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Romênia e Bulgária: quando o Leste europeu chocou o mundo em uma Copa
ARQUIBANCADA
27 jul 2020 | Por Vinicius Machuca (viniciusmachuca@usp.br)

No ano de 1994, duas seleções do Leste Europeu chocaram o mundo com um futebol envolvente que as levou para suas melhores campanhas na história das Copas do Mundo. A Romênia, de Hagi, e a Bulgária, de Stoichkov, deixaram um legado e uma grande lembrança na cabeça dos amantes do futebol, que lembram daquelas equipes com muito carinho.

Campanhas de destaque antes de 1994

A Romênia foi umas das únicas seleções que disputou as três primeiras Copas do Mundo. Em 1930, participou como seleção convidada e nas duas seguintes, em 1934 e 1938, conquistou a vaga depois de uma eliminatória. Porém, não teve campanhas de destaque, sendo eliminada na primeira fase em todas as ocasiões e conseguindo apenas uma vitória, ganhando de 3 a 1 da seleção do Peru.

Após um hiato de 32 anos sem se classificar para o mundial, a Romênia voltou a participar na Copa do México, em 1970, sendo mais uma vez eliminada na primeira fase. Desta vez, conseguiu uma vitória sobre a seleção da Tchecoslováquia, por 2 a 1, e fez um grande jogo contra a seleção brasileira, um dos melhores times da história, perdendo por 3 a 2 com dois gols do rei Pelé. 

Os romenos voltaram ao mundial em 1990, com um time composto por jogadores que atuavam no futebol local. A base era formada por atletas do Steaua Bucareste, que haviam conquistado a Champions League de 1986, e que estariam no elenco histórico de 1994. Na Copa a seleção conseguiu se classificar pela primeira vez para a segunda fase, batendo a União Soviética e empatando com a Argentina na fase de grupos. Nas oitavas de final acabou sendo eliminada pela Irlanda na disputa de pênaltis.

Jogo entre Brasil e Romênia em 1970 [Imagem: Acervo CBF]

A Bulgária, por sua vez, alcançou grandes feitos para seu futebol nas décadas de 50 e 60 – especialmente em 1956 e 1958, quando conseguiu uma medalha de bronze nas Olimpíadas de Melbourne, ganhando da Índia por 3 a 0 na disputa pelo terceiro lugar. Nos Jogos Olímpicos de 1968, na Cidade do México, foi ainda mais longe ficando com a medalha de prata, perdendo para a Hungria na final.

A estreia da Bulgária em Copas do Mundo aconteceu em 1962, porém o time somou apenas um ponto, em um empate sem gols com a Inglaterra. Depois da primeira participação, os búlgaros conseguiram emplacar três edições seguidas de Copa do Mundo. Entretanto, assim como os romenos, a equipe não teve muito sucesso:  em todas as oportunidades foi eliminada na primeira fase sem conseguir ganhar uma partida sequer. 

Na Copa de 1966, enfrentou a seleção brasileira, perdendo de 2 a 0 com gols de Pelé e Garrincha, o jogo ficou marcado como a última disputa dos dois com a amarelinha. Em 1986, após duas edições sem participar, a Bulgária voltou para a competição. Com dois empates na primeira, fase conseguiu se classificar para as oitavas de final, perdendo por 2 a 0 do México e completando mais uma edição sem conquistar  uma vitória.

Jogo entre Brasil e Bulgária na Copa do Mundo de 1966 [Imagem: Acervo CBF]

A geração de ouro 

Nos anos 70 e 80, a Romênia passava por um regime comunista. Nesse cenário foi criado o Projeto Luceafarul, centros de treinamento que tinham como foco a formação de jovens talentos no futebol. Segundo João Victor Roberge, dono do site O Craiovano, especializado em futebol romeno, no projeto “os jogadores iam ao Luceafarul e tinham de tudo. Eles davam moradia, comida e condições para fazer um bom trabalho e desenvolver atletas”.

O grande nome daquela geração e de toda a história do futebol romeno é Gheorghe Hagi. O meia era conhecido como “Maradona dos Cárpatos” devido ao seu estilo de jogo semelhante ao do craque argentino. Hagi possuía um grande talento armando os times em que jogou, com uma grande capacidade de enxergar o jogo, além de fazer muitos gols com seu espetacular chute de esquerda. Foi um dos únicos jogadores a defender Real Madrid e Barcelona e fez história com a camisa do Galatasaray, conquistando o título da Copa e da Supercopa da Uefa. Além disso, ganhou vários títulos com o Steaua Bucareste.

