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Cinema cubano revolucionário: Gutiérrez Alea e o ICAIC
CINÉFILOS
26 fev 2014 | Por Jornalismo Júnior

por Ana Luisa Abdalla e Daniel Drumond Ribeiro
anita.m.abdalla@gmail.com e rd.drumond@gmail.com

A Revolução Cubana em 1959 trouxe importantes consequências em diferentes aspectos do país, e o cinema não ficou de fora. Seguindo o ideal de que a sétima arte era o melhor modo de difundir entre o povo as mudanças que a revolução pretendia, alguns jovens cineastas fundaram o  ICAIC (Instituto Cubano Del Arte y la Industria Cinematográficos). Entre esses estavam Julio García Espinosa, Alfredo Guevara e Tomás Gutiérrez Alea.

Em seus primeiros anos, o Instituto se dedicou especialmente à produção de documentários e noticiários, além de eventuais filmes de ficção. Tendo como enfoque críticas às questões políticas e sociais do país em meio a um período de desenvolvimento do socialismo cubano, o governo revolucionário buscava elevar Cuba a um polo produtor de arte cinematográfica, deixando o posto de somente consumidor.
Comparado a outros organismos culturais tutelados pelo Estado, o ICAIC possuía uma posição privilegiada e usufruia de certa autonomia em relação às políticas administrativas e culturais estabelecidas. Mas o grande interesse das esferas de poder em utilizar o cinema como veículo de propaganda ideológica criava um vínculo delicado e complexo entre o governo cubano e o meio cinematográfico. E foram justamente os raros filmes de ficção os principais responsáveis pelo aumento dessa tensão, tendo eles catalisado crises políticas e debates na sociedade cubana. Em 1991, por exemplo, a polêmica gerada pelas provocações do filme Alicia no Povo das Maravilhas (Alicia en el Pueblo de Maravillas, 1991), de Daniel Díaz Torres, quase fez com que o Instituto de Cinema fosse fechado pelo governo.

Os importantes passos de Alea

Tomás Gutiérrez Alea, cineasta e fundador do ICAIC, foi responsável por levar o cinema cubano a receber atenção em escala internacional. Sua produção do fim da década de 60, Memórias do Subdesenvolvimento (Memorias del subdesarrollo, 1968), é considerado um dos maiores filmes da história cubana. Foi também selecionado como um dos melhores filmes de todos os tempos pela Federação Internacional de Cineclubes, uma organização internacional representativa dos cineclubes (associação sem fins lucrativos que estimula a reflexão sobre o cinema),  membro do Comitê Consultivo da UNESCO e que agrupa hoje mais de 30 países.

La muerte de un burocrata

A Morte de um Burocrata (La muerte de un burocrata, 1966) é com certeza um dos grandes clássicos da cinematografia latino-americana. A comédia, do diretor Gutierrez Alea, é um retrato irônico, crítico e divertido da excessiva burocracia do Estado cubano, um dos mais notáveis problemas que assolavam a população na década de 60. O cartaz “Departamento de Aceleração de Processos: 1º Lugar em Ping-Pong” ilustra a odisseia burocrática percorrida pelo protagonista enquanto ele tenta conseguir uma pensão devido ao falecimento de seu tio Paco.

Juanchín é jogado de uma mesa a outra sem que nenhum dos atendentes do departamento parecesse realmente disposto a resolver o seu problema. Seu tio costumava ser um operário tão exemplar que foi enterrado junto à sua carteira de trabalho, e era impossível adquirir a pensão sem a documentação correta, apesar de também não haver possibilidade de retirar cópia ou segunda via. Necessitava-se, portanto, de exumar o cadáver, mas isso só poderia ocorrer normalmente após dois anos do enterro.

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Juanchín faz realmente de tudo para tentar abreviar o processo burocrático, mas acaba sendo em vão

Enquanto tio Paco é literalmente engolido pelo modo de produção industrial, Juanchín enlouquece e é sugado pela demência do Estado burocrático. Dessa maneira, A Morte de um Burocrata faz uma crítica profunda sobre a pouca funcionalidade dos processos no governo mesmo no período pós-revolucionário, ao mesmo tempo que satiriza a relação homem-trabalho na sociedade cubana.

Memórias do Subdesenvolvimento

Baseado em um romance homônimo de Edmundo Desnoes, Memórias do subdesenvolvimento (Memorias del subdesarrollo, 1968) é um dos maiores clássicos da filmografia latino-americana. Por meio dos olhos de Sergio, narrador intelectual e burguês que, apesar de nascido em Cuba, tem um ar bastante elitista e eurocêntrico, o diretor Gutierrez Alea seguiu na contramão do cinema soviético pós-revolucionário.

