Home Na Estante Adeus ao imaginário de Zafón: ‘A cidade de vapor’
Adeus ao imaginário de Zafón: ‘A cidade de vapor’

Livro reúne onze contos — alguns inéditos — que mesclam mistério, terror e magia em enigmáticas e perturbadoras histórias

Na Estante
17 abr 2022 | Por Lara Paiva (larapaiva@usp.br)

A cidade de vapor (Companhia das Letras, 2021), publicado postumamente, é uma coletânea de contos do autor espanhol Carlos Ruiz Zafón. Com uma fusão de mistério, terror, magia e um estilo tão melancólico quanto macabro, o autor inclui personagens e acontecimentos de sua icônica série de livros, O Cemitério dos Livros Esquecidos

A prosa é envolvente e cheia de descrições peculiares, típicas de Zafón, para quem o amanhecer “ensanguenta de escarlate o horizonte”. Os temas explorados são igualmente angustiantes: a injustiça do destino, a fugacidade da vida. As histórias se conectam não só pelo tom taciturno, mas também pelo cenário: Barcelona, cidade pela qual o autor era apaixonado. Ao contrário do comum retrato feito da “cidade de prodígios”, assim chamada por Eduardo Mendoza em seu livro homônimo, a Barcelona de Zafón é um tanto nebulosa e deprimente. Enquanto viajamos pelos séculos, a cidade passa por momentos sombrios, como a chegada da peste e os bombardeios da Guerra Civil Espanhola.

Fotografia em preto e branco do rosto de Carlos Ruiz Zafón, homem branco, calvo, com óculos de aros redondos e barba curta.

Carlos Ruiz Zafón viveu em Los Angeles e teve sua obra publicada em mais de 50 idiomas. [Imagem: Reprodução/Twitter]

Alguns dos contos são mais extensos (como O Príncipe do Parnaso, com quase cinquenta páginas), mas a maioria tem cerca de dez, e O apocalipse em dois minutos mal ocupa duas páginas. Mesmo assim, independentemente de tamanho, Zafón comunica solidão e desespero em suas histórias; faz críticas à sociedade e hipocrisias de seu tempo, e homenageia algumas das mais emblemáticas figuras espanholas. 

O livro tem um potencial emotivo imenso. Uma senhorita em Barcelona é de uma solidão particularmente desoladora. A adolescente Laia tem o talento de se transformar em outra pessoa a partir de uma foto. Assim ela satisfaz desejos de clientes desafortunados e que perderam a sua pessoa amada; pessoas que não a querem de fato, mas sim quem ela finge ser. Homens cinzentos mostra a degradação e o sofrimento nos quais Barcelona se submergiu com as sucessivas crises que viveu, com descrições bárbaras. Blanca e o adeus, que inaugura o livro, pode ser a mais misteriosa e delicada das narrativas sofridas. O jovem David Martín, protagonista de O jogo do anjo, vive uma paixão pela triste figura misteriosa de Blanca.

Zafón é o segundo autor espanhol mais lido no mundo, atrás somente de Cervantes. Este inclusive é personagem em O príncipe de Parnaso, que detalha a criação do Cemitério dos Livros, enquanto Cervantes vive uma grande história de amor e tristeza. “Um poeta é a única criatura que recupera a visão com o passar dos anos”, escreve o criador de Dom Quixote. A literatura, a criação de histórias e os livros têm destaque especial nesta obra,  em que vários personagens são escritores. Outros personagens históricos espanhóis também têm destaque, como Gaudí, arquiteto responsável pela criação do prédio mais fascinante de Barcelona, a Basílica da Sagrada Família. 

Em menos de 200 páginas, somos introduzidos ao mundo mágico e gótico de Carlos Ruiz Zafón. O autor, que enfrentou um câncer, deixa como legado obras que continuam a ser incógnitas para milhões de leitores ao redor do mundo e, por tantas contribuições à literatura contemporânea, permanece como um marco no hall estrelado de escritores do seu país.

*Imagem de capa: Lara Paiva/Jornalismo Júnior

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