Gheorghe Hagi [Imagem: AFP – GETTY]

Mas não era apenas de Hagi vivia a seleção da Romênia. O ataque era formado por uma dupla espetacular. O camisa nove da equipe era Florin Raducioiu, que fez história vestindo a camisa do Dínamo Bucareste e acumulou passagens por times italianos, sendo o maior deles o Milan. O outro atacante que completava o tridente ofensivo era Dumitrescu  que foi essencial na campanha de 94. O pilar defensivo da equipe era o versátil Gheorghe Popescu, que podia jogar de zagueiro ou volante. Ele foi capitão do Barcelona e fez dupla com Hagi nas conquistas europeias do Galatasaray. 

Apesar dos grandes serviços prestados para a seleção, João Victor diz que o povo romeno demorou para reconhecer os atletas da seleção. Segundo ele, “os romenos achavam que era algo que duraria para sempre”, se referindo ao sucesso no futebol. João crescente que eles “acreditavam que a Rom^nia tinha alcançado um patamar novo e era questão apenas de dar sequência, que teriam outros times parecidos’’. Porém, atualmente o povo romeno valoriza os feitos conquistados, lembrando deles com saudosismo.

O ícone da geração de ouro da Bulgária, sem dúvidas, é Hristo Stoichkov. O atacante vestia a camisa oito e a imortalizou na seleção búlgara e no todo poderoso Barcelona. Stoichkov possuía um grande poder em sua perna esquerda, sendo artilheiro por onde passou. Chegou ao Barcelona, em 1990, onde se tornou campeão da Champions League e formou uma dupla memorável com Romário. Ele ganhando o prêmio Bola de Ouro de 1994, coroando o ano espetacular com direito a artilharia da Copa do Mundo.

Stoichkov com o prêmio Bola de Ouro [Imagem: Sportal.bg]

Outro grande destaque daquela seleção era o zagueiro Trifon Ivanov, muito lembrado por sua aparência e raça que impunham respeito aos adversários – era um jogador que entrava com dureza nas jogadas, mas com bastante lealdade. Comandando o meio campo e conhecido como “o mágico”, Yordan Letchkov jogou muito bem no Hamburgo, da Alemanha, e justamente contra os alemães fez o gol mais importante da sua carreira no mundial. Quem fazia o papel do camisa dez daquela equipe era Krasimir Balakov. Goleador com uma visão de jogo ímpar, Balakov é ídolo do Sporting de Portugal, tendo marcado 60 gols em sua passagem – números impressionantes para um meia.

Em entrevista ao Arquibancada, Wanderson, atacante brasileiro e jogador da seleção da Bulgária naturalizado, disse que os jogadores daquela geração são ídolos: “Eles são idolatrados por tudo que fizeram e nunca mais foi visto nada igual”. Ele comenta que “o Stoichkov e o Balakov vivem sendo homenageados, recebendo um carinho e respeito enorme dos torcedores”, mostrando que o povo búlgaro valoriza e reconhece as conquistas dos jogadores.

O ano em que o futebol do Leste Europeu encantou o mundo

A Copa do Mundo de 1994, realizada nos Estados Unidos, ficou marcada na memória dos brasileiros pelo tetracampeonato da seleção. Mas as campanhas surpreendentes de Bulgária e Romênia chocaram e encantaram o planeta.

A Romênia pertenceu ao grupo A, junto com os Estados Unidos, Colômbia e Suíça. A primeira partida foi fundamental para a confiança daquele time.A Colômbia, primeiro adversário da equipe, possuía a melhor geração de sua história, considerada por alguns como forte candidata ao título. Com dois gols de Raducioiu e um de Hagi, venceu com tranquilidade por um placar de 3 a 1. Porém, no jogo seguinte a zaga e o goleiro Florin Prunea fizeram uma péssima partida e a Romênia foi goleada por 4 a 1. Os romenos chegaram no último confronto precisando da vitória contra os donos da casa, e o fez. Com gol do lateral Petrescu, o time conseguiu se classificar para as oitavas de final pela segunda vez seguida.

