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Ciclone Idai: mais que tragédia ambiental, crise humanitária
Matéria Escura
31 mar 2019 | Por Jornalismo Júnior

No dia 14 de março de 2019, o Ciclone tropical nomeado Idai, causou a morte de mais de 700 pessoas em três países africanos: Malawi, Zimbábue e Moçambique (onde há maior número de mortes). O mundo se vira para África ― ou ao menos deveria.

O ciclone de categoria 4 carregou chuvas e ventos que chegavam a 200km/h e levou junto cidades, vidas e sonhos. Mais de 2,6 milhões de pessoas foram atingidas, 90% do portuário destruído, culminando na pior crise humanitária já enfrentada por Moçambique.

Alguns perguntam onde está a atenção da mídia, onde estão as hashtags, onde está a solidariedade. Para um país que em três meses sofreu com tragédias como a de Brumadinho e o recente massacre em Suzano, é incompreensível a falta de empatia frente a uma tragédia que atingiu um povo também falante do português.

Foto: Mike Hutchings/Reuters

‘Pré-tragédia’

Moçambique está localizado no sul da África. Banhado pelo oceano Índico, é um país de pouca infraestrutura e com uma história política conturbada. Apenas em 1975 deixou de ser colônia de Portugal e pouco tempo depois já embarcava em quase 5 anos de guerra civil. Durante toda sua pequena história em democracia houve pouco tempo para se estabilizar, crescer ou se preparar para qualquer tipo de crise.

O economista, formado pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-USP), Luciano Pimentel, afirma: “Moçambique apresenta o 9º pior IDH do mundo. É uma economia ruim, dependente de ajuda externa e sem infraestrutura natural para cuidar de grandes crises”.  

O país enfrenta sérios problemas de fome e pobreza extrema. Recentemente, em 2013 se envolveu em um novo conflito armado, mediante ao descobrimento de gás-natural.. “Não é um governo que trabalha pensando em uma estrutura futura, trabalha apagando incêndio. Tentando resolver um problema de cada vez”, explica Pimentel.

Atualmente, Moçambique vive dependente da ajuda que recebe de países como Estados Unidos, China, Japão e até mesmo o Brasil. Todavia, pesquisas apontam que isso é apenas eficiente em casos pontuais: “Resolve problemas específicos, sem dúvida, mas é incapaz de resolver os grande problemas que países assim tem. Isso provém da política doméstica, um país precisa encontrar qual é o seu caminho para o desenvolvimento”,  afirma a professora Adriana Schor do Instituto de Relações Internacionais da USP.

 

Aquecimento global e ciclones tropicais

O ciclone Idai caminha para se tornar o pior desastre climático do hemisfério sul, segundo a National Geographic Brasil.

Ciclones geralmente se formam em regiões de clima tropical e equatorial. Consiste em um fenômeno atmosférico, no qual os ventos giram em sentido circular em torno de um centro de baixa pressão. Pode chegar a 200 km/h e  geralmente é acompanhado de fortes tempestades.

Uma matéria do Nexo Jornal, publicada em 11 de junho de 2018, afirma a relação entre o aquecimento global e a formação de ciclones e furacões ainda mais perigosos. Segundo a revista Nature, com o aumento da temperatura nos pólos do planeta, a pressão entre esses pontos e os trópicos é afetada, causando uma menor diferença de pressão e diminuindo a velocidade dos ventos.

Imagem: Reprodução

Apesar de parecer estranho, a diminuição da velocidade de um ciclone ou furacão pode ser ruim e ainda mais desastroso. Com essa redução, as tempestades ganham ainda mais força e o evento climático demora mais tempo para se locomover.

 

‘Pós-tragédia’

Com o alto índice de mortes e destruição, Moçambique agora enfrenta o longo caminho da recuperação, ou pelo menos tenta. Luciano Pimentel, afirma acreditar que “o pior ainda está por vir. Com o alto risco de infecção, escassez de comida e remédios, é possível que ainda haja mais mortes. Toda ajuda é bem-vinda.”

O Médicos sem fronteiras (MSF), por exemplo, está enviando equipes e suprimentos para ajudar a estabilização dos países atingidos, informa Julia Bartsch, psicóloga da organização. A maior preocupação da organização no momento é ajudar os que sofreram danos físicos e psicológicos. Além disso, evitar que doenças infecciosas se espalhem. No dia 27 de março os primeiros casos de cólera foram confirmados e a tendência, infelizmente, é que eles aumentem no decorrer dos dias.

Foto: Huffpost Brasil

Para reerguer atingidos por crises humanitárias, o MSF conta com equipes médicas e suprimentos de tratamento de doenças. No caso de Moçambique, equipamentos que ajudem a tratar a água e assim evitar maior contaminação por doenças. “O MSF está preparado para agir em situações de crise, mas esses momentos geralmente demandam mais recursos do que o normal”, esclarece a psicóloga.

Com a atual situação vivida na África, a ONU estima que sejam necessários 337 milhões de dólares para ajudar a custear os três primeiros meses pós-desastre, mas até o dia 26 deste mês, apenas 2% do  valor citado havia sido arrecadado. O MSF aceita doações em dinheiro e pessoas com formação mínima de dois anos, além de outros requisitos apresentados no site. Não apenas o MSF, mas também a Unicef, a Central de Apoio, a Junta de Missões Mundiais e a ActionAid aceitam ajuda.

 

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