Home Lançamentos ‘Axé: Canto do Povo de um Lugar’, o arrepio baiano
‘Axé: Canto do Povo de um Lugar’, o arrepio baiano
CINÉFILOS
16 set 2020 | Por Gabriella Ramus (gabriellaramus@usp.br)

Axé: Canto do Povo de um Lugar (2016) é um documentário que narra a vida (o surgimento, a ascensão e o declínio) do canto dos africanos em Salvador. Dirigido por Chico Kertész, o longa faz juz ao axé music expondo o que parece ser o espírito desse gênero musical: o arrepio.

A primeira vez que se escutou axé é descrita múltiplas vezes por membros da extraordinária lista de entrevistados. E a frase “me arrepiei” é recorrente. São cantores, engenheiros de som, produtores musicais, radialistas, mestres de bateria, técnicos de som, compositores e jornalistas. Todos oferecendo cor e perspectiva à história contada. E não devemos esquecer que não são quaisquer “cantores”. São eles Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Luiz Caldas, Gerônimo, Gilberto Gil, Daniela Mercury, Netinho, Claudia Leitte, Ivete Sangalo, etc. 

A narrativa é construída a partir desses mesmos nomes. O diretor optou por ter como fio condutor a série de artistas emergentes do gênero e suas respectivas inovações. Porém, tal escolha deixou o documentário um pouco cansativo de se assistir. O tema se distanciou de ser algo redondo e completo e passou a se assemelhar mais a uma linha de acontecimentos.

Todavia, não deixa de ser uma linha de acontecimentos muito bem feita. O desenvolvimento da narrativa é bem construído na medida em que as falas são o tempo todo costuradas nos próximos assuntos e complementadas visualmente. Não há nada fora do lugar ou truncado e o relato progride organicamente. 

O surgimento do trio elétrico, as inovações nos carros de som, a benção do estúdio WR (local em que os maiores sucessos foram gravados), o sucesso de “Fricote” de Luiz Caldas, o olofote do grupo Olodum, os consecutivos hits de Chiclete com Banana até a estrela Ivete Sangalo são todos descritos com ligações muito fluídas entre si. E mesmo a crítica final de individualidade extrema presente no axé — “cada um por si, Deus pelo axé”, como afirmado por Netinho — é muito bem colocada na história.

Ao mesmo tempo, fica sempre clara a relação do axé com o carnaval baiano e o surgimento dos blocos, que é o centro do documentário. Também é importante ressaltar o notável acervo de fotos, vídeos, trechos de programas de televisão e entrevistas utilizado na longa. O qual contribui para o documentário tornar-se mais verossímil ao olhos do espectador.

 

Imagens raras acompanham a narrativa do axé, demonstrando o poder do ritmo baiano [Imagem: Metrópoles] 

Imagens raras acompanham a narrativa do axé, demonstrando o poder do ritmo baiano [Imagem: Metrópoles]

Contudo, essa costura admirável no roteiro poderia ter reflexos melhores nos recursos audiovisuais. As aparições de títulos, a fonte escolhida e, principalmente, as transições poderiam ser mais ousadas. Logo, o filme perdeu um pouco de seu caráter artístico e se aproxima da versão visual de um capítulo de um livro didático sobre movimentos musicais.

De qualquer forma, Axé: Canto do Povo de um Lugar cumpre seu propósito e conta a história do axé. É uma ótima lição não só sobre o ritmo, como também os sentimentos e o arrepio do povo de Salvador. Por isso, merece ser assistido. 

O documentário está disponível para todos as assinantes da Netflix. Confira o trailer:

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*