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Capitão Fantástico – entre família e princípios
CINÉFILOS
20 dez 2016 | Por Jornalismo Júnior

Todo dia eles fazem tudo sempre igual, o detalhe é que estão no meio do mato. Todos acordam e tomam juntos o desjejum. Todos cuidam da horta e dos afazeres domésticos. Todos praticam exercícios físicos, às vezes até mesmo caçando algum animal ou escalando um penhasco. Mais à noite, todos leem clássicos da literatura, filosofia, política e ciência à fogueira, para encerrarem o dia tocando e cantando canções. Todos… Bo, Kielyr, Vespyr, Rellian, Zaja e Nai, nomes dos quais o pai, Ben Cash (Viggo Mortensen da franquia Senhor dos Aneis), se orgulha por serem únicos no mundo. O universo praticamente idílico e anticonsumista de Capitão Fantástico (Captain Fantastic, 2016) pode ser irreal, mas ele é sem dúvida nenhuma, admirável.

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Autossuficientes para sobrevivência, intelectuais pela formação e síncronos na essência homem-natureza, a família verá justamente seu mundo ruir quando a vida na sociedade moderna os chama. A morte da mãe das crianças que se tratava na cidade os tirará do sonho e os porá em choque com uma realidade agora idílica a eles para o que tinham antes. Num conto sobre família, independência e descoberta, o que mais se destaca são as personagens e a dinâmica de relações que será travada tanto entre eles mesmos, quanto entre eles e o mundo afora.

E para isso, é muito importante que todas as personagens tenham tempo de tela para se desenvolver e então introduzir o espectador para dentro daquele núcleo familiar. Só conhecendo a instrução que eles recebem, que podemos acreditar mais adiante que Zaja, de seis anos, consegue interpretar emendas constitucionais ou que Vespyr, perto dos seus 16, escala qualquer telhado como se subisse uma escada. Assim, quando deixamos o microcosmo selvagem deles, não só já identificamos as personalidades, como o road movie que se sucede passa a ser também uma viagem pelo próprio psicológico de cada um.

Transitando bem entre momentos dramáticos e outros mais cômicos (como uma cena envolvendo fanatismo religioso), o roteiro é exemplar em inspirar leveza às dificuldades dos jovens. Desse modo, se por um lado Bo despeja teorias de física quântica, por outro ele é incapaz de estabelecer uma conversa com qualquer garota. Como ele mesmo questiona o pai em determinado momento, não se aprende a viver apenas a partir das palavras de um livro, mas também pelas ações. Aqui Capitão Fantástico ganha complexidade. Por mais que a realidade deles seja livre e sem tabus, eles nunca estarão preparados para a vida de fato. Tão liberal como é, o pai acaba sendo o ditador da própria liberdade. Fato este que será bastante questionado por todos que vivem na sociedade “civilizada”, e em especial o avô, que será tomado como antagonista (não vilão) por não querer ceder a um enterro mais “hippie” que sua filha desejava.

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Porém, por mais que esse conflito ganhe destaque, à certa altura, ele é simplesmente descartado de forma abrupta. Talvez uma cena a mais bastasse para que a transição fosse (como o filme todo) mais sutil, e o desfecho pudesse então engatar. De qualquer forma, considerando o tema central da obra é justo que a conclusão se enverede por onde foi. Afinal, apesar do contraste de realidades e do idealismo subversivo, é a valorização e o respeito à família que estão em jogo em Capitão Fantástico. Em meio a tantos choques, o final é emotivo e poderoso. E se por um lado, a fotografia bastante colorida e viva dos cenários naturais se destaque frente ao mundo cinzento da vida urbana, ela, por outro, também dá um caráter distante e ilusório, como qualquer extremo na vida. O fantástico estará então na capacidade de enxergar o melhor dos dois mundos.

Capitão Fantástico estreia em 22 de dezembro. Confira o trailer!

por Natan Novelli Tu

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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