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Blackfish: o documentário que vem abalando uma indústria milionária
CINÉFILOS
11 jun 2014 | Por Jornalismo Júnior

por Ana Luísa Fernandes
ana08m@gmail.com

O documentário Blackfish – Fúria Animal teve como motivação principal a morte da treinadora de orcas Dawn Brancheau, que morreu em fevereiro de 2010. Dawn trabalhava no parque aquático SeaWorld, na Flórida, e foi afogada e mutilada pela baleia com a qual se apresentava nos shows, Tilikum. Relatos chocantes mostram que a baleia arrancou o couro cabeludo e o braço da treinadora. À primeira vista, o animal pode ser facilmente relacionado ao filme Orca – A Baleia Assassina (Orca,1977). Entretanto, Blackfish tem a intenção de mostrar uma visão contrária: acidentes com orcas e seus treinadores têm raízes mais antigas e profundas do que se imagina.

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O filme traça um breve histórico da vida de Tilikum através de seus ex-treinadores, mostrando desde a sua captura no Atlântico Norte em 1983, quando tinha apenas dois anos de idade, até a morte de Dawn e os dias atuais. Durante a sua trajetória, vemos o sofrimento de Tili (como assim era conhecido pelos treinadores) em um aquário público, o Sealand of the Pacific, no Canadá. Como contam os ex-treinadores, ele era confinado em um cubículo minúsculo junto com outras baleias que o agrediam, por ser menos experiente. Além disso, passava fome.

No ano de 1991 ocorre a primeira tragédia envolvendo o personagem principal: a treinadora Keltie Byrne escorregou e caiu na piscina. Tilikum e outras duas orcas arrastaram Keltie para o fundo, matando-a por afogamento. Após o acidente, Tilikum foi vendido para o SeaWorld, onde foi novamente agredido por outras baleias fêmeas e posteriormente colocado em isolamento. Em 1999, outra morte envolvendo Tilikum. O corpo de um homem nu foi encontrado nas costas do animal. O caso não é claro, e a versão oficial diz que a causa da morte foi hipotermia, apesar de o corpo também ter sido mutilado.

A crítica que o documentário faz não se atém aos maus tratos cometidos pelos parques aquáticos: ela chega também na maneira com a qual esses parques lidam com a repercussão dos casos de agressão baleia – treinador. A indústria se esforça muito para manter a imagem de que as orcas são muito felizes em cativeiro e que jamais agrediriam alguém e que se agrediram seria por algum movimento errado do treinador. “Se Dawn estivesse aqui hoje ela diria que foi um erro dela”, “Tilikum não era um animal agressivo”. São frases ditas pelos representantes do SeaWorld. Afinal, quem assistiria a um show de uma baleia instável e perigosa?

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Dawn Brancheau e Tilikum

Especialistas em orcas e neurocientistas também dão depoimentos, o que contribui para a construção da tese de que a agressividade não é um comportamento normal das orcas. Na verdade, são seres dóceis e amigáveis, que criam fortes laços nos seus grupos. O que causa a psicose nas baleias é o confinamento, a agressão e o mau trato. Prova disso é um fato curioso explicitado no documentário: não há registro de orcas em seu habitat natural que tenham feito mal a humanos.

O documentário retoma uma discussão antiga: é válido o cativeiro de animais para o entretenimento humano? Baleias que normalmente nadam 160 km por dia deveriam ficar presas para realização de shows e exposição? A posição clara do filme é não, animais tão grandiosos e com “grande poder espiritual” não deveriam ficar presos. O SeaWorld já sentiu os efeitos da agitação que o filme causou: vários cantores cancelaram shows no parque e só no início do ano de 2014 o número de visitantes caiu quase 15%, além dos inúmeros protestos. O parque também foi processado após a morte de Dawn pela OSHA (Occupational Safety and Health Administration), órgão americano que regula as condições de segurança no trabalho. Após perder o processo, o SeaWorld ficou proibido de manter os treinadores na água com as baleias durante os shows.

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Protestos contra o SeaWorld

Mais do que uma denúncia, Blackfish é um documentário forte e comovente, que leva a uma reflexão profunda não só sobre orcas em cativeiro, mas também sobre liberdade. E principalmente: qual direito nós, humanos, temos sobre esses animais? As cenas de vida livre das baleias respondem essa pergunta: nenhum. Tilikum ainda vive no SeaWorld e se apresenta ao final dos shows.

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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