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Cézanne e Eu é um filme belo sobre a cena artística francesa, mas que tem problemas
CINÉFILOS
04 jul 2019 | Por Luana Franzão (luanafranzao@usp.br)

Cézanne e Eu é um filme belo sobre a cena artística francesa, mas que tem problemas

Cézanne e Eu (Cézanne et moi, 2016) retrata a amizade de uma vida entre o famoso pintor pós-impressionista Paul Cézanne (Guillaume Galienne) e o consagrado escritor realista Émile Zola (Guillaume Canet). Dirigido por Danèle Thompson, o filme é belo visual e narrativamente. Porém, apesar de possuir um olhar extremamente sensível sobre a sublime relação entre os personagens, o longa cai na repetição e possui poucos momentos empolgantes.

O filme se inicia com uma visita conturbada de Cézanne à mansão de Zola, ambos já maduros, no lançamento do livro L’Œuvre (A obra-prima, em livre tradução). Escrito por Zola em 1886, a obra narra veladamente muitas passagens da trajetória de Cézanne individualmente e da parceria entre ambos. A retratação do pintor feita pelo amigo é pouco lisonjeira, pois é fiel ao temperamento complicado e ao egoísmo latente que demonstrou por toda a sua vida. Ele fala também da falta de prosperidade na carreira de pintor e, consequentemente, da frustração decorrente desse fato. A visita gera conflitos entre os amigos de longa data, pois Paul sente-se ofendido e exposto por alguém que confiava.

Para explicar as razões da briga, o longa retoma toda a vida conjunta da dupla. Desde o momento em que se conheceram, ainda no colégio, se entrosaram muito bem. Émile era um menino pobre, de uma família de imigrantes italianos, muito doce e perspicaz. Já Paul, nascido em berço de ouro, era da aristocracia francesa, sempre inquieto e fugaz. Conforme eles cresciam, a relação de ambos se aprofundava pelo desejo comum: o de tornarem-se artistas, um poeta e o outro, pintor.

Cézanne pintando ao ar livre durante um diálogo com Zola [Imagem: Luc Roux]

As personalidades de ambos são muito bem delineadas pela narrativa. Enquanto Zola apresenta-se sempre paciente, compreensivo, complacente, Cézanne é feroz, temperamental e insatisfeito. Conforme a vida de ambos passa, Émile conquista o sucesso. Se torna um escritor renomado, enriquece e entra na Academia de Letras da França. Entretanto, o talento de seu melhor amigo não obteve o mesmo reconhecimento, pelo menos em vida. Tais fatos influenciam muito no andamento da história, pois enquanto o poeta parece sempre se compadecer do amigo, o pintor torna-se cada vez mais amargurado e mordaz perante o outro.

 Apesar de ser importante para explicar alguns acontecimentos, a forma com que as facetas de cada um foram colocadas passa a ser quase maniqueísta a partir de certo ponto do filme. Enquanto um dos personagens é amargo e ríspido com o amigo, o outro é passivo e indolente com as ignorâncias recorrentes por parte do artista plástico. Isso incomoda o espectador pela falta de reação e verossimilhança nesses comportamentos até os últimos momentos do longa, quando finalmente se explora esse conflito.

O longa torna-se repetitivo após o momento em que os personagens principais passam a morar em cidades diferentes. A cena sucede diversas vezes: um amigo visita o outro depois de longo tempo sem encontros, divertem-se, trocam experiências e diálogos, até que alguma inconveniência de Cézanne cria uma situação desagradável. Zola tenta amenizar os circunstâncias e compreender o amigo, e este, impassível, decide encerrar a temporada. 

Apesar de ser semelhante à realidade do século XIX, na qual se passam os eventos, e onde a comunicação era feita a partir de cartas e raros encontros, isso gera cansaço e monotonicidade em quem assiste.

Encontro de amigos, entre Zola, Cézanne e outros pintores, que inspirou algumas obras desses artistas. [Imagem: Luc Roux]

A fotografia e a caracterização geram imagens belíssimas. Desde os belos campos e lagos da Provença às ruas sinuosas de Paris, os olhos do espectador se deparam com cenas encantadoras.

As menções às obras de ambos os artistas são cronologicamente exatas e ajudam a compreender o momento em que os acontecimentos se dão. Além disso, são mostrados diversos cenários e momentos de confecção de grandes obras do próprio Cézanne e de outros pintores da época que pertenciam a seu ciclo de amizades, como Edouard Manet, Claude Monet e Camille Pisarro.

Cézanne e Eu é um filme belo e delicado, que, no entanto, pode ser um pouco lento e demasiadamente idealizado.

A estréia no Brasil está prevista para o dia 4 de julho, e você pode conferir o trailer aqui: 

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