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As vozes do abuso
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12 jul 2016 | Por Jornalismo Júnior

Por Laila Mouallem (lailaelmouallem@gmail.com)

Não há um momento em que um relacionamento se torna abusivo. Não há ponto de virada. O que acontece é uma gradual percepção de atitudes manipuladoras e agressivas, às quais a pessoa oprimida na relação estava subordinada. Trata-se sobretudo de um processo de violência psicológica e moral, possivelmente física, que mantém o agredido tão imerso em falsas questões que o óbvio torna-se imperceptível.

Relações entre pais e filhos e entre amigos podem se classificar como abusivas; até mesmo um homem pode ser vítima de um relacionamento do tipo. Porém, mulheres ainda são as mais afetadas, o que se agrava quando é feito um recorte racial e classista. Segundo Izabel Solyszko, assistente social doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atualmente professora na Faculdad de Ciencias Sociales y Humanas da Universidad de Colombia em Bogotá, “os relacionamentos abusivos devem ser contextualizados: uma relação afetiva numa sociedade capitalista, racista e patriarcal tem necessariamente explicações que vão muito além da prática individual de cada sujeito”. O maior exemplo disso são as mulheres negras de periferias que, expostas às mais amplas condições de vulnerabilidade, têm seus direitos mais violados. Seus corpos são ora hipersexualizados, ora tidos como subalternos pela mídia. Assim, numa relação afetiva, tal imaginário se manifesta à medida que estas não são reconhecidas em sua condição de sujeito de direitos. Para Izabel, essas mulheres são submetidas a peculiaridades que dizem respeito à exclusão social e à falta de acesso ― a distância do trabalho, a lotação do transporte público, andar sozinha em ruas escuras, ter seu corpo visto como disponível para ser violado por policiais que invadem um bairro pobre, as inúmeras tarefas domésticas, o ínfimo salário ao fim do mês, o desrespeito no serviço de saúde, a discriminação. “É uma sequência asquerosa de uma realidade que nega sua condição de pessoa humana cotidianamente. Um relacionamento abusivo reproduz e expressa tudo isso”, diz ela.

Com um amplo recorte de gênero, os motivos que fazem das mulheres as principais vítimas de abusos em suas relações ficam evidentes. A posição subalterna à qual elas, de modo geral, são relegadas em relacionamentos abusivos está diretamente associada ao machismo do cotidiano. A Lei Maria da Penha reconhece a violência psicológica como uma violação aos direitos humanos das mulheres. Nas palavras de Izabel, “isso quer dizer que esse conjunto normativo reconhece a cotidianidade da violência a que estão submetidas milhares de mulheres e que não se resume à questão física. (…) A base dessa violência é a mesma de todas as violências: as mulheres não somos reconhecidas como sujeito, ou, no máximo, como um sujeito de segunda categoria, com menos valor”. Assim, essa concepção da existência feminina possibilitaria inúmeras práticas abusivas ― das mais visíveis às mais invisíveis.

Paula*

“Ele não me deixava trabalhar, ficava mandando mensagem o tempo inteiro. Se não era pelo Facebook, era pelo Gmail, Gtalk, Whatsapp, por todos os lugares possíveis. Todos os dias, do momento em que eu acordava ao momento em que eu dormia. Aí eu ia do trabalho para a faculdade, chegava em casa muito tarde e queria dormir. Ele queria que eu ficasse conversando com ele, e, se eu dormisse sem avisá-lo, ele ficava me ligando descontroladamente, achando que tinha acontecido uma coisa comigo” ― esta é uma parte do relato de Paula, que viveu um relacionamento abusivo por aproximadamente um ano. Conheceu Lucas* no Tinder e não queria um relacionamento sério; porém, quando viu, já estava em um. Descobriu que ele tinha depressão desde os 7 anos, além de problemas de ansiedade e ataques de pânico, e se prontificou a ajudá-lo. Ele passava os fins de semana na casa dela, viviam sempre juntos. Para Paula, essas atitudes não passavam de carência; ela realmente estava disposta a ajudá-lo e acreditava que todo esse desespero ia passar eventualmente. Ele culpava Paula por seu estado, mas ela não queria ― não podia ― simplesmente largá-lo.

Não passou muito até que Lucas tivesse sua primeira crise: disse que ia se matar se Paula terminasse o relacionamento. Apesar de assustada, ela acreditava que ele, mais do que nunca, precisava de ajuda.

