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O drama e a história envolventes de um grande hotel
CINÉFILOS
30 abr 2019 | Por Cinéfilos

Por Laura Toyama
laura.toyama@usp.br

A trama começa com uma voz distante, convidativa, que motiva um grupo de jovens num bote, prestes a desembarcar na cidade onde tudo acontece. A cena calma, o semblante tranquilo deles, nada se parecem com o restante do filme, que é feito de picos de tensão e medo. Baseado em uma série de atentados ocorridos em Mumbai, na Índia, em 2008,  Atentado ao hotel Taj Mahal (Hotel Mumbai, 2019) é um retrato comovente e cativante dos dias de tragédia que a capital financeira do país viveu e que girou em torno de um luxuoso cinco estrelas.

O enredo é formado por diversas narrativas, unidas pelo mesmo motivo aterrorizante: a presença de fundamentalistas islâmicos que acreditam que os infiéis de Alá merecem a morte, e não a riqueza que ostentam no conhecido hotel Taj Mahal. Há a tentativa de humanizar os personagens responsáveis pelos ataques, um pequeno grupo de rapazes humildes e confusos comandados por um líder anônimo, que acreditam num deus e na melhora de suas condições de vida. Entretanto a história peca ao trazer a tona estereótipos muçulmanos já batidos, como a ligação direta da religião com motivações violentas e o retrato dos fiéis como irracionais e manipulados.

Depois de cenas de ação e mortes em série, cria-se rapidamente o clima de seriedade, que acompanha o espectador até os minutos finais. As trocas rápidas de quadros entre enfoque nos personagens e seus destinos dá uma dinâmica ao filme, que expressa bem a tensão e incerteza vividas por eles do começo ao fim.

O contraste entre a beleza do saguão do hotel e os corpos ali caídos se traduz numa dramaticidade que confere maior peso a cada morte no longa. É impossível ignorar as manchas de sangue no luxuoso chão de mármore, impressão que se reflete na agonia de quem passa por ali tropeçando em pessoas espalhadas, numa rota de fuga, desespero, ou os dois. As cores vibrantes da maioria das cenas nos desperta esse alarmismo que sonda o roteiro por completo e nos prende aos muitos ambientes em que se passa.

Arjun, dedicado funcionário do cinco estrelas que se arrisca pelos hóspedes e colegas [Imagem: Copyright Arclight Films]

O funcionário Arjun (Dev Patel), é apresentado ao público junto de sua família, criando desde o início uma âncora importante que nos faz torcer pela sua sobrevivência em meio ao caos. Seu destino se cruza com o do casal David (Armie Hammer) e Zahra (Nazanin Boniadi), pais de primeira viagem, que enfrentam o horror da possibilidade de perder sua família recém formada. Estão acompanhados da corajosa babá Sally (Tilda Cobham-Hervey), que o tempo todo zela com cuidado maternal por um filho que não é seu. Ora juntos, ora separados nas dependências do hotel, esses protagonistas e outros personagens se unem numa luta incessante pela sobrevivência, que envolve conflitos internos, difíceis escolhas e dilemas.

A atuação do protagonista é impecável como de costume. Dev Patel é certeiro em sua interpretação de Arjun: corajoso, recatado, comprometido com o trabalho, com a família e sua religião. Mas na contramão de sua ótima atuação, está a escolha quase previsível  do ator britânico para viver um indiano no cinema ocidental. Certamente a escolha de elenco para o papel não carecia de outros profissionais que pudessem vivê-lo com êxito, e está mais do que na hora de Hollywood e seus discípulos tirarem os holofotes dos artistas já consolidados no meio e passarem a iluminar o talento de jovens de outras nacionalidades (sobretudo na Índia que tem grande potencial na produção da sétima arte).

O filme é o primeiro longa de grande exibição do diretor Anthony Maras, que faz sua estreia em grande estilo com Atentado ao Hotel Taj Mahal. Nas duas horas de duração, é difícil tirar os olhos da tela. O suspense e a sensibilidade são devidamente combinados para compor uma trama emocionante e perfeitamente concluída com uma lembrança e homenagem às vítimas reais dos atentados.

A apresentação do hotel e a profundidade das histórias narradas ali nos fazem imergir num sentimento de compaixão, e de alegria por ver com os próprios olhos que a memória do Taj e daqueles que deram a vida para protegê-lo foi contada de forma tão sensível.

O filme estreia no dia 2 de maio nos cinemas. Confira o trailer:

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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