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A epopeia Ciclón: Os cinco anos do primeiro título da Libertadores do San Lorenzo
ARQUIBANCADA
13 ago 2019 | Por Johnny Taira e Pedro Sousa (johnny.taira@usp.br e pedro_sousa13@usp.br)

Quando Sandro Meira Ricci assoprou o apito aos 50 minutos do segundo tempo no Nuevo Gasómetro, os hinchas de Boedo puderam finalmente comemorar o título da Libertadores da América, após mais de um século de espera. No dia 13 de agosto de 2014, o San Lorenzo venceu em casa o paraguaio Nacional por 1 a 0, após empatarem por 1 a 1 no jogo de ida.

A sina de ser o único dos cinco grandes clubes argentinos a não ter vencido uma Taça Libertadores durou cerca de vinte e oito anos, já que o River Plate conquistou o torneio pela primeira vez em 1986. Nesse meio tempo, os torcedores do San Lorenzo acompanharam eras vitoriosas do Boca Juniors e do River Plate, que se consagraram como potências não apenas domésticas mas também continentais. Além disso, até mesmo clubes fora dos considerados como os “cinco grandes” levaram a taça, como Vélez Sarsfield. Por conta disso, muitas vezes, os torcedores foram alvos de piadas dos adversários. A conquista da Libertadores de 2014, portanto, possui um gosto especial para os adeptos do San Lorenzo – incluindo o mais conhecido deles, o Papa Francisco.

Com certeza foi o título mais importante, mais desejado. Me atrevo a dizer que foi o mais necessário da história”, afirma o torcedor Martín Coe, que também administra uma página no Facebook sobre o clube. Martín comenta que a Libertadores, com o passar do tempo, foi se transformando em uma obsessão do clube. Antes de 2014, a agremiação chegou perto por duas vezes: em 1960, foi eliminado na semifinal pelo campeão Peñarol e em 2008 nas quartas de final pela LDU, treinada pelo Edgardo Bauza. Para Martín, essa última desclassificação foi a mais dolorosa. “Tínhamos uma grande equipe e poderíamos ser, tranquilamente, campeões daquela edição. O estilo de jogo e o elenco nos deixavam confiantes”. Por ironia do destino, foi o próprio Bauza que comandou o Ciclón, como o clube é carinhosamente chamado, na conquista da Libertadores de 2014.

 

A (sofrida) saga até o título

“A campanha do Ciclón na fase de grupos só não foi pior do que a do Nacional/PAR, que  curiosamente, foi o vice-campeão da Libertadores”, relembra Joza Novalis, especialista em futebol argentino e editor do site Futebol Portenho. O relato dele se comprova pela maneira dramática que se deu a classificação no último jogo da fase de grupos contra o Botafogo. Os Cuervos precisavam, a qualquer custo, de uma vitória em casa – fazendo pelo menos 3 gols. Até os 44 minutos do segundo tempo, o Ciclón vencia por 2 a 0. “Lágrimas se misturavam nas arquibancadas do Gasómetro”, recorda Novalis. Ignacio Piatti, que seria um dos destaques do torneio, marcou o gol que levou o San Lorenzo à classificação para as oitavas de final. 

Nos últimos cinco torneios, apenas o River Plate fez campanha pior que o San Lorenzo[Imagem Johnny Taira]

O time se colocou nessa situação ao vencer apenas uma das cinco partidas até ali, empatando dois jogos e com outras duas derrotas, uma delas para o próprio Botafogo (2 a 0) no Rio de Janeiro. A campanha abaixo da crítica do time pode ser explicada pela troca de Juan Antonio Pizzi por Edgardo Bauza no comando técnico azulgrana. Enquanto o antigo comandante buscava um estilo de jogo mais ofensivo, Bauza pensava o jogo a partir da defesa. O elenco, acostumado com a maneira de Pizzi pensar futebol, logo se revoltou com Bauza e suas intensas cargas de treinamentos.