Esses episódios se tornaram frequentes. Toda vez que Paula tinha algo a fazer no sábado, ele se desesperava. Em um deles, ela teria que trabalhar numa festa e não poderia dar tanta atenção a ele. No dia, ele teve um surto e repetidamente dizia que cometeria suicídio. Paula deixou de ir à festa para ficar com ele, que chorou e pediu desculpas por ter perdido o controle. “Aí, no outro dia, ele disse que tava ótimo, que ia melhorar, que nunca mais ia fazer isso ― mas, nos meses seguintes, foi isso toda semana. Ele ameaçava se matar, eu ameaçava terminar. A gente acabava voltando, eu não tinha coragem de dispensar ele”, diz.

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Paula vivia um relacionamento instável, entre pedidos de desculpas e ameaças. (Foto: Laila Mouallem)

A obsessão chegou a um ponto em que ela não podia mais ficar com a família que veio de outro estado, já que Lucas mandava mensagens pedindo por atenção. “Olhando agora, eu penso que não sei por que continuei nesse relacionamento. Não conseguia enxergar dessa maneira”, diz. “Ele me fez pensar de um jeito que eu achava que nunca ia encontrar um cara legal como ele, porque ele falava várias coisas sobre feminismo, que achava que as mulheres estavam certas.”

Lucas tentava estender essa manipulação psicológica para todas as esferas do relacionamento, inclusive a sexual. “Ele falava que queria fazer sexo anal e eu falava que não, que quando eu quisesse ia falar pra ele”, diz. “E aí ele falava: ‘Não é por mim, é por você ― você que vai gostar e vai sentir prazer’.”

Ela lembra até hoje do dia em que sua amiga do trabalho classificou seu relacionamento como abusivo. Paula sabia o que caracterizava esse tipo de relação, mas nunca havia se dado conta de que estava em uma: “Deu um estalo na minha cabeça, sabe?”, relata ela. “É claro que é. Ele está abusando de mim psicologicamente.”

Depois de idas, vindas e crises, Paula estava devastada. “Um dia, eu falei: ‘Não dá mais’. Até meus amigos perceberam; eu estava destruída psicologicamente, não conseguia estudar nem trabalhar direito”, disse.

Ela conta que ele precisava se afirmar o tempo todo: “Vivia dizendo que eu era muito linda, que era o amor da vida dele, que tinha vários amigos, que fazia as pessoas se sentirem bem. Mas ele sempre queria provar que também era bom, nunca deixava eu terminar de falar. São coisas pequenas que você nem percebe. Quando eu passava perto de um cara ele me dava um puxãozinho… Coisas pequenas, sabe? Mas que, no fim, você percebe que são o que monta um relacionamento abusivo”.

Após o término, ela diz ter tido raiva de si mesma por se manter na relação por tanto tempo. Porém, diz ter entendido que se trata de algo que vai além do racional: “Depois dessa raiva, fui entendendo que as coisas não eram tão fáceis; pra quem tá dentro é algo totalmente diferente (…) não é porque ele nunca encostou a mão em mim que ele não abusava de mim.”

Marcella*

“Hoje sei que fui vítima de um sistema e isso, infelizmente, é muito comum.” Esta é a história de Marcella, hoje livre do relacionamento que um dia a aprisionou. Inicialmente, parecia que nada poderia dar errado: o sentimento que tinha por Vitor* era muito intenso e estava explicitamente feliz. No entanto, a baixa autoestima do namorado era nítida para ela.

Além disso, eles eram opostos: ele era conservador e introvertido; vivia fazendo ironias e críticas ao número de garotos que Marcella já havia beijado antes; contava como os amigos dele se referiam a ela como “garota fácil” antes de ficarem juntos. Ela sempre relevou, estava completamente apaixonada.

“Ele me fazia sentir louca, exagerada e uma pessoa que nunca está satisfeita. Antes eu era segura, na metade do namoro eu era fraca, irritada, feia, chata. Eu não queria mais sair e só ele existia para mim”, diz. “Ele criticava minhas atitudes, meu passado, tudo. As críticas dele viraram a verdade absoluta para mim e eu agradecia por ele ser tão incrível de me aguentar.”

