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As faces da depressão pós-parto: histórias que não cabem em diagnósticos

Os relatos de dez mães e como eles se relacionam com a experiência de ser mulher

JPRESS
17 dez 2019 | Por Luana Franzão (luanafranzao@usp.br)

A depressão pós parto, assim como toda depressão, parece um mistério para quem a observa de fora. Supostamente, a maternidade deveria ser a fase mais feliz da vida de uma mulher: a completude buscada por todos. Como poderia então desenvolver um transtorno emocional tão profundo, em um momento cheio de beleza? Ela é também, complexa de se entender. Para tentar explicar esse fenômeno, criam-se diversos estereótipos. A mãe é desequilibrada, lhe faltou cuidado, lhe falta amor ao filho. Todas falácias que servem para ferir mulheres em momentos frágeis, culpabilizando a mãe por adoecer.

Existe uma grande pressão social para que as mulheres sejam mães. Desde a infância, é incubado no imaginário das meninas que elas devem ter filhos algum dia. Logo após o casamento, a mesma pergunta se repete: “E os filhos, quando virão?”, e contam suas parábolas: uma mulher nunca será feliz sem filhos, a maternidade é mágica e todos as dificuldades em cuidar do bebê serão sanadas pelo amor infinito. Entretanto, a realidade não é assim. Depois de essas mulheres enfim se tornarem mães, todo esse estímulo vira pressão. Pressão para amamentar sempre, mesmo que às vezes seja impossível, estar presente em todos os momentos, mas mesmo assim ter renda o suficiente para dar tudo do melhor para a criança. E então tudo se torna uma culpa: não poder amamentar, ter de sair de casa para trabalhar, se estressar com as noites mal dormidas e a vontade de sair de casa sem ninguém, mesmo que por pouco tempo.

Dez mulheres contaram suas histórias. Nem apenas uma era igual a outra. Todas completamente diferentes, completamente únicas. A depressão pós parto surge em diferentes contextos e razões. Cada uma dessas mães sabe exatamente o que viveu, e suas vivências não cabem em estereótipos rasos. 

Para começar a sondar esse transtorno, é preciso buscar suas origens. Apesar de se manifestar de diferentes maneiras para cada mãe, a raíz dele é precisamente a mesma, segundo a psicóloga Lílian Bonilha: “A origem da depressão pós-parto é o medo. É o de toda depressão. A culpa, o medo, não há uma coisa específica: o medo de não poder criar o filho, uma sensação de ser incapaz de cuidar do bebê”. Nos depoimentos das mães, esse aparecia como um fator comum. A idade, a família, o mercado de trabalho, a sociedade, muitas vezes criam uma atmosfera de pressão sobre a mãe, gerando pavor de não atender às necessidades de seus filhos. De serem péssimas mães aos olhos dos outros, e principalmente a seus próprios olhos.

[Luana Franzão/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior]

Para tentar desmistificar a depressão pós-parto, serão agregadas as vozes das mães que passaram pelo transtorno. Um conto muito difundido sobre a doença é de que a mãe que passa por ela está infeliz com a chegada de um filho. É claro que uma gravidez não planejada pode trazer conflitos interiores à mãe, porém nenhuma das personagens dessa história deixou de declarar seu amor pela família.

Uma das mães que compartilhou suas vivências e preferiu não ser identificada, possui 24 anos de idade. Ser mãe era um sonho antigo, de infância, mas não tão jovem. Ela contou que abriu mão de tudo o que havia planejado para sua carreira: estágio, intercâmbio, faculdade. Ela teve apoio de seu namorado, o qual ela mesma declarou ser um excelente pai, e de sua família, que apesar de surpresa, a ajudou na gravidez e no puerpério, período que segue o nascimento do bebê. No entanto, a perspectiva de perder sua carreira devido à chegada do filho, a entristeceu. “Perder a carreira é triste, perder a vida social é triste, perder a individualidade é deprimente. Existem estudos que comprovam que uma mulher depois de ser mãe, por mais que ela lute, por mais que ‘deixe os filhos de lado’, jamais alcançará um lugar que ela alcançaria caso não fosse”, disse ela.

Se o mercado de trabalho já é hostil para mulheres, é ainda mais para as que são mães. Apesar de algumas empresas possuírem uma aparência mais amistosa frente à questão, com espaços para amamentação, trocadores e creches internas, nem sempre é assim que ocorre. Ela também comentou que quando uma mulher se afasta do mercado durante os meses em que o bebê mais precisa dela, depois, ao tentar voltar, raramente a empresa contrata mães de filhos menores de seis anos. Esses medos se tornam constantes na mente da mulher que, de repente, se vê impedida de seguir o caminho que havia planejado para si.