Joza Novalis conta que certo dia, durante uma pré-temporada da equipe na cidade de Los Cardales, os jogadores ficaram sentados no centro do gramado como protesto contra os rumos que a comissão técnica estava seguindo. Ao ver tal cena, Bauza teria dito para Romagnoli, o líder da revolta: “Deseja ir embora? Tudo bem, está vendo aquele ônibus estacionado ali? Pois bem, ele está te esperando, veio para cá apenas para levá-lo de volta a Buenos Aires”. Dali em diante, o time se uniu em volta da proposta de jogo defensivo do técnico argentino, e se fortaleceu para o restante da temporada. “O que fez a equipe melhorar na fase de grupos foi o aperfeiçoamento da proposta, voltada para uma defesa extremamente sólida e contragolpes em altíssima velocidade. Ícones relevantes da empreitada foram Ángel Correa e Ignacio Piatti”, é o que recorda Novalis.

No primeiro duelo da fase mata-mata, o Ciclón teve que enfrentar um dos candidatos ao título. “O Grêmio tinha a segunda melhor campanha da fase de grupos, atrás apenas do Vélez Sarsfield. Passar pelos gaúchos foi um pesadelo”, comenta Joza Novalis. A vitória simples, conquistada por ambos times nos dois jogos, levou a disputa para as penalidades máximas. Martín Coe, na sua visão como torcedor, considera que o duelo foi o mais marcante: “Foi uma partida muito dura. Uma decisão de pênaltis disputada, nosso goleiro fazendo defesas importantes, chutes que passaram muito perto do nosso gol.” 

A vitória nos pênaltis foi o duelo que, para Martín, evidenciou que aquele seria o momento do San Lorenzo ganhar a tão sonhada Taça Libertadores da América. “Quando acabou os pênaltis eu pensei: ‘se passamos por isso, nada mais vai nos eliminar. Somos campeões.’ Todos falam da famosa ‘sorte de campeão’. Se ela existe, foi fundamental para passarmos dessa fase.” Nas quartas de final, outro duelo parelho: o Ciclón enfrentou o campeão brasileiro Cruzeiro, que viria a conquistar o bicampeonato em 2014. Após vencerem por 1 a 0 na partida de ida, com gol do zagueiro Gentiletti, os argentinos empataram no Mineirão por 1 a 1, tento marcado pelo atacante Ignazio Piatti.

O chaveamento da semifinal guardou uma peculiaridade a qual o jornalista Douglas Ceconello, fundador do Impedimento e colunista no Meia Encarnada, classifica como “maravilhosa”: os quatro times presentes na fase nunca haviam vencido o torneio. Bolívar, San Lorenzo, Nacional e Defensor disputavam o tão sonhado título inédito da Taça Libertadores. “Um dos aspectos mais interessantes do torneio é, justamente, esse caráter democrático”, afirma Ceconello.

Se nas fases anteriores o coração cuervo foi mais do que testado, na semifinal, contra o Bolívar, houve uma trégua. O adversário que parecia ser menos perigoso se demonstrou assim na prática. Os comandados de Bauza pavimentaram o caminho para a final com goleada de 5 a 0 no jogo de ida. Destaque para o lateral direito Buffarini, que marcou um tento, e o lateral esquerdo Más, que anotou dois gols na vitória no Nuevo Gasómetro. A derrota do San Lorenzo por 1 a 0 no jogo de volta serviu apenas como burocracia para confirmar o que todos já sabiam: o Ciclón estava na tão sonhada final da Taça Libertadores. 

Cobrança de Néstor Ortigoza que deu o título ao San Lorenzo [Imagem Getty Images]

Na decisão, o clube de Boedo enfrentou o Nacional. A despeito do time paraguaio ser pouco tradicional no âmbito continental e colecionar campanhas modestas na Taça Libertadores – além de ter feito a pior campanha da fase de grupos – o clima de “já ganhou” não imperava. Joza Novalis afirma que os times do futebol argentino estão acostumados a tomar o rival como praticamente invencíveis: “Na lógica deles, se o rival é de outro mundo, os desafios para superá-lo também o são. Portanto, ao vencê-lo a glória será proporcional.” 