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Sergio, protagonista do filme

Com visões e opiniões bastante críticas e profundas em relação à sociedade cubana, o filme ilustra um cinema que não estava necessariamente atrelado à cartilha do governo, ao contrário dos filmes da URSS, que cumpriam com o papel de propaganda ideológica e de exaltação dos princípios e feitos da Revolução. Além disso, o filme explora a complexidade da relação entre o indivíduo e o grupo, expondo comportamentos e atitudes de políticos, assassinos e torturadores enquanto reivindicavam sua irresponsabilidade moral por seus atos.

De acordo com Sergio, “cada um se remete à própria individualidade quando quer se distanciar da miséria alheia que o contamina. Ou mergulha no grupo quando tem de ocultar sua própria responsabilidade e então contamina os outros descaradamente”. E Havana, agora provinciana, havia regredido de “Paris do Caribe” a “no máximo, uma Tegucigalpa do Caribe” após a Revolução. O narrador e protagonista, que viveu no filme o ano de 1961, estava em desacordo com os rumos tomados por Cuba e viu muita gente saindo do país em busca de uma vida fora do regime socialista. Mesmo seus amigos e sua esposa optaram pelo capitalismo das terras de Tio Sam e se mandaram para Miami, deixando-o sozinho na ilha com a qual a cada dia menos ele se identificava.

A cada passo da jovem Elena, cubana com que o personagem se relacionou por boa parte do longa-metragem, ele dizia conseguir sentir o atraso cultural, político e social latino-americano. Mas tudo era diferente com a alemã Hanna, que Sergio considerava bem mais madura e interessante do que as garotas do “terceiro mundo”. É como se ele se visse como um intelectual europeu cercado de cubanos de pensamento subdesenvolvido e de mulheres fúteis, despolitizadas.

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Incapaz de acumular experiências e colocá-las em prática para se desenvolver, Elena é no filme a encarnação do subdesenvolvimento

Mas, mesmo assim, quando Hanna decide tentar a vida em New York com os pais, Sergio resolve dar para trás e permanecer em Cuba, mesmo com planos já feitos. É como se o subdesenvolvimento sempre batesse à porta de Sergio. Cada dia menos feliz, ele herda a loja do pai e prefere dar continuidade ao negócio na ilha, por lá envelhecendo e apodrecendo com a facilidade de uma fruta no sol em um dia de verão no trópico de capricórnio.

Morango e Chocolate

A obra Morango e Chocolate (Fresas y Chocolate, 1994) é uma co-produção cubana-mexicana-espanhola dirigida por Gutíerrez Alea em parceria com Juan Carlos Tabío. Baseado no conto El Lobo, el bosque y el hombre escrito por Senel Paz em 1990, foi o primeiro filme cubano indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Uma produção bastante diferente das que Alea criava no ínicio do regime cubano, foi feito após o diretor ter se consagrado como um dos maiores cineastas do país e também consolidado-se como um dos heróis da revolução. Ao que parece, esses fatos são o motivo pelo qual esse filme, que faz uma forte crítica ao governo, saiu ileso de censuras.

O longa se passa em Havana em 1979 e conta a história de um jovem universitário e militante comunista, David (Vladimir Cruz), que, por acaso, conhece Diego (Jorge Perugorría), um artista homossexual com ideias completamente contrárias as suas e que não esconde seu descontentamento com o governo de Fidel Castro.  Coagido por um colega fidelissimo ao regime a se aproximar de Diego para descobrir que tipo de atividades clandestinas o artista estava envolvido, o estudante acaba se aproximando dele e criando, mesmo sem querer, um forte laço de amizade.

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David. à esquerda, em um dos primeiros encontros com Diego, à direita

Enquanto faz suas visitas, David conhece uma grande amiga e vizinha de Diego, Nancy (Mirta Ibarra),  que atua no prédio em que moram como vigilante, ou seja, é designada a observar os moradores para ver se encontra algum sinal de atitude contra-revolucionária. A personagem é um dos maiores destaques do filme. Enquanto “vigia”, dá um jeito de ganhar dinheiro no mercado negro, além de proteger Diego, e de ser extremamente religiosa. Conversa com as imagens de santos do apartamento de Diego, alimentando-as e ameaçando-as caso não atenda seus pedidos, alterna entre os extremos de alegria e depressão profunda. É o elo inicial que prende o estudante à companhia do artista.

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Nancy, uma personagem que alterna entre arrebatamento e tristeza profunda

Por meio de Diego, David conhece outro lado de Havana. Passa a observar às obras e belezas arquitetônicas da cidade, enquanto o artista não deixa a critíca de lado:: “É uma das cidades mais bonitas do mundo. Olhe bem para ela, antes que ela acabe de ser destruída”. A crítica que o filme faz ao regime é bruta e clara, mas é suavizada pela atmosfera doce e encantadora canalizada pelo personagem Diego. A amizade dos personagens, contra todos os preconceitos, se torna o chamariz da obra que, na realidade, fala nas entrelinhas sobre um regime duro e imutável após tantos anos.

 

 

 

 

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