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Autismo: O Musical – Como a arte pode mudar vidas
CINÉFILOS
03 jun 2013 | Por Jornalismo Júnior

É muito difícil encontrar um filme tão tocante quanto Autismo: O Musical (Autism: The Musical, 2007). Não digo isso somente por tratar de crianças portadoras desse distúrbio neurológico, mas sim da sua simplicidade e carinho na representação dos indivíduos que participam de toda a produção – sejam eles as próprias crianças, seus familiares e amigos do The Miracle Project, que organiza o musical.

Elaine com as crianças do “The Miracle Project”. Divulgação HBO

Elaine com as crianças do “The Miracle Project”. Divulgação HBO

O autismo
O distúrbio comum a todos os protagonistas deste filme pode ser encarado como uma disfunção global do desenvolvimento, afetando a capacidade de comunicação, socialização e comportamento dos indivíduos, mas o documentário se propõe além de uma revista médica e – ao dar um “rosto” para os casos do distúrbio, tratado do autismo neste grupo de crianças e seus familiares, consegue construir uma maior aproximação com o público; além, é claro, de legitimar sua argumentação a favor da arte como um possível tratamento ou sociabilização para as crianças. Em fade, o filme começa com estatísticas do  CDC (Centro de Controle de Doenças americano). “Em 1980, uma a cada 10 mil crianças foram diagnosticadas como autistas. Em 2007, ano em que o filme foi realizado, uma em cada 150”, e o distanciamento cirúrgico do enunciador para por aí.

O documentário vai além de apresentar um grupo de crianças autistas cantando – como o título pode enganar -, sim, é evidente que em algum momento um “musical” acontecerá, mas o The Miracle Project traz o teatro e a música como válvulas de escape para os portadores do distúrbio, e de certa forma, busca viabilizar uma forma de vida melhor para as crianças escolhidas pelo projeto.

Logo no início do filme, Elaine, a criadora do projeto e mãe de autista conta sobre suas motivações para a realização do Miracle. Ao levar seu filho a doutores e submetê-lo a tratamentos mais comuns, encarou que o grupo de especialistas não tinha preparação para lidar com a doença – e que diziam, inclusive, que seu filho era “incomum” demais. Isso incentivou Elaine a buscar o “incomum”: trouxe para sua casa artistas e pessoas envolvidas com o teatro, pois segundo ela, diferentemente dos médicos, “eles não têm problema em encarar aquilo que é fora do comum”.

As famílias e as mães
É interessante notar que a construção do filme é baseada em alguns eixos que se cruzam em diversos momentos. São narrados tanto os processos de criação, ensaio e apresentação do musical, bem como a história de alguns “protagonistas” – estas realizadas a partir de vídeos caseiros e depoimentos no formato de entrevistas, já clássicos do gênero. Essa opção dá o tom de aproximação àquelas famílias que, já entregues ao projeto, compartilham de dores, angústias e medos com o expectador.

A emoção é maximizada ao trazer para as telas relações familiares e interpessoais, tanto que podemos facilmente nos identificar em momentos catárticos: Aquele almoço de domingo com a família, a festa de aniversário ou o momento da tarefa de casa tomam outra dimensão quando captados pelas câmeras. Percebemos o quanto a vida das crianças autistas é próxima e ao mesmo tempo distante da nossa – um paralelo traçado, inclusive, para apresentar momentos de fuga dos portadores do distúrbio, um dos sintomas mais evidentes da doença.

Momento de ensaio do musical. Reprodução HBO

Momento de ensaio do musical. Reprodução HBO

Além da história ser guiada pelo projeto idealizado por Elaine, outras mães também são dotadas de grande importância para o desenrolar da história. São elas as que sempre estão frequentando os ensaios e contribuindo para o processo de socialização de seus filhos. Muitas delas assumem a culpa pelo distúrbio de seus filhos e o filme deixa esta interpretação bastante clara ao contar a história de mães que foram abandonadas ou traídas pelos maridos que não aguentaram a pressão de cuidar de um filho autista.

Rosanne Katon-Walden, que em sua juventude era modelo e capa da Playboy, se vê em uma relação artificial com o marido que a traiu e acaba por projetar todos seus sonhos e expectativas para o filho Adam que sempre, a seu pedido, está ensaiando o violoncelo. Quando vê que seu filho pode não ter um solo, pensa inclusive em abandonar o projeto sem ao menos levar em conta como ele é importante para o desenvolvimento da criança. Ela e todo o “elenco” de pais e mães têm que lidar com os conflitos familiares e casamentos difíceis ao mesmo tempo em que se ocupam com as necessidades, às vezes imensas, que seus filhos autistas possuem.

 

 Adam durante a apresentação do musical. Reprodução HBO

Adam durante a apresentação do musical. Reprodução HBO

O filme, reproduzido inicialmente pela HBO – após um curto período de exibição nos cinemas americanos -, recebeu em 2008 dois prêmios Emmy, incluindo “Outstanding Nonfiction Special”, algo como “Prêmio Excepcional de Especial de Não-ficção”, em tradução livre.

Algo também no Brasil
O grupo de origem carioca com Oswaldo Montenegro, a Oficina dos Menestréis, apresenta em São Paulo, no teatro Dias Gomes seu projeto AUT. Além de outros projetos com terceira idade, cadeirantes e portadores da síndrome de down; este espetáculo de direção do irmão de Oswaldo, Deto Montenegro, traz ao palco um pequeno grupo de autistas dispostos a apresentar sua arte.

A peça é o trabalho final de um curso voltado aos portadores do distúrbio que, como o projeto de Elaine, visa – por meio da arte – inserir socialmente jovens e adultos autistas.

por Fabio Manzano
frmanzano1@gmail.com

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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