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Cenas Improvisadas da História do Cinema
CINÉFILOS
04 maio 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Vitor Andrade
vitortheandrade@gmail.com

O improviso é uma parte essencial da formação de bons atores. Não há roteiro ou diretor minucioso o bastante pra que não seja necessário um raciocínio do próprio intérprete do personagem para fazer uma cena única. E os momentos mais sinceros e surpreendentes vem quando partem da cabeça e não do papel. Por isso as melhores falas vem dos atores que desafiam o script quando bolam algo melhor, em contraste com atores programados que fazem de toda expressão um clichê. Aqui estão os 10 mais conhecidos momentos de improvisação do cinema contemporâneo

 

Marlon Brando em Apocalypse Now

Em seu último papel de destaque, como o vilão Coronel Kurtz no aclamadíssimo filme de 1979, Marlon não estava com muita vontade de atuar. Ameaçou diversas vezes Coppola, dizendo que iria sair do elenco e que não havia lido o roteiro nem o livro. O ator estava numa fase deplorável: estava 40 quilos mais gordo, andava bêbado todo dia e bastante deprimido. Após muita conversa, ele foi convencido, porém exigiu que todas suas cenas fossem no escuro, já que não queria ser visto com os quilos a mais. Uma destas cenas é uma das mais famosas do filme e do cinema dos 70 como um todo: o monólogo sobre horror.. Ela foi completamente improvisada, porque Brando, desgastado e sem boa vontade, não conseguia decorar um monólogo inteiro. Então Coppola o deixou falar o que quiser até que não tivesse mais o que dizer. E assim o ator fez, resultando num dos discursos mais conhecidos das história do cinema.

 

 

Robert DeNiro em Taxi Driver

Robert DeNiro, conhecido como o “novo Brando”, teve seu primeiro grande papel neste filme de Martin Scorsese, como o taxista solitário Travis Bickle. A cena mais referenciada do longa é uma improvisação de DeNiro, já que no roteiro só estava escrito “Travis fala com si mesmo”. O “You Talking To Me?”(Tá Falando Comigo?) caiu muito bem no filme como uma maneira de mostrar a solidão e necessidade de estabelecer contato de Travis, que apresenta uma comportamento quase esquizofrênico no drama. Depois de muito tempo, foi revelado que ele se inspirou em um show de Bruce Springsteen para essa fala: em um momento em que os fãs gritavam seu nome, Bruce repetia: “You guys talkin to me?”. DeNiro, que assistia, guardou essa frase e decidiu fazer sua versão na gravação.

 

 

 

Joe Pesci em Os Bons Companheiros

O baixinho Joe é conhecido por seus papéis ítalo-americanos, principalmente em filmes sobre a máfia. O seu personagem mais célebre(que inclusive o rendeu um Oscar de ator coadjuvante) é Tommy DeVito, o mafioso veterano em Os Bons Companheiros(GoodFellas). Neste filme, Scorsese deixou os atores improvisarem repetidamente e escolhia o melhor conjunto de cena para o corte final. E assim, uma cena de transição virou uma das melhores dos filme: Pesci disse a Scorsese que uma vez ouviu dois mafiosos bêbados brigando porque um havia dito que o outro era engraçado. Scorsese deixou Pesci fazer uma “pegadinha”, e não contou para ninguém sobre o que seria dito. Então, após Tommy contar uma piada, Henry fala que ele é engraçado. Tommy muda de humor e começa a pressioná-lo para saber como ele é engraçado, gerando uma surpresa realista de todos em sua volta.

 

 

 

Christopher Guest em This Is Spinal Tap

This Is Spinal Tap é um dos mockumentaries(documentários falsos) mais famosos da história, apresentando uma banda britânica de heavy metal imaginária. O filme é uma sátira aos documentários sobre bandas de rock e da atitude rebelde dos músicos da época. E o filme todo é uma grande improvisação, para que realmente parecesse um documentário. Os atores principais são creditados como roteiristas do filme, inclusive. Mas a cena mais memorável do filme vem do absurdo: ao se deparar com um amplificador em que todos os botões vão para 11 ao invés de 10, o “diretor” pergunta ao guitarrista Nigel Tufnel o porquê de não simplesmente fazer só 10 níveis e aumentar o decibéis de cada um. O resultado é uma das piadas mais originais do cinema:

 

 

 

*Extra: This Is Spinal Tap é preservado pelo Registro Nacional de Filmes(EUA) por ser “culturalmente, historicamente e esteticamente significante”, foram lançados 4 álbuns reais após o sucesso do filme, que é a principal inspiração do grupo brasileiro Massacration. Assista logo!

