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Como Corra! contribuiu para as discussões acerca de questões sociais no cinema de horror
CINÉFILOS
22 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Não é de hoje que os filmes de terror abordam, de forma crítica, questões sociais que refletem problemas latentes em nossa sociedade. O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1968) por exemplo, discutiu temas como o direito da mulher sobre seu próprio corpo e a gravidez indesejada, trazendo um grande gancho para o debate de assuntos relacionados ao feminismo. Já em A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, 1968), o diretor decidiu colocar como herói da trama um ator negro – algo que diz muito a respeito do longa, que foi produzido durante o auge da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.

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Cena do filme O Bebê de Rosemary [Fonte: Paramount Pictures]

Atualmente, a quantidade de filmes de terror lançados apenas com o objetivo de assustar é muito grande. O uso exaustivo de recursos como jump scares e os clichês do gênero acabam deixando as tramas rasas e vazias. O carro que não liga, o celular que nunca funciona, a queda “inesperada” dos protagonistas quando estão fugindo, a tomada de decisões estúpidas em situações óbvias e a garota que só sabe gritar são apenas alguns exemplos de fórmulas prontas usadas a todo instante.

Apesar disso, inúmeros filmes têm retomado o uso do terror como forma de explorar temáticas cotidianas, através de uma ótica crítica, com o objetivo de escancarar problemas que merecem ser discutidos. O cinema, desde sempre, quebrou com diversos estereótipos dos filmes de horror, que não se limitam a apenas sangue e gore.

Um exemplo recente disso pode ser visto em Corrente do Mal (It Follows, 2014), no qual a história traz, de forma criativa, uma mitologia assustadora sobre sexo. Uma jovem garota começa a ser perseguida por uma entidade após fazer sexo com um rapaz. A princípio a premissa parece estranha, mas quando a trama é analisada com mais calma é possível perceber a metáfora feita em relação às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

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Protagonista do filme Corrente do Mal [Metropolitan FilmExport]

Essa retomada mostra que o gênero ainda pode ser usado como alegoria para problemas que estão presentes em nossa sociedade. Às vezes de maneira mais clara, às vezes no subtexto da trama. O importante é que esses tipos de questões não só podem, como devem ser exploradas.

É exatamente isso que acontece com Corra! (Get Out, 2017). Na trama, Chris (Daniel Kaluuya) está prestes a conhecer a família da namorada branca, Rose (Allison Williams). No fim de semana que passará na casa dos pais da moça, o surgimento de situações estranhas deixará claro que algo está errado.

O filme debate muito questões relacionadas ao racismo de diversas formas. Em alguns momentos, esse assunto é tratado com sutileza, ficando nas entrelinhas e dependendo das percepções de quem assiste. Já em outros é completamente escancarado e evidente. Logo no início da trama, o casal está indo de carro para a casa da família da moça e Rose está dirigindo. Eis que, por acidente, ela atropela um cervo e a polícia chega ao local. De quem o policial vai pedir a carteira de motorista e a identificação? O mais coerente seria pedir os documentos de Rose, mas não é isso que acontece. Chris acaba tendo que mostrar os seus documentos, sendo que não era ele que estava dirigindo. Esse é apenas um dos exemplos que a trama traz acerca desse problema,  ainda muito comum, não só nos Estados Unidos como no Brasil também.

Ao chegar na casa da namorada, outro cenário muito comum na vida real é exposto: a família branca que possui apenas empregados negros. O patriarca Dean Armitage (Bradley Whitford) e a matriarca Missy Armitage (Catherine Keener) aparentam ser muito receptivos, contudo fica evidente que ambos, principalmente Dean, forçam uma aceitação do fato de Chris ser negro. “Votaria em Obama para um terceiro mandato”, diz o pai. A família tenta passar uma impressão de que está tudo bem, mas na forma como se comportam fica explícito que eles não querem parecer racistas.

O diretor Jordan Peele consegue criar uma atmosfera sombria em torno dessa situação, instigando o espectador a desconfiar de tudo que está acontecendo. Além disso, o crescente clima de suspense é a chave para nos levar ao clímax da história e a grande reviravolta. A sensação de desconforto e estranhamento é personificada nas personagens de Georgina (Betty Gabriel), a empregada, e Walter (Marcus Henderson), o caseiro. Ambos tentam parecer normais, porém quando Chris interage com eles, percebe que alguma coisa não faz sentido.

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Georgina chorando enquanto conversa com Chris [Universal Pictures]

Quando o grande segredo do filme é revelado, todas as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar. A família Armitage buscava pessoas negras para vendê-las como uma espécie de mercadoria, com o objetivo de transplantar a consciência do comprador para o corpo do indivíduo negro. Ao longo do filme, várias pistas são dadas do porquê pessoas brancas têm interesse em obter um corpo negro. Questões genéticas como as vantagens físicas, por exemplo, são citados pelo irmão de Rose. Durante uma festa dada na casa de campo da família, onde todos os convidados são pessoas brancas e mais velhas, o protagonista é tratado como um tipo de objeto a ser comprado. Todos o cercam para ver sua aparência e suas características. E no fim, ele é leiloado como se fosse uma mercadoria. Essa situação relembra o passado da escravidão no qual pessoas negras eram compradas e vendidas, como se não fossem seres humanos.

Além disso, um ponto que pode ser levantado é a negligência da sociedade para com a população negra. Pessoas negras são escolhidas para esse processo também porque a justiça não nota e muito menos dá importância para o seu desaparecimento.

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O anfitrião da festa leiloando Chris para seus convidados [Fonte: Divulgação]

Outro aspecto muito bem trabalhado no filme é o alívio cômico. Peele consegue trazer, mesmo em situações de descontração, debates interessantes. Em dado momento da trama, no qual Chris está desconfiado de toda estranheza que o cerca, ele liga para seu amigo Rod (LilRel Howery) com o intuito de contar o que está acontecendo. Ao relatar todas as situações estranhas, Rod logo fala que os Armitage tem um plano de sequestrar negros para transformá-los em escravos sexuais. Isso parece um absurdo, entretanto leva o espectador a pensar na questão da fetichização do corpo negro, tratado como objeto sexual em função de certas “vantagens” pautadas em estereótipos.

A trilha sonora também merece destaque. Usada de forma a construir a tensão do filme, a música que surge na primeira cena é bem sugestiva. Run, Rabbit, Run! (Flanagan & Allen) toca enquanto um homem negro que está andando por um bairro branco à noite é violentamente sequestrado. Em tradução livre, a letra da música diz: Na fazenda, toda sexta / Na fazenda, é dia de torta de coelho / Então toda sexta que chega / Eu me levanto cedo e canto essa musiquinha / Corra, coelho, corra coelho, corra, corra corra (2x) / Bang, bang, bang, bang faz a arma do fazendeiro. Metáfora muito bem colocada a respeito da situação dos negros tanto no próprio filme, como também na realidade violenta.

Ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Original, Corra! é um filme que traz uma história criativa dentro do gênero de terror e faz inovações na forma como utiliza seus recursos para fazer uma crítica ao racismo velado.

por Marcelo Canquerino
marcelocanquerino@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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