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As relações entre comunicação e desenvolvimento na infância
Corpo e Mente
20 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior
Por Carolina Fioratti (carolinafioratti@usp.br)

Imagem: Maria Eduarda Nogueira/Comunicação Visual – Jornalismo Júnior

Alguma vez você já se questionou sobre o que passa na cabeça das crianças quando falamos com elas? Será que elas compreendem as palavras? O diálogo pode influenciar diretamente no desenvolvimento dos pequenos? — Essas são dúvidas comuns tanto para os pais quanto para curiosos que procuram saber mais sobre a comunicação e o funcionamento do cérebro. Para esclarecê-las, o Laboratório resolveu investigar.

Ao conversar com especialistas da área, é notável que as palavras em si não possuem uma influência direta nas primeiras fases da vida, mas sim os gestos que as acompanham e também as diferentes entonações de voz utilizadas. De acordo com a psicóloga Monica Carolina Miranda, autora do livro “Neuropsicologia do desenvolvimento”, um bebê de três  meses não assimila o significado da palavra “não”, mas entende o que é passado devido a expressão da mãe e reage, por exemplo, com o choro. Quando completar seis meses, no entanto, as palavras simples como “não”, “sim”, “pode”, “tchau”, entre outras, ganharão um sentido literal para o indivíduo.

Esse fato é explicado por Rubens Wajnsztejn, professor da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC) e neurologista da infância e adolescência. Ele diz que o sistema nervoso tem um processo de amadurecimento, e com ele, a criança vai acrescentando significados às palavras. Logo, o entendimento de palavras de duplo sentido ou maior complexidade, como por exemplo “democracia”, depende desse amadurecimento em conjunto com uma questão cultural. Se pedir para um estudante do ensino fundamental II defini-la, com certeza sua resposta terá um contexto muito diferente quando comparada à de um aluno do ensino médio.

Além disso, para explicar mais sobre o assunto, Rubens afirma que quando a pessoa tem menos idade, a palavra é fundamentalmente um mecanismo de comunicação. O que é chamado de “linguagem falada das palavras” deve ser estruturado e montado no sentido de possibilitar a comunicação de forma facilitada. Nos casos em que a criança demora para desenvolver a fala, ela provavelmente utiliza apenas gestos e consegue transmitir a mensagem. Como ela obtém respostas, acomoda-se a isso. Os pequenos começam a construir vocabulário quando percebem que a gesticulação deixou de funcionar e precisam se comunicar.

A palavra, todavia, começa a ganhar importância quando passa a ser um instrumento para estabelecer relações interpessoais. É nesse momento que o sentido se torna algo pessoal e diferente para cada idade, ou seja, as frases têm diferentes interpretações para alguém de 12 anos e alguém de 22. Nesse caso, há contextos diferentes ligados ao processo comunicação e deixa de ser apenas linguagem.

Considerando agora a entonação, Monica afirma que não deve haver gritos ao conversar com crianças, pois isso assusta e pode ser intimidador. Além disso, o ideal é estar na altura delas e falar de forma firme e clara. Os bebês, principalmente, têm um grande sentido de sensibilidade e percebem todas as reações corporais. Por esse motivo, eles reagem sorrindo, chorando ou com neutralidade. A pronúncia modifica o significado e o cérebro interpreta de diferentes maneiras quando algo é dito de forma relaxada ou mais enérgica.

Rubens ainda enfatiza a chamada linguagem pragmática. Ela não é algo necessariamente proferido, mas sim relacionado à percepção. Para exemplificar, utiliza um caso que ocorreu em seu próprio consultório. Uma mãe se emocionou durante a conversa com o doutor e começou a chorar. Com isso, seu filho portador de uma síndrome genética que causa um atraso em seu desenvolvimento, o qual aparentemente não compreende o que é falado, começou também a chorar. “O pragmatismo da linguagem é a percepção da criança, do adolescente ou do adulto frente ao sentimento do outro”, completa ele. O cérebro tem áreas específicas que captam a percepção, logo consegue processar informações que seriam muito mais emocionais. Em termos de linguagem, há a região temporal; a região de resposta é a frontal; para receber as informações, utiliza-se o parietal, relacionado à sensibilidade e por fim, o occipital, que é a área visual. A maior parte das emoções são processadas na região temporal, a qual está na lateral da cabeça.

É importante ressaltar que todas as informações positivas que possam ser passadas para uma pessoa devem ser ditas. As palavras que trazem autoconfiança são importantes para a autoestima e podem ajudar, por exemplo, a empoderar uma menina. Se trabalhar com ela coisas boas e positivas, haverá um resultado ideal. Rubens comenta também sobre um vídeo que está rodando na internet em que meninos são entrevistados e depois são incentivados a bater em uma garota. A reação deles, para ele, é muito interessante e mostra as questões culturais que são colocadas durante o processo de desenvolvimento. Tudo que é passado tem influência no desenvolvimento, por isso é importante sempre observar o que e como será dito.

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