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Em relacionamentos abusivos, a autoestima quase nunca sai ilesa. O pensamento de que é impossível ser amada por outro alguém persiste. (Foto: Laila Mouallem)

Eles brigavam, ele a ignorava. Marcella conta que ele sabia que ela tinha tendências a depressão e já havia se automutilado. “E fiz de novo ― entrei em transe e me cortei. Não lembro como cheguei na cozinha e peguei a faca. Contei pra ele, na esperança de receber ajuda. A resposta foi ‘você é ridícula, está fazendo isso pra chamar atenção. Você não mede quanta raiva eu estou sentindo de você agora’.” Ainda assim, aguentou mais um mês de namoro: tinha medo de não conseguir viver sem ele. Por fim, depois de muitas complicações, terminaram. Mesmo após o término, ele ainda tinha influência sobre ela. “Foram meses pesados, eu entrei em depressão”, diz. “Nenhuma amiga sabia dessa história, a automutilação se tornou constante. Mas alguns meses de terapia, ajuda de amigos e muita leitura sobre feminismo fizeram as coisas melhorarem.”

Jéssica*

“Com o tempo, eu percebi que não era mais um relacionamento, mas uma relação de medo.” Jéssica e Marcelo* começaram a namorar aos 15 anos e continuaram juntos por quase quatro. Quando ela entrou na faculdade, não conseguiu aproveitar nada: ele sutilmente não a deixava sair, fazendo chantagens emocionais e dizendo para ela ir somente se ele fosse junto. Jéssica incomodava-se com isso e, em resposta, ele dizia que ela havia mudado, culpando-a por o relacionamento estar diferente.

Jéssica não é heterossexual e, em determinado momento, contou a Marcelo que estava sentindo muito mais coisas por meninas. A resposta dele veio em forma de ameaças: “Quando eu falei isso para ele que eu me toquei que era absurdo o que estava acontecendo, porque ele começou a falar coisas do tipo ‘eu vou contar para a sua família, ela não merece não saber sobre quem você é de verdade; olha o que você está fazendo’”, diz. “Então a gente tentou abrir o relacionamento, mas a regra era que ele podia ficar com qualquer menina e eu só podia ficar com meninas. Não fazia sentido. Ele estava fazendo o fato de eu ficar com meninas se tornar totalmente insignificante, colocando como qualquer coisa, como se não envolvesse sentimento.”

Tal comportamento, machista e homofóbico, foi a gota d’água do relacionamento. O alívio com o término mostrou o constante desgaste em que a relação se tornou. “Eu comecei a perceber que cada detalhe formava um todo muito abusivo depois que a gente terminou”, conta.

Roberta*

“E eu lembro que depois de um tempo ficou bem abusivo. Ele jogava na minha cara que não queria mais nada comigo, me mandava parar de encher o saco. Algumas vezes, quando bêbado, ficava agressivo. Me pegava pelo braço e apertava, me empurrava, gritava. Por me trair, ele passou a ter uma desconfiança grande. Teve uma vez que puxou meu cabelo, apertou e me segurou contra a cama, me xingando de várias coisas.” Roberta e Paulo* começaram a namorar pouco tempo depois de terem se conhecido. Ela se mudou do interior para São Paulo e eles se conheceram por meio do aplicativo Grinder. Era um namoro homossexual até que ela se assumiu trans ― uma vez que se identifica com o gênero feminino. Desde o início, Paulo a traía constantemente. Mas a dependência que Roberta criou em relação a ele se somava ao fato de ele ter sido a primeira pessoa pela qual ela se apaixonou. A vontade de fazer o relacionamento dar certo e a manipulação psicológica à qual Paulo a submetia mantinha o relacionamento entre idas e vindas.

“Depois de um tempo, percebi que a culpa sempre era minha. Ele nunca estava errado e dizia: ‘Você é muito dependente, você me provocou’. Acho que você ouve tanto que a culpa é sua que você começa a acreditar nisso”, conta.

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A culpabilização da vítima é recorrente em relacionamentos abusivos. (Foto: Laila Mouallem)

Após dois anos de namoro, Roberta começou a procurar sobre o que é ser transgênero e iniciou sua transição. Depois disso, as coisas pioraram muito. As traições continuaram constantes, e ela chegou a ser traída no seu próprio aniversário. Na boate em que estava comemorando, Paulo a traiu com um grande amigo dela. Situações como essa se repetiram durante o relacionamento, como quando Paulo terminava com ela antes de feriados prolongados e tentava voltar ao fim destes. “E eu falava que era pra gente tentar, pra gente se respeitar. Às vezes eu aceitava a culpa que não era minha.”

