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As Virtudes me Entediam
CINÉFILOS
28 out 2016 | Por Jornalismo Júnior

Existem cantos escuros dentro de todas as pessoas. Lugares que poucos ousam olhar por muito tempo , temem a própria loucura e desgraça. Segue- se a transcrição de um manuscrito sobre os filmes viciados Se7en (1995), A Pele que habito (La Piel que Habito, 2011), Shame (2012) e Web Junkie (2013). Encontrado dançando ao sabor do vento, numa fria tarde de métropole cinza.

[Alerta: spoiler]

Nasci pouco depois da humanidade. Sempre a cortejei. Bebo de suas emoções com tanto ardor… Os primeiros anos foram um tanto tediosos, confesso. Não havia muito o que fazer. Por sorte, as pessoas começaram a se aglomerar, nas tais “civilizações”. A partir daí, descobri uma miríade de possibilidades. São fascinantes estes seres. Ainda que eles não me tenham em grande estima. Eu os amo tanto. Eu sou o prazer que os governa. Aliás, não vos disse meu nome ainda; chamam-me Vício e quero contar algumas de minhas aventuras.

“Por mim se vai à cidade dolente,
por mim se vai para a eterna dor,
por mim se vai para a perdida gente”.

Ah… Dante! Por que me confundiste? Tão belas palavras não são dignas do Inferno, esta abstração vã. É de mim que tu escrevestes. Será que vês agora? Bem, saibas tu, leitor, que me identifico muito com a famigerada Divina Comédia. São tantas essas pessoas vazias, sedentas, essas “perdidas gente”, em busca de uma mão que as leve destas futilidades: planos de saúde, carreira, amor verdadeiro, sucesso… Tão ingênuas, nesta infância sem fim.

John Doe foi um homem incrível. Também adorava Dante. Encontrei-o cansado de tanta superficialidade. Em uma noite inquieta, sussurrei em seu ouvido: “nós vemos um pecado mortal a cada esquina, em cada lar, e toleramos. Toleramos porque é comum, é trivial”. Tais palavras reverberaram no coração de John com a violência própria da planta da juventude. Como fazer desabrochar as criaturas infames deste longo inverno?

Fazendo sofrer, pensava John. Planejou detalhe por detalhe. A alma se transforma pela dor da carne. Naquele livreto italiano encontrou a resposta de suas angústias. Sete pecados capitais. Sete lições.  Gula, avareza, preguiça, luxúria, orgulho, inveja, precisamente nesta ordem. A ira, bem, esta era especial, seria nosso grand finale.

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Precisávamos do personagem certo. Mills e Somerset, nossos queridos detetives, foram nossa fortuna. Somerset, o centrado, Mills, o tempestuoso. Este carecia de algumas centelhas para inflamar sua fúria inata. Latente. Nada melhor do que tentar o amor, ânsia de que um incorpore as projeções do outro. Tracy era o nome deste amor. Bastou sua cabeça numa caixa para demonstrar a natureza vil humana. A inevitável ira de chumbo de Mills atravessou John.

Vingança… Vingança! Sim! Uma das peles que habito vestiu suas rédeas em mais um homem. Dr. Robert Legard, um cientista além da bioética, esta legislação mundana sobre assuntos supranaturais. Células híbridas, meio humanas meio suínas. O dito grande reconstituidor facial. Mais um homem que seduzi. Até que foi fácil, esse. O homem já estava tomado pela cólera da vida. A chama os carbonizou, sua mulher e o amante tomados pelo fogo. O doutor impediu sua morte. Honestamente, não entendo. Talvez seu ímpeto seja porque ela não merecia o paraíso da inexistência, precisava sofrer com as angústias do real, o que quer que isto seja.

Esperei junto com Robert, ao lado da cama dela. Por meses, em completo negrume. Enquanto o apaixonado doutor aguardava sua melhora, toda esta farsa ,o romantismo de aparência. Eu não aguento.. Queria dar-lhe um espelho. Queria que ela visse o demônio que agora vestia. Mas não foi preciso, quando se viu refletida no vidro, atirou-se da janela, matou-se de horror.

Como em um bom filme de Almodóvar, não há empecilhos para o trágico se exprimir. A filha assistiu ao suicídio da mãe. Gritava emprenhada pela loucura. Jamais conseguiu  desprender-se da insanidade. Só a morte a libertaria. Com a violência no jardim de uma festa, seu sutiã desabotoado, a penetração… Apenas gritava. Ensurdeceu-se diante da vida, preferiu o jazigo, o carvão de uma chama, a chama do fim.

Robert, também, precisava matar. Matar para reconstruir. O pênis do estuprador tinha que virar a vagina. Vicente, tu achaste que toda tua moral foste mutilada pelas firmes mãos de um viciado? Engana-te. O seu corpo sempre pertenceu ao outro. O doutor apenas lhe vestiu uma nova pele. Tu és verdadeiro agora, Vera.

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“Se cada um pudesse habitar numa entidade diferente, a vida se libertaria de tudo o que é intolerável.”
– O médico e o monstro (Robert Louis Stevenson)

O criador e a criatura. Como não se apaixonar por quem o criou? Por quem colou estrato por estrato de sua pele? Vera confundia-se em Robert. Seu corpo pulsava, sentia-se nele. Era Vera, mulher, dona da pele mais resistente. Vera, mulher, mulher, mulher… A prepotência humana me dá nojo. Robert, será que realmente pensaste que Vicente morrera? Não se mata a alma pela epiderme, é óbvio. Eu não poderia respeitar quem não percebe algo tão fundamental. Agora, à Vera, abracei-lhe como vingança e Vicente puxou o gatilho no grande doutor. A pele do ego não resiste a algumas balas.  

