“O sufoco foi até o fim. O São Paulo o tempo todo em cima, e nada! Havia o medo de levar um gol num contra-ataque e a frustração de perder um título que parecia garantido”, relembra o são-paulino César Franco. “Não faremos o segundo gol? Será possível que vamos para os pênaltis? É muita angústia. Nós tínhamos medo dos pênaltis, é claro. Tínhamos superioridade técnica e isso deveria ter sido demonstrado em campo”, acrescenta Bibo sobre o clima de tensão.

Os argentinos conseguiram manter o placar em 1 a 0. Não tinha mais escapatória. Os pênaltis iam decidir o campeão. “Estava com um amigo no último degrau da arquibancada, em cima da Torcida Independente que, na época, ocupava a parte central. Ficamos lá porque não havia mais lugar possível”, conta Antonio. “Estava nas arquibancadas, no gol contrário das cobranças de pênaltis. Carregava junto comigo a foto 3×4 da minha namorada, que veio a ser depois minha esposa, juntando 2 sentimentos de amor em uma só torcida”, revela Márcio de Oliveira, que na época tinha 21 anos. “No jogo do morumbi eu estava exatamente atrás do gol onde foi a disputa de pênaltis. Era uma apreensão terrível. Nós estávamos todos em pé, abraçados, eu estava abraçado com um cara do lado que eu não faço ideia de quem é”, comenta o torcedor e professor André Mascaro.

O apoio da torcida é essencial nessa hora, e o Morumbi explode num grito uníssono: “Zetti, Zetti, Zetti!!”. A confiança está depositada no goleiro tricolor. O Newell’s vai começar batendo os pênaltis. As cobranças são iniciadas. O primeiro argentino carimba a trave. Em seguida, o São Paulo acerta. Na sequência, as equipes convertem as cobranças, até que o zagueiro Ronaldão chuta no meio e o goleiro defende. O Tricolor não tinha mais vantagem. Mas, para o alívio dos são-paulinos, o argentino desperdiça também. Os torcedores vibram com os pênaltis convertidos e sofrem com os levados. Cafu faz o gol na penalidade e deposita toda a pressão nos adversários. É a vez dos argentinos. Está 3 a 2 nos pênaltis. Se eles errarem, o São Paulo é campeão. Quem vai bater é Gamboa, o zagueiro metido à estrela que já havia se demonstrado catimbeiro e desleal em campo.

“Vem o pênalti derradeiro. O último dos argentinos. Se eles errarem, somos campeões”, diz Antonio, na iminência da cobrança de Gamboa (Imagem: Arquivo pessoal)

O momento que sucedeu essa cobrança só pode ser entendido e sentido pelos amantes de futebol. Final de Libertadores. Placar agregado empatado. O São Paulo nunca havia sido campeão da competição. Cobrança de pênaltis. Último a ser batido pelo adversário. Se acertar, continua. Se perder, o Tricolor é campeão. Zetti defende. Uma defesa para o time. Uma defesa para a massa são-paulina. Uma defesa para todos os torcedores, presentes e não presentes no estádio. E, também, uma defesa para o filho do homem que carregava este nas costas. A América é Tricolor. O sentimento é inexplicável (compacto da TV Cultura abaixo).

“É nossa! Essa é nossa! Essa é nossa! É a única coisa que eu e meu amigo conseguimos dizer e entender numa explosão de euforia, loucura e abraços entre desconhecidos! O estádio, ou pelo menos, a torcida Independente estava inteira de mãos dadas, numa corrente de energias indescritível”, conta Bibo. “São lágrimas e abraços, e quando nem percebemos teve uma invasão espontânea e impressionante no gramado pela extasiada torcida são paulina. Uma explosão de gente correndo loucamente para dentro do campo, gritando e extravasando sem parar. É uma festa e uma alegria jamais vista pela torcida são-paulina. Não se enxerga mais grama, nem nada. Só gente. E no fim a taça é erguida. É fácil saber que o são-paulino passa de um patamar para outro a partir dali. Somos campeões da América! A Libertadores passa a ser transmitida ao vivo pela Globo no ano seguinte, coroando em rede nosso bicampeonato”, complementa.

O capitão Raí levantando a taça de campeão da Libertadores (Imagem: blogsoberanoarruda)

O São Paulo superava o revés de 1974, quando foi vice da competição para o clube argentino Independiente, e dava início às suas gloriosas façanhas. Foi campeão do Intercontinental (correspondente ao atual Mundial de Clubes) no mesmo ano e repetiu os dois títulos no ano seguinte. O Tricolor começava a se firmar como um verdadeiro Soberano.

A conquista teve significado especial para o técnico Telê Santana. Ele havia recebido a alcunha de pé-frio durante a década de 80, devido aos seus fracassos à frente da Seleção. Defensor ferrenho do jogo bonito e honesto, Telê “exorcizou os demônios” com o futebol vistoso e envolvente apresentado durante toda a competição. Por todas as conquistas no comando do São Paulo, é considerado um ícone pela torcida.

“Eu poderia traduzir o São Paulo de Telê Santana em uma só definição: Telê foi campeão da América e Mundial Interclubes com Ronaldão como titular. Fui privilegiado de ver o São Paulo de Telê”, diz Antonio Marcos de Menezes Reis; “Não sei se aparecerá outro Telê Santana”, comenta Márcio de Oliveira; “O melhor time do São Paulo pra mim é esse. O Telê Santana era genial”, afirma André Mascaro Peres; “Telê resgatou a ideia do futebol-arte. No São Paulo, parecia que qualquer que entrasse no time era um craque! Nessa época, fazíamos uma brincadeira dizendo que havia uma ‘crise no Morumbi’, pois já fazia uma quinzena que o São Paulo não ganhava um título. Outros tempos…”, relembra César Franco.

Telê Santana dando autógrafo para um fã-torcedor (Imagem: Facebook/Projeto Tóquio)

Uma das maiores marcas desse time vencedor era, com certeza, a união e a vontade. O time demonstrava muito empenho e garra nos gramados, lutando até o último minuto. Muito do que se via no time vitorioso do São Paulo não se reflete mais nos dias de hoje. A falta de compromisso e de determinação de alguns jogadores atuais é uma ofensa à grandeza e à história da equipe. O são-paulino quer, e merece, ver novamente o time do Tricolor à altura.

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