Ela conta que, após o início da sua transição, Paulo começou a implicar com as roupas que ela usa. “Eu faço ginástica olímpica, eu tenho uma coxa definida. Então se eu uso um shorts mais curto, os caras olham. Aí a culpa é minha porque eu dei bola. Ele brigava muito comigo por isso. Ele falava ‘você precisa se vestir como uma biscate, uma puta?’ Ele diz que eu não o respeito e que uso roupa curta para chamar atenção.”

Certa vez, os pais de Paulo foram viajar e ele terminou com Roberta sem motivo aparente ― logo após ela ter ficado internada durante três dias, sem receber uma visita sequer do namorado. Ela decidiu que dessa vez o término seria definitivo. Apoiou-se nos amigos, que a elogiavam e a lembravam de suas qualidades. “Olhei minhas fotos do passado, comecei a reparar o quanto eu mudei e estou me tornando uma menina bonita”, conta. Mesmo após o término, Paulo ligou 54 vezes para Roberta em um período de duas semanas. No entanto, hoje ela diz estar feliz. “Estou bem, saindo com um cara hétero, aproveitando cada passo da minha transição e ansiosa para mudar cada vez mais.”

Carolina*

Durante a entrevista de uma hora e dez minutos de Carolina, houve 4 ligações perdidas de Cláudio*. “Eu queria estar te contando uma história que acabou, mas a minha história não acabou. Ele é um criminoso, é uma pessoa errada e o sistema não permite que ele vá preso. Se for, será por um tempo muito pequeno”, contou-me ela, com as mãos trêmulas e os olhos marejados. Em um deles, o esquerdo, havia uma mancha que fora um dia roxa e estava por fim se desfazendo ― e o motivo pelo qual estava ali era parte de seu relato.

Carolina conheceu Cláudio em um momento de vulnerabilidade: estava grávida de seu segundo filho, mas o pai a havia abandonado. Estava na casa de seus pais e a pressão familiar por ela ser mãe solteira viu um respiro quando Cláudio apareceu em sua vida: jurou amor e disse que assumiria a criança. Não foi necessário um mês de namoro para que os dois fossem morar juntos. Também não foi necessário tempo demais para que ela percebesse que estava entrando numa cilada. Ao ouvir as histórias do passado de Cláudio, de atos violentos e drogas, além de ver que ele bebia demais, percebeu que tinha algo de errado.

Aos poucos, ele mostrava sua possessividade, que a fazia sentir-se cada vez mais presa à relação. Ela era dona de uma mercearia, que fechou por causa dele. “Eu não podia atender homens, qualquer homem que entrasse lá para comprar um quilo de feijão ele enxergava como se estivesse dando em cima de mim.” Toda a sua mercearia foi destruída por ele, dentre prateleiras e notebook quebrados, pois um dia ele viu fotos íntimas dela em e-mails antigos de um outro relacionamento. Nesse dia, ela conta, ele foi para a casa e se embebedou, além de tomar muitos remédios. Ela o levou ao hospital: o registro foi de tentativa de suicídio.

Após isso, Carolina o levou a uma clínica de reabilitação. A abstinência das drogas o fazia procurar refúgio no álcool. Seis meses depois, ele saiu. Apesar do medo, Carolina ainda sentia que gostava dele. Reataram.

Algum tempo depois, ficou grávida. Eram brigas após brigas, ela não podia se arrumar e nem se vestir como queria: “Tinha dias que ele cismava que eu não podia por as minhas calcinhas, que eu tinha que usar as cuecas dele, porque iam perceber pela minha roupa a marca da calcinha e iam ficar olhando. Então, se eu estivesse de cueca, ficaria marcado o elástico e seria desinteressante, e a pessoa não ia me olhar”. O ciúmes era cada vez mais doentio: “Se ele cismasse que algum vizinho tinha me cumprimentado, era motivo de ele levar uma faca para debaixo do travesseiro”.