Estou farto de gente com tanta convicção. Falemos daqueles que mais me agradam, dos vazios. Tenho-lhes especial apreço não porque são mais fáceis de dominar, mas porque uma vez meus, agem com um comprometimento comovente. Tomemos Brandon, por exemplo. Um triste habitante de Nova Iorque – cidadezinha ascética, de atmosfera azulada. Um homem de pura superfície. Quando o vi, não me contive, aproximei-me e fui sugado por aquele vácuo.

O seu interior era… lascivo. Fiquei muito satisfeito, estes espécimes são raros. Em pouco tempo, já se formara um autêntico ninfomaníaco. Sabe, meu ofício é nobre, eu apenas desenvolvo potencialidades. A postura de Brandon é implacável, ele tem um dom inato. Encontra sexo como se fosse a mais prosaica das atividades. É admirável.

Porém, não sou um mero vouyer, claro. Recordo-lhe sempre de manter uma boa aparência. A boa máscara faz o bom homem. De resto, ele já tem um ar melancólico, tão misterioso. Próprio de um desejo constante. Ninguém resiste – e não somos de recusar ninguém.

Por isso uma de suas maiores amantes é a internet. Um deleite para ele, como uma doceria para as crianças. Pessoas, doces, para Brandon não há diferença. Tudo é tão descartável. A pornografia é a vitrine, tantas opções, para tantos gostos. De manhã, depois do almoço, antes de dormir. A angústia alva, líquida, escorre, relaxando os músculos da agonia.

Aliás, devo esclarecer que o homem de quem vos falo não goza realmente. Não é um orgasmo, pelos menos não para ele. Eu sim, estremeço todas as vezes. Brandon o faz, porque precisa. Por uma fração de segundo, ele sente o vazio se tornar substância. Mal sabe que este sou eu, gozando. Perceba, eu dou um sentido, de 37 milésimos, para a sua vida. Faço-o pelo meu prazer e para angústia dele.

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Gosto muito da irmã também. Sissy é outra criatura, de tão patética, apaixonante. O que o irmão tem de distanciamento, Sissy tem de apego. Ela se agarra com um tal desespero aos seus amantes. E quando é rejeitada – ocorre com frequência – sobe nela uma vontade de morte. Às vezes, deixo-a cortar os pulsos, mas só para provocar Brandon. Vê-lo sentir algo real é sempre revigorante!

Brinco com os dois há anos. Lembro-me de cada aventura…  Eles também, mas não lhes agrada o passado. Talvez se aceitem um dia, abandonem a vergonha – Shame para os nova iorquinos. De prazer em prazer a humanidade me fascina.

É tão excitante esse mundo virtual, a dita era da tecnologia. Perversa. Garotos e garotas passando horas em uma lan-house. Drogas, álcool, tudo para manter a vida no jogo e esquecer a realidade. Como evolui-te, ser humano, ao descobrir a internet, a heroína digital. Comte sempre esteve certo ainda não tinham alcançado o estado último. Enfim, o progresso!

A China acha que sou uma água colérica, acha que todos que bebem de mim estão enfermos, precisam de uma cura. Os pais preocupados com suas dinastias, com seu sangue de aparência limpa, virtuosa, a mais pura temperança aristotélicas, internam os filhos em centros de reabilitação. “They tried to make me go to rehab/ I said, no, no, no”, a Amy sentiu a hipocrisia. .

Não percebem que estão todos viciados? Os jovens na internet veem mais realidade numa massa de pixels que no ar enfumaçado entre os monitores. Já os que enaltecem o tangível, estão igualmente tomados pela produtividade maquinal de sobreviver, trabalhar um nome, ser um nome. Ter, ter, ter. O ser já se perdeu pelos corredores de shoppings… Enquanto os pais morrem de exaustão no ônibus os filhos, desconectados, abrem a tela de computador.

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Agora no rehab, não contam mais os segundos para reiniciar o jogo, depois do game over. Marcham… 1, 2, 3. Vestidos em uniformes militares, viram marionetes. Acho graça nessa mecanização dos homens. Homônimos, procurando incessantemente formas de se desafogar. Não há melhor comédia do que assistir uma nação achando que pode curar sua juventude com um remédio, com uma conversinha de psicóloga, com uns exercícios físicos. Hahaha… Presta atenção que eu não vou repetir. Eu, eu, o Vício não sou um vírus, um câncer. Sou o que há de mais humano em vocês.

Sentes pena desses meus mártires pelo cinema? Ah, deu uma dózinha, um apertinho no coração? Raça escrota, repugnante. Constrói-te no desespero do outro, sente-se inflamado, superior, pois, então, sinta pena de si cada vez que te olhar no espelho. Vomite tuas entranhas viciadas e testemunhará minha majestosa imagem. Eu sorrirei para ti e tu sorrirás de volta, pois verás que a vida sem mim é um prato com sabor de ausência.

Lembra-te de Dickens:

“Os vícios são frequentemente virtudes levadas ao extremo.”

por Daniel Miyazato e Giovanna Querido

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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