Outra mãe, que também preferiu não se identificar, possui 29 anos. Ela casou-se com seu namorado de infância, o qual se alegrou junto com ela ao receber a notícia da gravidez. Apesar da perspectiva inicial ser animadora, as coisas começaram a desandar em dado momento. Ambos trabalham na área da saúde: ela, enfermeira; ele, médico. E esse foi um fator decisivo em seu entorno. A pressão exercida pelos colegas de trabalho para que tudo fosse feito exatamente como ditam as regras foram gerando uma insegurança e uma sensação profunda de incapacidade dentro dela, que passou a viver pensando no que achavam que deveria ser feito, em detrimento de seus próprios sentimentos.

Isso se intensificou após o nascimento da filha. Devido a diversos fatores, ela não pôde amamentá-la, e a intimidação por parte dos colegas e da família apenas piorou: “Eu simplesmente cheguei num momento de esgotamento tão grande, os seios estavam feridos, minha cabeça estava tão sobrecarregada, as crises de choro eram tão fortes, eu estava vendo ela [a filha] perder peso. Chegou um dia que eu simplesmente falei ‘não dá mais, eu vou parar de tentar’”. Essa decisão não foi fácil, ela conta que a culpa a invadiu completamente nesse momento, dando lugar a ataques de pânico e à depressão.

É muito difundida a ideia de que a mãe depressiva se afasta de seu filho, e até mesmo tem repulsa por ele. Isto é um mito, visto que a depressão se manifesta de diferentes formas para cada mulher. Um exemplo disso é Sijilane Batista, de 30 anos, que teve como sintoma da depressão a superproteção de seu filho Nicolas. A gravidez foi planejada e esperada por toda a família, e transcorreu de forma saudável durante todos os nove meses. Os problemas começaram no hospital: ela havia optado pelo parto normal, mas na maternidade, ela foi avisada de que não seria possível e que o médico havia ordenado uma cesária. Sijilane tem medo de cirurgias e ainda sem entender bem o que estava acontecendo, ela foi anestesiada, e diz lembrar-se pouco do momento do nascimento. Devido a seu nervosismo com o procedimento, ela passou as 3 horas após o parto desacordada.

Assim que acordou, as enfermeiras começaram a pressioná-la para amamentar, porém ainda estava desorientada após o caos do parto. Então, sua pressão caiu, ela passou mal e Nicolas acabou caindo de seu colo. Ele foi encaminhado para UTI neonatal, deixando-a em desespero: “Minha cabeça rodava, não conseguia ter consciência, mas quando voltei, eu gritava para Deus salvar o Nicolas (…), ao vê-lo eu só chorava na beira da incubadora de tanto remorso”. Felizmente, nada grave aconteceu, e hoje o menino não possui nenhuma sequela. Mas esse momento nunca abandonou a memória da mãe. “O choro se tornou constante, até agora tenho cuidados em excesso com o Nicolas. Não consigo ficar longe dele nem quando ele dorme, tudo isso é resultado do trauma que passei com ele”, disse ela. Além de tudo isso, Sijilane teve uma cicatrização complicada do parto, e sofreu durante muito tempo com o desrespeito de suas vontades, incluindo uma segunda internação por complicações no corte.

Segundo a psicóloga Lílian Bonilha, poucas equipes médicas no país possuem preparo para lidar com o momento emocionalmente frágil que é a gestação e o nascimento de um bebê. A maioria possui um pensamento objetivo, enxergando o parto apenas como um procedimento cirúrgico, e pouco ouvindo e respeitando as vontades da família, e acima de todos, da mãe. Durante o pré-natal, o acompanhamento psicológico também é quase nulo: “Nós não temos isso aqui, nós não temos. Eles tratam a criança, vêm se está com saúde e mandam a mãe para casa. Deve haver um trabalho de equipe de profissionais com a família. A base do tratamento é retirar essa culpa da mãe, porque enquanto a criança estava dentro do seu ventre, ela estava protegendo. Agora, ela não consegue mais proteger, então ela é culpada”, afirma sobre o tema. Lilian acredita que se houver um acompanhamento com psicólogos e profissionais da área durante o pré-natal, existe grande possibilidade de prevenir a depressão pós-parto.