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“Eu percebi que não era mais um relacionamento, mas uma relação de medo”, diz Jéssica. (Foto: Laila Mouallem)

Durante a gravidez, ele a machucou e ela fez um boletim de ocorrência. Atualmente, ela está no seu quinto, e conta que suas experiências diante de autoridades não mudaram sua vida ― alegam que o desvio de personalidade de Cláudio o faria sair pior da reclusão. Além disso, Carolina diz que o fato de ele estar em uma clínica de reabilitação o isenta de processos criminais.

Dentre as inúmeras histórias de agressão, ela conta que ele optou por trabalhar no período noturno para vigiá-la, para ter certeza de que ela não receberia ninguém em casa. “Chegou em um nível em que ele só sabia me chamar de puta, vagabunda, burra, dizendo que tinha se arrependido de ter ficado comigo. Eu dizia que ia embora e ele respondia que, se eu fosse, ficaria com outro e ele me mataria”, diz. “Se eu contasse pra alguém o que estava acontecendo, ele ameaçava matar as pessoas do meu círculo social.”

Carol teve depressão pós-parto e ele a tratou de forma ainda pior, dizendo que não passava de “frescura”. Cláudio a chamava de inútil, dizia que ela não sabia cuidar da casa e tampouco dos filhos.

Em certo momento na relação, percebeu que ele havia voltado a beber. Fora nesse dia o episódio que justifica a marca em seu olho esquerdo: “A gente começou a discutir, ele pegou um facão. Ele me deu um soco, me segurou pelos dois braços, me empurrou para fora em um corredorzinho e me deu uma cabeçada bem forte. Meu olho ficou inchado, fiquei dias sem conseguir abrir os olhos”. Os pais de Carol chegaram bem na hora e passaram a acreditar na agressividade que ela já havia antes relatado.

O machismo dele ficava ainda mais visível na preferência que apresentava pelo filho do meio. No entanto, ela conta que, na última vez que voltaram e se casaram no civil, para que, se algo acontecesse, ela não ficasse desamparada financeiramente, ele começou a descontar a raiva nas crianças, inclusive no menino. “Ele dizia que era o homem dentro de casa e era ele que tinha que decidir. Teve um dia que ele saiu com o nosso menino, que morre de medo de cachorro. Aí apareceu um cachorro no caminho deles. Ele chegou em casa arrastando o menino e o jogou em cima da cama. Bateu tanto, mas tanto. Se eu entrasse no meio pra tirar o menino, ele batia mais. Foi terrível”, relata.

“Um dia, ele ficou extremamente alterado. Eu tinha conversado com um rapaz para ser diarista, fazer uma limpeza. Eu ia falar com a esposa dele, inclusive. Ele colocou na cabeça que eu estava indo me prostituir. Mandou mensagem para esse rapaz, xingando ele. Me jogou no sofá, colocou todas as crianças no sofá, pegou uma faca e falava assim pras crianças: ‘Prestem bem atenção que eu vou mostrar pra vocês como se rasga uma vagabunda, porque vagabunda é assim que merece ser tratada'”, ela contou, tensa ao se lembrar.

Atualmente, Cláudia não mora mais com o rapaz, mas ele continua presente em sua vida e a coloca constantemente em situações vexatórias no Facebook, divulgando fotos íntimas a pessoas conhecidas. Ela diz estar com três processos abertos na Justiça e ter conseguido uma medida protetiva, mas reclama da ineficácia sistêmica que a mantém nessa situação. E, ainda, completa: “Minha vontade é de que um dia lá na frente, mesmo que a minha vida não dê em nada e mesmo que eu não consiga a paz que eu quero ter, que alguém se lembre do meu nome junto com a Maria da Penha”.

Como funciona a lei?

Em entrevista, Maíra Zapater, professora e pesquisadora de Direito Penal, Processual Penal e Direitos Humanos, explica que a Lei Maria da Penha muda o paradigma à medida que encontra outros caminhos para caracterizar como violações atos violentos não considerados crimes no Código Penal. No caso de um relacionamento que tenha tido violência psicológica, portanto, tais atos podem redundar em indenizações por danos morais.

Sobre a recorrente questão da insistência de retirada de queixa por parte de autoridades, ela explica que há uma previsão legal que necessita da autorização da vítima na hora do depoimento para que haja um processo criminal. Porém, completa, essa previsão legal se soma a todos os estigmas e preconceitos que existem em torno da violência doméstica e, então, “talvez exista uma insistência do profissional, que não teve um preparo adequado, de fazer com que ela desista”.