O jogo enigmático daquela seleção foi nas oitavas de final. A Romênia tinha pela frente a poderosa Argentina, que apesar de não contar com Maradona – flagrado no doping ainda na fase de grupos – ainda era uma equipe muito forte, com nomes como Diego Simeone e Batistuta. O dono do jogo foi Dumitrescu que abriu o placar em uma bela cobrança de falta que encobriu o goleiro. A Argentina empatou logo em seguida com Batistuta, o Batigol, de pênalti. Em um passe espetacular de Hagi, Dumitrescu fez mais um gol e colocou a Romênia na frente. No segundo tempo foi a vez de Dumitrescu retribuir a assistência para Hagi, que chutou no canto direito do goleiro fazendo 3 a 1. A Argentina ainda fez um gol para descontar, com Balbo, mas não tinha tempo para o empate. A disputa terminou 3 a 2, com a classificação para a seleção comandada por Hagi e Dumitrescu.

Seleções europeias

Hagi em jogo contra a Argentina em 1994 [Imagem: Bob Thomas/Getty Images]

O adversário das quartas de final também era uma surpresa. A Suécia tinha como seu principal destaque o goleiro falastrão Ravelli, que estava fazendo uma ótima Copa. O jogo foi o único em que os romenos não jogaram com seu uniforme amarelo, e coincidentemente perderam e foram eliminados. Em uma partida bastante igual, a Suécia abriu o placar com Brolin. Dez minutos depois, Raducioiu empatou o jogo, que acabou indo para a prorrogação.

Raducioiu quase foi o grande herói, pois virou o jogo. Quando todos achavam que a Romênia estava classificada para enfrentar o Brasil nas semifinais, Kennet Anderson empatou o jogo para a Suécia – que naquele momento estava como um jogador a menos – e forçou a disputa de pênaltis. Nas penalidades, brilhou a estrela do goleiro Ravelli, que defendeu os pênaltis cobrados por Petrescu e Belodedici. Acabava ali a trajetória de um esquadrão que encantou o mundo e deixou um gosto de quero mais para aqueles que admiravam um bom futebol.

A Bulgária também surpreendeu muita gente até chegar na disputa nos Estados Unidos. Um dos primeiros placares inesperados foi do último confronto das eliminatórias contra a forte seleção francesa, que tinha o time que foi base para o título da copa de 1998, em Paris. Nesse jogo, os búlgaros mostraram sua força, vencendo de virada por 2 a 1. Os dois gols foram marcados por Kostadinov, com direito a um golaço aos 45 minutos do segundo tempo.

No sorteio dos grupos a Bulgária caiu com fortes seleções, sendo elas a Argentina, Grécia e a Nigéria. A primeira partida foi contra a seleção africana, que dominou completamente o jogo contra uma irreconhecível seleção búlgara, que aparentava sentir o despreparo físico provocado pelo forte calor do verão americano. O resultado foi 3 a 0 para os nigerianos.

A primeira vitória da história do país em Copas aconteceu na segunda rodada, em partida contra a Grécia. A equipe goleou com dois gols de pênalti de Stoichkov eLetchkov e  Borimirov ampliando para dar números finais para a partida. A Bulgária precisava de um resultado positivo contra a Argentina para conseguir a classificação. Com gols de Stoichkov e Sirakov, venceu os favoritos e surpreendeu a todos ao conquistar a vaga para as oitavas de final.

Aquela equipe já havia feito história, por ter conseguido a primeira vitória do país e a classificação, mas queria mais e foi motivada para enfrentar o México, do folclórico goleiro Jorge Campos. O jogo durou 120 minutos, após 1 a 1 no tempo normal e 0 a 0 na prorrogação e a partida acabou indo para os pênaltis para consagrar o capitão Mikhailov. O goleiro defendeu duas cobranças, colocando a seleção nas quartas de final.

A empolgação era grande, mas o desafio era maior ainda. Os búlgaros tinham pela frente a atual campeã do mundo, a Alemanha. O time era composto por estrelas como Matthäus e Klinsmann, e visto como franco favorito pela imprensa e pelo público. A Alemanha saiu na frente com gol de Matthäus em cobrança de pênalti. Mas a Bulgária era valente e com um belo gol de falta do artilheiro Stoichkov empatou a partida. A virada veio da cabeça Letchkov, surpreendendo o mundo inteiro mais uma vez. O jogo ficou marcado como o mais importante da história do país.

