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‘Besouro Azul’: latinidades tentam se destacar em gênero saturado

Com Bruna Marquezine no elenco, a mais nova aposta cinematográfica da DC apresenta a história de origem do herói Besouro Azul

CINÉFILOS
18 ago 2023 | Por Ester de Brito (ester.brito@usp.br)

Besouro Azul (Blue Beetle, 2023) não escapa das fórmulas que são usadas constantemente em filmes de super-herói nas últimas décadas. Além das lições de moral aprendidas de forma árdua, o longa ainda conta com sequências de puro caos enquanto o protagonista aprende a usar seus poderes, cenas de ação com efeitos visuais questionáveis, piadas jogadas aqui e ali e transportes temáticos que, por algum motivo desconhecido, todos os personagens sabem pilotar. 

O filme acompanha Jaime Reyes (Xolo Maridueña), um jovem latino recém formado na graduação que volta para casa cheio de ambições para o futuro, frustradas pelas dificuldades financeiras da família. Em busca de um emprego, ele conhece Jenny Kord (Bruna Marquezine), herdeira de uma empresa de tecnologia gigantesca dirigida por sua tia avó, Victoria Kord (Susan Sarandon). Inesperadamente, Jaime toma posse de uma biotecnologia alienígena com mente própria que, ao se fundir ao jovem, protege e concede habilidades sobre-humanas para o hospedeiro. Enquanto Victoria pretende recuperar o besouro para criar exércitos de destruição, Jaime deve impedi-la e salvar a todos.

A aposta para tornar o filme único dentro de um gênero tão saturado é a cultura latina e a relação familiar entre os personagens. Os pais de Jaime (Damían Alcázar, Elpidia Carrillo) não tem muita função além de trazer ensinamentos ocasionais em cenas descartáveis. O destaque fica com a irmã mais nova, Milagro (Belissa Escobedo), que, com certo cinismo perante ao mundo, tem boas piadas sobre classe, raça e o status social da família na cidade segregatória em que vive, além de convencer nas cenas dramáticas. Outro personagem notável é o Tio Rudy (George Lopez), que conta com múltiplas habilidades convenientes para o roteiro e assume o papel de alívio cômico da trama, apesar de metade das suas piadas não serem efetivas, uma vez que deixaram a sala de cinema em silêncio. A Nana (Adriana Bazarra) rouba a atenção nos últimos trinta minutos do filme e ganha espaço como a maior personagem, a ponto de merecer o protagonismo e um spin-off para contar sua história na época em que lutava contra o imperialismo como revolucionária.

Xolo Maridueña carrega o papel principal com competência. Apesar de seu personagem não ter um arco interessante, o ator tem carisma suficiente para despertar a simpatia da audiência em meio à saturada jornada do herói. A personagem de Bruna Marquezine, Jenny, provoca menos simpatia por criar situações “sem querer” e não sofrer as consequências por isso. Já os vilões são cartunescos e imemoráveis, além de caírem no esquecimento assim que o filme acaba. Victoria é um tipo de vilã que já surgiu em inúmeros filmes antes de Besouro Azul, e ainda contou com o conhecido monólogo explicativo de motivações pessoais para tanta vilania. O Conrad Carapax (Raoul Max Trujillo) tinha potencial para ser um vilão mais interessante com nuances morais, mas, infelizmente, é reduzido a um capanga meio ciborgue com falas piegas, como “sua família te torna fraco”.

Dirigido por Angel Manuel Soto e escrito por Gareth Dunnet-Alcocer, Besouro Azul anda em uma linha tênue entre ótimas referências à cultura popular latino-americana – como Chapolin (El Chapulín Colorado, 1973) e Maria do Bairro (María La Del Barrio, 1995) – e estereótipos propagados há anos pela grande mídia. Além disso, o filme tenta trazer um teor político focado na história do imperialismo na América Latina, mas não se aprofunda no assunto para torná-lo relevante para a trama, o que dá a sensação de que foi um tema jogado de última hora. A representação latina é mais efetiva quando acompanha o tom proposto pelo filme desde o início.

Infelizmente, uma família carismática e boas referências latinas, não são suficientes para mudar o fato de que Besouro Azul parece com outras dezenas de filmes de heróis que chegam nos cinemas todos os anos. O longa poderia se destacar mais se focasse no que torna ele único, ao invés de dar tanta atenção para uma trama com grandes corporações construtoras de armas com tecnologia alienígena. No fim, a comunidade latina ganhou um filme de heróis medíocre dedicado à ela.

O filme já está em cartaz nos cinemas. Confira o trailer:

*Imagem de capa: Divulgação/Warner Bros

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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