Home Lançamentos Benzinho: Quando o que temos de mais comum vira poesia
Benzinho: Quando o que temos de mais comum vira poesia
CINÉFILOS
23 ago 2018 | Por Jornalismo Júnior

(Foto: Bianca Aun)

Três casas: uma em ruínas, uma para vender e outra em construção. Parecem representar respectivamente o presente, o passado e o futuro da família que protagoniza o longa Benzinho (2018), escrito e dirigido por Gustavo Pizzi. A maior parte do filme se passa dentro dessas edificações ou, no mínimo, falando sobre elas.

A história começa com Irene (Karina Teles, que além de interpretar também auxiliou na construção do roteiro), um pouco perdida entre consertar a torneira da pia que está vazando, discutir com os filhos mais novos que não entendem suas restrições e sair de casa pela janela, porque a maçaneta da porta não abre.

Na sequência, eles buscam o filho do meio e seguem todos para o jogo de handebol de Fernando, o filho mais velho. Lá, a família se encontra com o pai, personagem de Otávio Müller, e Sônia, irmã de Irene interpretada por Adriana Esteves, que aparece com um olho roxo depois de uma briga com o marido. Assim, a casa que já era pequena para a mãe, o pai e seus quatro filhos, tem ainda que abrigar a tia e o sobrinho que precisam se afastar do ambiente violento em que estavam antes.

É na cena seguinte a essa que se dá o primeiro ponto de virada do filme, e o som é o principal personagem desse momento. Uma música de fundo que passa uma sensação de desespero vai crescendo aos poucos enquanto a conversa da família se confunde, conforme a mãe chama incessantemente o filho para comer e o resto da mesa decide sobre o destino do maior pedaço de pizza.

No quarto ao lado, Fernando, papel de Konstantino Sarris, recebe a notícia de que foi chamado para jogar profissionalmente na Alemanha. Ele, então, vai até a família contar a novidade. Nesse momento a música que estava baixa anteriormente começa a aumentar e a câmera passa pelas pessoas ao longo da mesa mostrando como cada uma recebe a notícia, aponta para a comemoração dos irmãos e termina no rosto de Irene, que sorri, mas tem o olhar distante.

Ela se levanta e dá os parabéns ao filho, no entanto, quase que no mesmo instante, a torneira que ela tentava consertar mais cedo naquele dia, volta a vazar, molhando todos que estavam perto. A música chega ao seu máximo, todos começam a gritar e apesar dos esforços, cada vez mais água sai, até que a única solução é fechar o registro.

A partir daí o filme conta todo o processo pelo qual a família , passa até a viagem de Fernando, principalmente a mãe. Ele mostra os sentimentos e os dramas familiares retratados de forma física na casa em que eles moram. Além dos problemas de encanamento e fechadura, outros também começam a aparecer, como a fiação que começa a falhar, as rachaduras que aumentam cada vez mais, até que se torna impossível continuar naquele ambiente.

Um dos melhores enquadramentos do filme, que ajuda a mostrar a ligação entre mãe e filho (Foto: Bianca Aun)

Assim, entram em debate outras questões, como a casa de praia que eles têm. O pai, Klaus, quer vender dizendo que esse dinheiro ajudaria nos seus negócios e, ainda, na construção da outra residência da família. Irene não gosta de falar sobre o assunto e inventa desculpas para não vender o local. Essa incapacidade de se desfazer da casa acaba conversando diretamente com a dificuldade de ver o filho ir embora. Ela tem medo de que vender a residência signifique perder todas as lembranças que teve ali, assim como tem medo de que o filho não volte mais.

A não confirmação do retorno de Fernando é colocada ainda quando eles estão reunidos com o pedreiro para decidir a divisão dos ambientes da nova moradia. Irene propõe que cada filho tenha seu próprio quarto, incluindo Fernando, o qual protesta dizendo que não pretende voltar, e a mãe então se entristece mais uma vez.

Outra situação bem explorada pelo filme é a maternidade como uma profissão difícil e solitária. Em vários momentos Irene se vê sozinha tendo que cuidar de tudo porque o marido, embora seja muito carinhoso e companheiro na maioria das vezes, se preocupa mais em ganhar dinheiro e resolver os problemas relacionados a isso do que em estar presente.

Irene e Klaus em momento de cumplicidade (Foto: Bianca Aun)

O desempenho desse papel de mãe faz com que ela seja uma pessoa frustrada profissionalmente, e nos poucos momentos em que se dedica a si mesma, não tem o devido apoio em casa e se chateia com sua impotência diante de tudo. Isso é colocado no longa em dois momentos muito distintos.

No primeiro, após uma discussão com o marido, Irene coloca um fone de ouvido e uma música muito alta, assim, vai dançando e cantando enquanto prepara várias comidas e doces diferentes, os filhos acordam sem entender o que está acontecendo. A mãe que eles enxergavam como centrada e responsável parecia se perder em um momento de libertação completamente estranho para eles.

O segundo é quando a mãe volta tarde para casa por causa de uma entrevista de emprego, encontra os três mais novos sozinhos e um deles passando mal. Irene se sente mais uma vez frustrada e sozinha. A cena termina com ela deitada no chão depois de dizer para o resto da família que a responsabilidade de manter tudo aquilo não é só dela.

É importante destacar na produção o fato de que, salvo por duas mulheres, o elenco é essencialmente masculino. No entanto, Irene e Sônia, seja pelas incríveis atuações de Karina Teles e Adriana Esteves ou pela importância que as personagens têm no roteiro, são mulheres que passam uma força e segurança enormes, gerando empatia e identificação.

Além do papel de Adriana colocar em pauta a questão da violência contra a mulher, e, mostrar a dificuldade de se viver nessa situação. Em diversos momentos Sônia se mostra decidida a não passar mais por isso, no entanto, não fosse a intervenção da irmã e do cunhado na maioria das vezes, as conversas com o marido terminariam de forma muito pior.

E isso tudo é só o que o longa propõe como reflexão para os espectadores através do roteiro, das atuações e da direção. A fotografia do filme ainda traz luzes e texturas incríveis que dão uma sensação de aconchego para quem assiste, daqueles que só se sente mesmo em casa. Os enquadramentos também ajudam a dar a sensação de aperto que o filme pede em determinados momentos, e auxilia a contar a história da separação da mãe e do filho de forma visual. E a direção de arte completa perfeitamente os quadros, enfatizando as questões que cada uma das três casas apontam.

O diretor Gustavo Pizzi, a produtora Tatiane Leite e a co-roteirista e protagonista Karina Teles ainda falaram em coletiva de imprensa sobre o título Benzinho. Segundo eles o objetivo era aproximar os espectadores, já que é comum as pessoas chamarem alguém querido por um apelido. Pode-se dizer que isso serviu muito bem ao intuito do filme de falar sobre algo tão comum, como as relações em família, de uma forma tão poética.  

A obra entra em cartaz no dia 23 de agosto, veja o trailer:

Por Maria Laura López
laura_lopez.8@usp.br

 

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*