Além disso, Maíra explica que, apesar de a lei ter 10 anos, ela se encontra incipiente. “A gente até tem a previsão legal, mas todo o serviço em volta ainda está sendo montado.” Para ela, é preciso investir no resto da rede de atendimento que a Lei Maria da Penha prevê. “Ela não prevê somente a questão criminal; ela prevê que a mulher deveria ter acesso a assistência social para conseguir romper o círculo de violência, assistência psicológica, abrigamento se fosse o caso. E isso ainda não foi instaurado suficientemente”, explica.

Camila*

O desfecho da história de Camila pode ser visto como uma luz no fim do túnel para todas as Paulas, Marcellas, Jéssicas, Robertas e Carolinas.

Ela viveu um relacionamento extremamente abusivo. Conheceu Luiz* quando estava ainda com um ex-namorado, e os três ficaram amigos. Após alguns meses, eles se reencontraram ao acaso e ela já não estava mais namorando. Ele parecia sensível e inteligente: era músico e estava cursando Direito. Começaram a namorar e Camila se apaixonou. Porém, Luiz tinha ciúmes do ex-namorado dela, depositando toda a culpa desse sentimento nos dois. Camila contou a ele que quando eles se reencontraram, ela ainda estava em um relacionamento aberto com o ex. Isso tornou-se motivo de insegurança para Luiz, que usava a situação como justificativa para diversas opressões.

Camila conta que as coisas começaram de forma sutil, com reclamações. Ele invadia a sua privacidade entrando em sua conta no Facebook e, nas brigas, ele a culpabilizava dizendo que ela o deixava muito inseguro.

“A lógica como ele criou isso foi tão perversa que eu acabei entrando nesse jogo”, conta. Uma vez, foram viajar para o interior e ele novamente violou sua privacidade, vendo uma conversa formal que ela havia tido com o ex-namorado. Ela mentiu sobre isso por saber como ele ia reagir. Após muita insistência, ela contou a verdade e ele se exaltou. “No dia seguinte, ele disse que eu devia ter vergonha por ele ter invadido minha privacidade, já que eu estava sendo uma mentirosa o namoro inteiro. Ele tinha um áudio da nossa conversa no carro. Eu me senti muito injustiçada com isso, queria que ele me mostrasse as conversas com ex-namoradas. Aquilo era tão degradante pra mim”, conta. “Eu acho que o relacionamento abusivo nos impregna uma violência que não nos pertence. Nós acabamos reproduzindo uma violência que só nos vitimiza, que só nos faz mal.”

Nesse dia, ele ficou muito violento e jogou um copo na parede. Foi então que ela percebeu estar em um relacionamento abusivo. Com isso, contou para algumas pessoas, o que fez toda a diferença. “Quando eu contei pras pessoas o mal estar que me causava e a vergonha que eu sentia de contar, me fez ter certeza de que aquilo não tava certo. Eu sempre fui uma pessoa que contava tudo para as amigas e de repente eu não estava mais contando nada. É uma tendência: a gente vai se isolando por saber que aquilo está errado também.” E, assim, terminou o relacionamento.

Diferentemente do caso de Camila, a relação muitas vezes acaba por vontade do abusador. Isso porque a dificuldade em sair de uma situação de abuso é imensa: além de se estar vulnerável, o medo permeia qualquer decisão a ser tomada. Por isso a importância de estar por perto de quem vive um relacionamento abusivo ― quando a pessoa conseguir sair, seja por vontade própria ou não, ela precisará de apoio.

No entanto, Luiz começou a fazer terapia e dizia que estava mudando ― tudo o que Camila tinha esperança que podia acontecer. Voltaram a sair, mas ela não contou para ninguém. As coisas voltaram ainda piores.