Seleções europeias

Comemoração do gol da classificação para a semifinal [Imagem: ESPN]

O sonho da Bulgária acabou na semifinal, enfrentando a Itália – até então tricampeã do mundo, – e perdeu por 2 a 1. A equipe não conseguiu parar o melhor jogador do mundo, Roberto Baggio, que marcou os dois gols e garantiu a vaga da seleção italiana na final. Na disputa pelo terceiro lugar, a Bulgária entrou apática e acabou sendo goleada por 4 a 0 pela seleção da Suécia. Porém, as derrotas não apagaram o que os búlgaros fizeram, com jogadores sendo homenageados até hoje.

Decepção da Copa de 98 

A Bulgária chegou a Copa de 1998 com pouca esperança de bons resultados. O time que chegou à semifinal no mundial anterior em campanha histórica, já não tinha a mesma força, com os jogadores que continuavam na seleção em declínio devido a idade. A equipe não lembrava aquela de quatro anos atrás e saiu da Copa com duas derrotas e um empate, sendo eliminada ainda na primeira fase. O time só marcou um gol na competição, justamente na derrota mais humilhante sofrida para a Espanha, com um placar de 6 a 1 na última partida da fase de grupos.

A Romênia chegou na Copa de 98 com grande expectativa. Seus jogadores estavam jogando em alto nível em equipes do futebol europeu, diferentemente do que em 1994, quando muitos jogadores atuavam no futebol local. Segundo João Victor Roberge, as pessoas esperavam bastante daquele time, “as expectativas eram de ir além, eram muito muito boas”, se referindo à possibilidade da equipe superar a campanha da Copa anterior.

A estreia foi novamente contra a forte seleção da Colômbia, e a Romênia jogou bem, vencendo por 1 a 0, com gol de Ilie. João Victor diz que Ilie era a esperança do time na época, “a cara de uma renovação que se esperava”. Na segunda partida enfrentou a forte Inglaterra, que possuía grandes jogadores, e ganhou por 2 a 1, com gols de Moldovan e do lateral Petrescu, aos 90 minutos. 

Tudo parecia ir muito bem. Cumprindo uma aposta feita com o técnico relacionada à classificação para a segunda fase em apenas dois jogos, todos os jogadores do elenco platinaram o cabelo, ficando todos loiros. Esse foi o ponto crucial na queda de desempenho da equipe: muitos apontam a confiança extrema como principal motivo do declínio. João Victor diz que a Romênia “acabou achando que o trabalho já estava feito e que as vitórias iriam vir naturalmente”. Ainda na fase de grupos a Romênia empatou com a fraca seleção da Tunísia não fazendo uma boa partida. Nas oitavas de final enfrentou a Croácia, pouco expressiva na época e que jogava a primeira Copa do Mundo de sua história. Em mais uma atuação abaixo da média acabou perdendo de 1 a 0, dando adeus à competição de forma precoce.

Seleções europeias

Seleção da Romênia com o cabelo loiro [Imagem: Getty Images]

O presente e futuro promissor

Atualmente ambas seleções não chegam perto do sucesso alcançado no meio da década de 90. A Romênia se encontra na 37° posição do ranking de seleções da FIFA. A grande esperança da atual geração é Ianis Hagi, filho do maior jogador romeno da história, o que por si só coloca muitas expectativas no atleta. Em 2019, a seleção romena conseguiu chegar nas semifinais da Eurocopa sub-23, jogando um bom futebol e garantindo vaga nas Olimpíadas de Tóquio.

Já Bulgária ocupa a 59° do ranking da FIFA. O time que atualmente domina o futebol local é o Ludogorets. Algo curioso é que o dono do clube, o bilionário Kiril Domuschiev, aprecia muito o futebol brasileiro, contratando vários para jogar em seu time. Alguns jogadores brasileiros tiveram a oportunidade de vestir a camisa da seleção, entre eles Wanderson, que agradece por estar há tempos se destacando no futebol búlgaro. Sobre a oportunidade de defender a seleção da Bulgária, o atleta completa que “é uma sensação maravilhosa. Todo jogador tem um sonho de jogar por uma seleção um dia e, graças a Deus, eu tive essa oportunidade. É um país que amo de coração, eles me acolheram muito bem e tenho a Bulgária como o meu país”.

Wanderson em partida contra a Inglaterra [Imagem: Divulgação]

As duas equipes estão na divisão A da repescagem para a Eurocopa, e podem se encontrar na final para decidir qual seleção vai se classificar. Nas semifinais a Bulgária enfrenta a equipe da Hungria e a Romênia enfrenta a Islândia.

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