Em um duelo de times reconhecidos pela solidez defensiva, sobrou disposição das duas equipes. Em ambas as finais, prevaleceu o espírito de luta, com os dois times concedendo poucas chances de gols. No primeiro jogo, um empate por 1 a 1 com sabor amargo para o San Lorenzo, mesmo sendo fora de casa. Após abrir o placar com Mauro Matos já no segundo tempo, o Ciclón cedeu o empate no último lance da partida. Júlio Santa Cruz deixou tudo igual na decisão dos times que buscavam sua primeira Libertadores.

Dia 13 de agosto de 2014. Mais de 45 mil cuervos lotaram o Nuevo Gasómetro e acompanharam de perto mais um confronto duro entre duas equipes muito bem treinadas. Bauza tinha o desfalque importantíssimo de Piatti, considerado um dos melhores jogadores do time, o que ajuda a entender o jogo sofrido que o San Lorenzo fez. O sonho de conquistar a América quase virou pesadelo quando o Nacional mandou uma bola na trave argentina no primeiro minuto do jogo. Os paraguaios dominaram a partida até os 34 minutos, quando Coronel, lateral do Nacional, evitou um cruzamento esticando seu braço. Pênalti para o San Lorenzo. O responsável por deixar os Cuervos perto do título foi Nestor Ortigoza. Cobrança perfeita no canto oposto do goleiro Don. 

Por mais que a tensa possibilidade do empate paraguaio, e a consequente decisão por pênaltis, tenha permanecido até o fim do jogo, a sólida defesa de Bauza prevaleceu no restante da partida. Ao final do jogo, o Club Atlético San Lorenzo de Almagro fez juz à sua grandeza e se sagrou campeão da América. Conquistou a Libertadores com a 15ª campanha entre os classificados para o mata-mata. Edgardo Bauza e os jogadores que o questionavam no começo do ano entravam de vez para história do clube.

Esq. p/ dir. Em pé: Mercier, Torrico, Cetto, Gentiletti, Matos e Más.
 Agachados: Villalba, Buffarini, Romagnoli, Ortigoza e Cauteruccio. [Imagem: Martin Acosta – Reuters]

 

Pós-Libertadores

O elenco Ciclón de 2014 não era conhecido por ter grandes craques. Pelo contrário, a grande virtude do time era a força coletiva, com jogadores de qualidade que se encaixavam na formação tática de Edgardo Bauza. Dentre os atletas, Douglas Ceconello cita alguns destaques. “Os meias Mercier e Ortigoza, bons jogadores, funcionavam de maneira espetacular naquela campanha. Walter Kannemann futuramente ganhou outra Libertadores com o Grêmio e, atualmente, é um dos melhores zagueiros do continente. Piatti foi o grande nome na campanha e Ángel Correa a principal revelação, posteriormente comprado pelo Atlético de Madrid.”

Já Edgardo Bauza só se despediu do clube de Boedo no ano de 2015. Após a passagem vitoriosa na Argentina, o bicampeão da Libertadores veio se aventurar no futebol brasileiro e foi anunciado como treinador do São Paulo em 2016. Apesar das velhas novas desconfianças por seu futebol conservador, só foi eliminado na semifinal da Libertadores. Sua saída do Tricolor Paulista só se deu após um convite para treinar a seleção argentina. “Patón” Bauza não teve sucesso com Messi e companhia, comandou a seleção de seu país por somente 8 jogos e foi demitido da Albiceleste. O técnico ainda passou pelo mundo árabe antes de voltar ao futebol argentino em 2018. Como treinador do Rosario Central, conquistou seu último título: a Copa Argentina 2017-18. 