 

Peter Sellers em Dr. Strangelove

 

Stanley Kubrick é conhecido como um diretores mais detalhistas e metódicos da história. Porém no campo da roteirização, frequentemente deixava os atores falarem livremente por vários takes, até achar uma performance natural e perfeita. Porém um ator que não precisava de muitos takes pra fazer algo genial foi Peter Sellers, que trabalhou com Kubrick em Lolita e Dr. Fantástico. No segundo, Peter executou 3 papéis completamente distintos, inclusive o estranho cientista que dá nome ao filme. O conselheiro ex-nazista do Presidente dos EUA(Também interpretado por ele) é um personagem com um jeitão completamente modelado por Sellers. Inclusive a mão desobediente com luva preta que deixa a seguinte cena tão engraçada, foi um improviso de Sellers. Ele achou a luva abandonada no set e decidiu que teria um impulso nazista na mão esquerda que tentaria desesperadamente segurar.

 

Hartman em Nascido pra Matar

Os sets de Kubrick renderam muitos momentos de improvisação geniais,como se percebe pela presença de 4 filmes do diretor na lista. Em Nascido pra Matar, o improviso veio também no próprio papel. R. Lee Ermey, um verdadeiro general dos Marines americanos, foi contratado como consultor para o filme, que segue a história de um grupo de novatos Marines na época da Guerra do Vietnã. O filme começa com o Sargento Instrutor Hartman se introduzindo para a turma que iria começar o treinamento, intimidando-os e mostrando a rigidez do seu método. Porém o ator contratado não estava sendo mau o bastante. Ermey pediu para Kubrick para tentar executar o discurso uma vez. Kubrick permitiu e ficou surpreso: ele fez um discurso de cerca de 10 minutos que deixou os outros atores sem palavras. Imediatamente o militar se tornou ator e intepretou o Sgt. Hartman por todo o filme.

 

Jack Nicholson em O Iluminado

Quem já leu o livro de Stephen King sabe que o filme é bastante diferente. Isso se deve à grande abertura a novas idéias que Kubrick teve na direção desse filme. Em várias cenas o diretor deixou o mínimo de roteiro possível, permitindo que os atores dessem a louca. Durante o final do filme Jack Nicholson visivelmente abandonou a sanidade. As cenas em que seu personagem Jack Torrance persegue sua mulher e filho pelo Hotel Overlook, o ator improvisou cada movimento. O olhar fixado, os passos demorados, o ranger de dentes…e a fala mais famosa do filme:”Heeeeere’s Johnny!”, que estampa a capa do longa.

 

Malcolm McDowell em Laranja Mecânica

Uma das cenas chave do grande filme de Stanley Kubrick, em que Alex e seus droogs invadem a casa de Mr. Alexander para espancar o escritor e estuprar a sua esposa, é famosa pelo seu sadismo, marcado pelo cantaroleio de “Singing In The Rain” por Alex enquanto comete suas atrocidades. O uso dessa canção não era planejado, porém Kubrick estava insatisfeito com os takes anteriores, em que o personagem não falava nada. Então o diretor pediu para McDowell cantar alguma música para movimentar a cena. A única letra que o ator se lembrava no momento era da célebre música de Gene Kelly, e Kubrick adorou o resultado, pedindo para os produtores comprarem os direitos da canção na mesma hora. O take foi para o corte final e hoje em dia é um símbolo do longa:

 

Benício del Toro em Os Suspeitos

Os Suspeitos(The Usual Suspects) conta a história de cinco criminosos que se conhecem e formar uma quadrilha após serem reunidos como suspeitos do roubo de um caminhão. Uma das cenas mais emblemáticas ocorre na sala de reconhecimento, onde eles são alinhados para o motorista dizer se um deles era o ladrão. Eles são instruídos a falar “Gimme the keys, cocksucker”(Me dê as chaves, chupador) para ajudar no reconhecimento. O que deveria ser uma cena séria virou uma bagunça dos atores porque eles não conseguiam falar a frase seriamente, principalmente Benicio Del Toro. Pra piorar, em um take ele soltou uma flatulência forte e ninguém conseguiu se segurar. Adivinha qual take foi pro corte final? Sim.

 

Anthony Hopkins em Silêncio dos Inocentes

O personagem Hannibal Lecter, interpretado brilhantemente por Anthony Hopkins, causa calafrios já nas primeiras cenas de Silêncio dos Inocentes. A estudante do FBI Clarice Starling é ordenada para analisar a mente do assassino, já aprisionado numa cela especial, para ajudar a encontrar um serial killer à solta. Conforme a conversa avança Hannibal passa a ser mais amedrontador. Após Clarice pedir para ele olhar a si mesmo e descrever-se, Hopkins improvisa algo assustador: “Um censor tentou me testar uma vez. Eu comi o fígado dele com favas e um belo Chianti” E para completar faz um som indescritível com a boca, para enfasar seu gosto por carne humana.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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