Luiz queria saber a todo custo detalhes sobre outras pessoas com quem Camila havia saído nesse período longe. Toda vez que entrava nesse assunto ficava violento e se tornou um verdadeiro stalker. Nesse ponto, outras pessoas começaram a ser envolvidas na relação. Ele ia atrás de pessoas que ela havia ficado. Ela foi conversar com ex-namoradas para saber se aquela violência toda era exclusiva da relação entre os dois. Os resultados foram opostos: uma confirmou os atos violentos, a outra negou totalmente. “Porque ele tem essa sensibilidade, que defende os direitos das mulheres na faculdade de Direito, que fala com propriedade na mesa do bar sobre machismo, sabe? Então ninguém acredita. Por isso eu acho que foi tão difícil pra mim. Eu achava como se ele tivesse duas caras: uma que era a pessoa que eu queria que ele voltasse a ser sempre, que era o cara que eu tinha conhecido, legal e inteligente; a outra era uma pessoa violenta, uma personalidade que surgia por minha culpa. Eu via como se eu fosse a pessoa responsável por essa dupla personalidade, então eu sempre queria tentar administrar essa relação para que esse lado ruim não surgisse. Então a culpa ficava sempre pra mim. Eu me sentia culpada quando ele perdia o controle e ficava nervoso. Eu fui me anulando cada vez mais nessa relação.”

Depois de outros episódios, Luiz começou a dizer que ia cometer suicídio. Camila conta que o desespero foi tamanho que ela ignorou o fato de ele já ter violado sua privacidade novamente e passou a se culpabilizar pela situação. Ela pediu para eles se afastarem e entrou em depressão, emagrecendo 11kg. “Ele começou a mandar áudios me culpando mais uma vez, além de vídeos dele ensanguentado. Ele começou a se cortar, mandava fotos dizendo que eu era uma vagabunda, dizendo que eu tinha acabado com a vida dele.” Ela percebeu que Luiz tinha tido um surto psicótico.

Com terapia, Camila resolveu se afastar de vez. Foi conversar com a primeira namorada de Luiz e descobriu que eles tiveram uma mesma relação abusiva. Isso havia acontecido há 7 anos.  

Inicialmente, isso fez com que Camila parasse de se culpar por esses comportamentos. No entanto, ao perceber que isso era algo que havia se repetido com outras mulheres, além de se sentir injustiçada por resistir calada a e-mails que ele ainda a enviava, resolveu fazer um B.O. “A própria defensora disse pra mim que a gente tenta justificar a partir de transtornos psicóticos, mas o fato é que eles simplesmente não respeitam as mulheres. Ele nunca teve nenhum surto desse com um amigo da faculdade ou professor”, concluiu.

Camila conta que teve uma boa experiência com a Lei Maria da Penha, comparado ao que se costuma ouvir a respeito da eficácia do sistema. Inicialmente, foi ao Centro de Referência para a Mulher da rua 25 de março, em São Paulo, onde pôde conversar com uma defensora, que ouviu sua história e classificou as violações legais que o agressor havia cometido. Nesse CRM, Camila diz que obteve muito suporte e que lá há, inclusive, assistência psicológica. Depois, conta, foi à Delegacia da Mulher do Butantã: “Na delegacia não tem uma psicóloga te esperando, é uma coisa mais fria. Ainda assim fui bem tratada; conversei com uma escrivã que me deu razão total e meu B.O. ficou do jeito que tinha que ficar”. Ela diz que além de fazer o B.O., é preciso representar e seguir adiante no processo. “Mas acho que é a nossa única proteção, saber que tem essa lei e tentar fazer com que ela funcione”, completa.

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Chamar uma mulher de “louca” nesse contexto é uma tentativa machista de silenciamento. (Foto: Laila Mouallem)

Por fim, ela diz que tem a esperança de que mesmo que nada aconteça com Luiz, que ele entenda que o comportamento dele é reprovável perante a lei. Assim, Camila parou de se ver como “a louca da história”, uma vez que a violência psicológica tende a ser negligenciada aos olhos da sociedade. E completa: “A nossa dor é a nossa dor. A violência não se mede. (…) Desde que o comportamento dele esteja afetando a sua vida de uma maneira que está te atrapalhando, tirando a sua tranquilidade, já é suficiente para pensar se isso não é violência psicológica”.

*Nomes fictícios ― não tão fictícios assim. Afinal, são inúmeros os nomes que estão em relacionamentos abusivos nesse exato momento.

Centro de Referência da Mulher 25 de Março

Rua 25 de Março, 205 – Centro, São Paulo – SP

(11) 3106-1100

Delegacia de Defesa da Mulher

Av. Corifeu de Azevedo Marques, 4300 – Centro, São Paulo – SP

(11) 3768-4664

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