Quanto ao clube, o último título conquistado pela agremiação de Boedo foi a Supercopa Argentina de 2015. “O San Lorenzo acabou o campeonato passado em grande turbulência, apresentando um futebol pobre e ficando sem vencer por um bom tempo”, comenta Ceconello. Segundo o jornalista, a conquista da Libertadores ainda dá um certo crédito ao clube por parte da torcida, mesmo vivendo temporadas difíceis. “Além do mais, a atual empreitada deles é justamente a volta para Boedo, uma causa mais importante até do que vencer a primeira Libertadores, para se ter ideia do quanto significa para os cuervos.”

 

San Lorenzo: De volta ao lar

“Na Argentina, é muito forte a identificação dos clubes com seus bairros”, comenta Douglas Ceconello. Durante o período da Ditadura Militar, o San Lorenzo passou por uma crise financeira que culminou em uma pressão para ceder o terreno do seu antigo estádio ao governo. Houve a promessa de se construir um projeto habitacional no local onde o Viejo Gasómetro fora demolido, mas não foi cumprida. “No lugar disso, a área foi vendida para o Carrefour”, complementa Ceconello.

O jornalista explica que os hinchas do San Lorenzo passaram quase duas décadas peregrinando entre estádios rivais, o que contribuiu para a manutenção da relação entre a torcida e o bairro. Apesar da inauguração do Nuevo Gasómetro, em 1993, ainda faltava algo. “Os cuervos nunca se sentiram realmente em casa no Nuevo Gasómetro, que fica no bairro de Flores. Apesar de ser um bairro jovem, Boedo tem uma identidade muito forte. É lugar de tango, teatro e literatura. O bairro está cravado na alma do San Lorenzo e o clube ainda é componente indissociável da atmosfera que se respira em Boedo.”

No dia 1 de julho, o Ciclón pôde recomprar em definitivo o terreno da Avenida La Plata, número 1700. Protestos da torcida em 2012 abriram caminho para a criação da Lei de Restituição Histórica, o que possibilitou a recompra do terreno. Martín Coe comemora o feito: “Isso supera qualquer conquista desportiva do San Lorenzo. A volta ao Boedo sempre foi inevitável e agora é uma realidade. Logo teremos um estádio lá e quem sabe possamos voltar a levantar a taça da Libertadores.” Já para o torcedor Tino Benítez, “é como o filho que um dia se afastou da família sem saber se um dia retornaria e hoje está de volta ao lar”. 

Martín Coe e sua família em Marrocos, no Mundial Interclubes. No alto, a bandeira em homenagem ao seu pai, que faleceu dias após o título da Libertadores. [Imagem: Martín Coe]

Nunca é apenas um jogo de futebol

A conquista da Taça Libertadores de 2014 é, para os hinchas do Ciclón, uma longa história de redenção. Tino Benítez afirma: “ganhar a Libertadores foi o ponto mais alto de emoção que pude sentir em matéria esportiva com o clube amado”. Pai de dois adeptos do San Lorenzo, a família viveu partidas de muito sofrimento quando imperou a incerteza se o clube seria classificado ou eliminado. “Mas felizmente foi a nossa vez de vencer, finalmente pudemos gritar campeões da América.”

A conquista do título tem um significado ainda mais especial para Martín Coe. O motivo: seu pai. “Depois da glória máxima e de tirar um peso das costas, lamentavelmente ele veio a falecer. Isso aconteceu dias após a grande final. Foi uma montanha-russa de sentimentos, porque após conquistar o título mais importante da história ao lado do meu pai, logo depois foi um duro golpe, mas sentia uma tranquilidade em saber que os amamos muito e que ele se foi com a missão cumprida de ser campeão da América.” 

No Mundial Interclubes, disputado em Marrocos, Martín e sua família fizeram uma bandeira em homenagem ao pai. “De alguma forma, ele esteve presente com a gente, apoiando o San Lorenzo. Ele pode não estar fisicamente conosco, mas sempre estará em nossa bandeira e em nossos corações.” 

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