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Axé pra quem é de axé!

A Umbanda é uma religião tipicamente brasileira, muitas vezes confundida com o Candomblé ou mesmo com o espiritismo. Afinal, o que é Umbanda?

JPRESS
10 jan 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Renan Sousa (renan.sansou97@usp.br)

No lugar

“Quando a gente chega, tem que cumprimentar aquele altarzinho ali do lado da porta”. Assim, Ligia Marquezani me apresenta ao local. É a primeira vez que entro em um terreiro. A porta fica destrancada, pode entrar quem quiser. Dou de cara com uma estante, diversos livros sobre Allan Kardec, mediunidade. Uma pequena placa contém o aviso: “O aprendizado eleva sua condição. Leia enquanto aguarda sua vez”.

Lígia me conta como conheceu a religião. Ela e uma amiga eram de um centro espírita, mas por divergências ideológicas com a casa (como são chamados centros religiosos), ambas acabaram se afastando do kardecismo puro. Em junho de 2013, ela começa a frequentar o local onde me encontro. “A primeira guia que você recebe é branca, para simbolizar a pureza de Oxalá. Depois, ou você ganha outras, ou compra”, ela me diz, enquanto me mostra suas duas guias.

Origens

Segundo o documentário O Que É Umbanda?, Zélio Fernandino de Moraes foi o primeiro a sintetizar uma série de elementos que constituem uma religião, em 15 de novembro de 1908, como os sacramentos e a liturgia. “Experiências mediúnicas”, explica Alexandre Cumino, teólogo de umbanda, “sempre existiram na história da humanidade e a interpretação delas é que muda de religião para religião”.

O sincretismo com o culto católico desde a época dos escravizados fez com que diversos elementos se mesclassem ao longo da história. Os guias espirituais, chamados Orixás, tem muita semelhança com santos do cristianismo. Alguns exemplos: Jesus é cultuado como Oxalá; Ogum, como São Jorge; Oxossi, São Sebastião; Ibeji, Cosme e Damião; Obaluaiê, São Lázaro; Omulú, São Roque; Mãe Oxum, Nossa Senhora da Conceição; Xangô, São Gerônimo; Iemanjá, Nossa Senhora dos Navegantes, e por aí vai. São cultuados e aproximados por possuírem as mesmas qualidades dentro de religiões diferentes.

As linhas de estudo da religião englobam alguns orixás específicos em seus estudos. Podem ser estudados em grupos de sete a dez orixás.

“Mas o sete é o número mais aceito”, conta Alexandre. A história conta que Zélio Fernandino de Moraes incorpora o Caboclo das Sete Encruzilhadas, pois são sete as energias do universo. “Deus é um só, mas ele se manifesta em vibrações diferentes, vontades diferentes: os Orixás”, ele conta. Por serem Sete Caminhos, Sete Encruzilhadas, Sete Vibrações, o Caboclo haveria afirmado: “Não existem caminhos fechados para mim”.

Já as linhas de trabalho espiritual são a maneira como o espírito incorporado se manifesta no corpo do médium. As principais são a de Caboclo, Preto Velho, Criança (que podem ser Exú e Pomba Gira), Baiano, Boiadeiro e Marinheiro. Cada um se manifesta com um conhecimento ou sabedoria ligados à sua representação.

Um adendo interessante que Alexadre faz é que “todo mundo fala que Exú é um espírito do mal. É tudo mentira. A Umbanda é uma religião que prega o bem, a bondade, a união”. Ele explica que a confusão existe porque Exú é um espírito livre, um guia que está mais próximo à humanidade. Uma vontade manifesta, portanto, mais flexível, muitas vezes confundida com gandaia, malandragem, até mesmo um caráter libidinoso.

A manifestação corporal varia, pois, apesar de Deus ser um só, as pessoas são diferentes. “Como uma pessoa que vive no meio do deserto vai entender Deus da mesma maneira que um índio na Mata Atlântica? Não é possível”, ele diz. A própria maneira de falar é divergente, porque o entendimento das entidades é diferente.

Onde entram os espíritas?

Como citado anteriormente, Ligia e a amiga se desligaram de uma casa kardecista. Diferente da primeira, Regina Marta Sousa ainda segue os preceitos do Espiritismo. “Eles divergem em pontos importantes, porém são muito próximos”, conta. A mediunidade não é manifesta na incorporação direta do espírito. Este se faz presente como guia, mas não pode interferir diretamente no plano humano, estando restrito a trabalhos no plano dos espíritos. A comunicação, a manifestação com eles é totalmente diferente. Há uma estrutura religiosa, ritualística, simbólica que não existe no espiritismo.

“Eu acho a energia forte demais pra mim. A Umbanda é uma religião forte, densa, não faz muito a minha cara”, conta Regina, que estudou durante oito anos em uma casa kardecista.

Estruturalmente falando

Quando fui à essa casa, pude confirmar isso. Guardam muitas semelhanças, mas são diferentes: a manifestação energética é outra. Enquanto os umbandistas evocam energias mais ligadas à terra, aos humanos, às vontades humanas, os espíritas buscam um contato mais próximo com o plano dos espíritos, uma liturgia diferente. Há luzes que criam um espectro azulado, dando a impressão de estarmos imersos em uma tênue dimensão, como um tecido fino, em que era possível tocar o intocável.

Antes de entrar, toma-se um passe, uma purificação do mundano. Mais ao fundo, no local onde ocorre a cerimônia, diversas cadeiras de plástico dispostas em fileiras, viradas para um altar: um pequeno palco onde posa um microfone e uma mesa com toalha branca.

Os cânticos, rezas e santos lembrariam uma igreja evangélica, não fosse, novamente, pelas luzes azuis e o clima de pacificidade instaurado.

Já na casa de Umbanda, a impressão que se tem é de estar entrando na casa de alguém. No local onde se contactam os espíritos, tiram-se os sapatos em uma sala com piso de madeira. Mais à frente, cumprimenta-se o altar, onde repousam imagens de diversos santos. Ao centro dele, uma grande imagem de Oxalá (Jesus) em um pedestal. Aos seus lados, menores e mais baixos, os santos-orixás seguintes. Não se usa o termo “de menor importância”, por serem todos manifestações de um mesmo Deus, apesar da aparência.

A depender de com qual entidade se está falando, senta-se em um banco baixo de madeira, ou no chão, mesmo. O clima intimista é reforçado pelas luzes das velas. São diversas entidades incorporadas, sentadas contra as paredes. Fala-se frente a frente, cada um com seu cada qual, a questionar sobre a vida, suas situações particulares, o marido que passa um nervoso, o momento difícil com a mãe. Há pedidos de proteção, saúde, mas, acima de tudo, sabedoria.

Essa é uma das diferenças sutis que se sente entre as religiões. Pedir sabedoria. Não pedem força, pois essa se esvai. Não pedem paciência, pois essa se acaba. Tampouco, fortuna. Mas pedir por sabedoria mostra como a religião encara a adversidade e seus fiéis as interpretam.

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