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As mulheres de Almodóvar
CINÉFILOS
24 jun 2013 | Por Jornalismo Júnior

Siempre he confiado en la bondad de los desconocidos. Ao dizer isso, Blanche se joga nos braços do charmoso estranho que a envolve, toda desolação, drama e um desespero cômico. Suas roupas esvoaçantes, sua postura de diva em decadência, tudo aspira a exagero – mas também a uma beleza desconcertante. Esta cena, apesar de fazer parte da peça Um bonde chamado desejo (no original, A streetcar named desire), dá a pitada de perfeição ao filme Tudo sobre minha mãe, que a empresta para si no toque de mestre de seu roteiro.

O filme é um dos muitos marcos da obra do espanhol Pedro Almodóvar. Nascido em 1949, o cineasta, homossexual assumido, não esconde sua predileção pelo feminino, pela força, pela família e pela sexualidade (tão livre quanto for possível). Em Tudo sobre minha mãe, todos esses aspectos são contemplados, capaz de mesclar as histórias de um travesti, uma freira grávida e uma atriz lésbica. A união feminina, que vem da força interior e do instinto materno, se dá na base da confiança na bondade alheia, já prenunciada por Blanche. A sexualidade livre é bem representada em um filme onde não há distinção entre a mulher definida por natureza ou a mulher que o é por ter escolhido.

Com uma produção que sempre é simples, Almodóvar é um artista, tão amplamente quanto a palavra pode definir. A beleza de suas cores, sempre vibrantes, combinadas ao delicioso espanhol que suas mulheres pronunciam, são elementos que fazem das suas obras absolutamente impossíveis de transformar em um livro. Muitos críticos o consideram excessivo – muita cor, muitos sons, muitas mulheres, ou até mesmo muito drama. Porém, são poucos os que conseguem captar que o cineasta é um crônico da vida, mas aquela que faz estardalhaço, aquela que encanta e vibra. Talvez por isso seja o artista mais famoso e representativo do cinema espanhol.

Almodóvar começou sua carreira como autor de diversos curta-metragens, a partir de 1974. A consagração internacional vem com Mulheres à beira de um ataque de nervos, em 1988, iniciando também a longa bateria de indicações a prêmios nacionais e estrangeiros que o cineasta teria ao longo dos próximos anos. Entre suas indicações, duas deram frutos no Oscar: melhor filme estrangeiro, em 2000, com Tudo sobre minha mãe, e melhor roteiro original, em 2002, por Fale com ela. A fase de maturação artística, que o colocou no hall dos grandes cineastas contemporâneos, vem a partir de Carne trêmula, em 1997, em que também estreou a atriz que é considerada a grande musa do cineasta: Penélope Cruz, que já figurou em quatro de seus filmes.

Os filmes de Almodóvar, especialmente a partir de suas grandes obras, possuem um teor incomum que os torna inconfundíveis para quem assiste. Trata-se do inusitado, da história mirabolante que, por mais improvável que pareça, encaixa-se perfeitamente na mente de quem assiste. O absurdo vai desde um médico que, em A pele que habito, sequestra o homem que acredita ser o responsável pela morte de sua filha e o transforma em alvo de experiências ginecológicas, até o enfermeiro de Fale com ela que, apaixonado, estupra uma de suas pacientes em coma e se suicida pouco depois.

No entanto, são histórias humanas, que mexem profundamente com quem assiste – especialmente as mulheres. O aspecto feminino é muito nítido em Volver, considerada uma de suas obras primas, juntamente com Fale com ela e Tudo sobre minha mãe. No filme, em que a união familiar entre cinco mulheres é o que as faz superar tudo – morte, dor, perda, machismo e violência sexual -, Almodóvar vive seu momento de maior apologia ao sexo feminino. Todas as mulheres são vítimas de suas próprias vidas, de seus erros, da opressão do mundo masculino em que vivem, mas ainda assim, unidas e resistentes.

Almodóvar é, antes de tudo, um artista das mulheres. Belas, feias, errantes, à beira de um ataque de nervos, suicidas, violentadas, amigas. Todas encontram sua semelhança nas personagens desajustadas e profundamente humanas do cineasta. As cores vivas, o tango, o teatro, a pintura, tudo em Almodóvar é representativo desta vida pulsante que vaza das veias de seus personagens – e que leva sua plateia ao delírio.

Por Ana Paula Lourenço
carvalho.ana37@gmail.com

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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