Home Escuta Aí Chico Science & Nação Zumbi e o movimento Manguebeat
Chico Science & Nação Zumbi e o movimento Manguebeat
Escuta Aí
27 jun 2014 | Por Jornalismo Júnior

Quem é que nunca ouviu falar de “Maracatu Atômico” ou um trecho de “Manguetown” de Chico Science & Nação Zumbi? Vasculhe bem os cantos da sua memória, pois com certeza você já ouviu um desses sons.

O mangue
A banda Chico Science & Nação Zumbi foi uma das percursoras do Manguebeat. O movimento surgiu no início dos anos 90 para contestar a situação de abandono e descaso em o que a cidade do Recife se encontrava, além de ser uma inovação musical. A destruição dos mangues, a poluição dos rios, e uma pobreza e desigualdade social sem tamanhos transformavam a capital do Pernambuco na quarta pior cidade do mundo para se viver. Esse cenário calamitoso foi a motivação do movimento que tentou colocar vida de volta na já morta Recife.

A partir da ligação dos problemas da cidade com o conceito do novo “gênero musical”¹ surgiu o símbolo do Manguebeat: o caranguejo, que tem os mangues como habitat natural. No centro de Recife encontra-se uma escultura, comumente chamada de “o caranguejo da Rua Aurora”, feita de metal pelos artistas plásticos Augusto Ferrer, Jorge Alberto Barbosa, Lúcia Cardoso e Eddy Pólo. A obra seria uma homenagem a Chico Science, principal ícone do Manguebeat, e a Josué de Castro, geógrafo Pernambucano.

¹ No termo gênero musical foram utilizadas as aspas, pois, para os artistas, o movimento do mangue não possuía uma unidade de estilo. Então era muito arriscado considerar o Manguebeat um ritmo propriamente dito.

O Manguebeat foi um movimento que reuniu diversas bandas e artistas de Recife além de Chico Science e Nação Zumbi, como Mundo Livre S/A, Faces do Subúrbio e Comadre Fulozinha. Foto: Divulgação.

O Manguebeat também tinha como estilo de música o “não-estilo”. Dentre os artistas, não havia uma unidade rítmica – exatamente o que caracterizava o movimento. No caso de Chico & Nação, traziam a mistura do maracatu com rock, música eletrônica e outros ritmos brasileiros. Muitas das faixas continham samples de cantigas, diálogos ou forrós arrastados típicos do Nordeste. Além dos baques muito marcados (batidas graves características do maracatu, executadas por um instrumento de percussão chamado alfaia), as composições eram carregadas de apelos sociais, o que contemplava o objetivo do movimento. A faixa “Banditismo por uma Questão de Classe” é uma das que mais demonstram toda a crítica contida nas músicas da banda.

 

Todo o movimento do mangue e, consequentemente, as composições de Chico & Nação colaboraram para um manifesto chamado “Caranguejos com Cérebro”, escrito por Fred Zero Quatro, vocalista da banda Mundo Livre S/A. De início, o texto era para ser somente um release de um show, mas depois tomou proporções de um conceito. Confira alguns trechos:

 

 

 

 

 

 

 

 

Confira aqui o manifesto completo

Capa do CD Da Lama ao Caos, que, inicialmente, recebeu muitas críticas e quase não saiu das prateleiras das lojas. Foto: Divulgação.

 

Me organizando, posso desorganizar
Com o crescimento do movimento Manguebeat no início a década de 90, a banda lança seu primeiro disco: Da Lama ao Caos (1994), produzido por Liminha (sim, o do Domingo Legal). Com uma faixa de mesmo nome, o álbum perpetuou-se com uma importante frase do compositor e vocalista Chico Science: “eu me organizando, posso desorganizar”. Essa frase passou a ser utilizada até por alguns movimentos sociais e expressava que, ao colocar em ordem suas ideias, era possível abalar e mudar o sistema como ele é. Mais tarde, Marcelo D2 relembrou o importante sucesso e a frase “de que lado você samba?” em sua faixa Qual É?, marcando a presença de Chico Science & Nação Zumbi nos dias de hoje. Em 2007, o disco ficou em 13º lugar na lista dos 100 melhores discos da música brasileira, pela Revista Rolling Stone.

 

Capa do CD Afrociberdelia. O disco vendeu pouco como seu antecessor, porém os dois estouraram nas vendas após a morte do vocalista Chico Science. Foto: Divulgação.

 

E finalmente foi no álbum Afrociberdelia (1996) que surgiram as clássicas “Maracatu Atômico” (composta não por Chico, mas por Jorge Mautner) e “Manguetown”. Assim como em Da Lama ao Caos, o novo disco ficou em 18º lugar na mesma lista da Rolling Stone de 100 melhores discos da música brasileira. Nas novas faixas, as letras com apelo social continuaram e o som tornou-se mais agressivo e voltado para as guitarras. Algumas chegaram a fazer parte da trilha sonora do Novo Cinema Pernambucano. A música “Sangue de Bairro” cita o nome de vários capangas de Lampião e aparece no filme Baile Perfumado (1996), que conta a história do libanês Benjamin Abrahão, homem responsável pelas únicas imagens registradas do cangaceiro vivo no sertão brasileiro. As cenas do longa se tornaram parte do clipe de “Sangue de Bairro”.

Confira mais sobre a ligação entre o Manguebeat e o Novo Cinema Nordestino no Cinéfilos

Em fevereiro de 1997, morre o cantor e compositor Chico Science, em um acidente de carro entre Recife e Olinda. Após o seu falecimento, há tentativa de continuidade da banda, mas a voz seria insubstiuível. Atualmente, a banda Nação Zumbi ainda existe, com os vocais de Jorge dü Peixe. O mais novo álbum foi lançado em 07 de junho e tem como um dos objetivos retomar as raízes do Manguebeat.

Por William Nunes
willnunes94@gmail.com

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*