[Luana Franzão/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior]

O puerpério é um momento extremamente delicado na vida de qualquer mãe, principalmente as de primeira viagem. Ter apoio de um companheiro ou companheira, e da família pode ser decisivo na saúde emocional das mulheres. O cuidado e a parceria podem ser facilitadores da adaptação da nova fase, tanto em questões práticas do bebê, quanto em questões sentimentais. A falta dessa rede de apoio também dificulta o processo. A solidão durante a gestação e os primeiros meses da maternidade é cruel e a presença de família e amigos é essencial.

A depressão pós-parto, assim como todo tipo de depressão, possui gatilhos emocionais, mas também hormonais. Durante toda a gestação, os níveis de hormônios produzidos pelo corpo feminino são altíssimos. E de repente, após o nascimento do bebê, essa produção cai bruscamente, afetando os neurotransmissores, dizem estudos do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Os sintomas podem começar a surgir desde poucos dias após o parto, até um ano depois dele. Sentimentos de angústia, isolamento, tristeza, ansiedade, problemas para dormir, desânimo e irritabilidade podem ser sintomas do transtorno. “É uma sensação de desespero, a ponto de que você passa a acreditar que os sintomas não vão passar nunca, que jamais a vida vai ser como antes, que a alegria de viver acabou”, relatou uma das mães entrevistadas. 

É importante ressaltar o valor do tratamento nesses casos. Os acompanhamentos psicológico e psiquiátrico são essenciais para mães depressivas, e apresentam uma saída para a dificuldade. Atualmente, existem antidepressivos que podem ser ministrados durante a amamentação sem nenhum prejuízo ao bebê, embora o estigma sobre esse assunto diga o contrário. A família também pode servir como estímulo nesse momento, reconhecendo os sintomas e incentivando a mãe a buscar tratamento: “Ela muitas vezes não percebe, não sabe que está em depressão. São as pessoas e os profissionais que devem perceber e cuidar. A mãe não irá procurar ajuda e dizer ’estou em depressão’, isso não acontece”, comentou a psicóloga Lilian Bonilha.

Em todos os depoimentos, as mães citaram um mesmo fator de dificuldade: a idealização da maternidade. Durante toda a vida, mulheres ouvem fábulas belíssimas sobre serem mães. Que apenas um filho poderá lhe trazer alegria e a vida nunca terá sentido sem um. Porém, esquecem-se de contar as dificuldades que acompanham os prazeres. Apesar do amor infinito, o estresse, o cansaço, a sensação de incapacidade se fazem presentes nesse momento, e pouquíssimas pessoas estão dispostas a dialogar sobre o tema. “Nunca imaginei que ser mãe seria tão difícil, e nunca imaginei que teria depressão”, declarou uma delas.

Percebi durante os depoimentos que a figura da mãe leoa, que aguenta absolutamente tudo sozinha, é uma imagem enganosa. Mães precisam de ajuda. Mães não sabem de tudo. Não é parte da obrigação de uma mãe esconder suas emoções e perpetuar o conto da maternidade impecável. Elas não precisam aceitar sugestões de todos e ceder às críticas alheias sobre a criação de seus filhos. Ninguém sabe o que ocorre entre uma mãe e seu filho, e cabe apenas a ela decidir como viverão juntos a partir de então.

A imagem da mãe que desenvolve depressão pós-parto é negativa perante à sociedade. Existe um estigma de que a mãe que sucumbe ao transtorno é fraca, frágil, incapaz de cuidar de um filho como deve ser. É difundido também que, na verdade, a tal depressão é apenas uma desculpa, uma falta de vontade de cuidar do bebê e carência. Após tantos relatos e contextos diferentes, foi impossível manter essas visões sobre o assunto. “Eu gostaria que soubessem que a depressão é patológica, que não é frescura, que não é  fraqueza. Cada mãe e seu bebê são únicos. Diante dessa situação é fundamental ter alguém que esteja ali, pronto para dizer: ‘Do que você precisa agora? Vai ficar tudo bem, vamos sair dessa, você não está sozinha, sua vida é importante”, declarou uma das mães, e prosseguiu comentando a situação estranha de ter uma criança indefesa sob seus cuidados, e simultaneamente se sentir tão frágil.

A depressão pós-parto é complexa e muito difícil de padronizar. É impossível detectar todas as razões que levam uma mãe a desenvolvê-la. O mais importante não é tentar entender o que ocorreu para que isso acontecesse com aquela mulher, mas sim estender as mãos de forma possível. Seja ouvindo um desabafo, se oferecendo para ajudar com as tarefas cotidianas, ou simplesmente respeitando a luta individual de cada uma ao se livrar dos estereótipos que cercam a depressão. A empatia é a forma mais bela de contribuir com a vida das mulheres que já são mães, e daquelas que ainda serão.

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